Quando a República Tcheca desembarcar na Copa do Mundo de 2026, o cenário será completamente diferente daquele vivido em sua última participação no torneio. Vinte anos atrás, os tchecos chegaram ao Mundial da Alemanha cercados por expectativa após a campanha histórica na Eurocopa de 2004. O elenco contava com estrelas como Pavel Nedvěd, Petr Čech, Jan Koller, Milan Baroš e Tomáš Rosický, nomes que brilhavam nas principais ligas da Europa.
Apesar do talento disponível, a campanha terminou de forma decepcionante. Depois de vencer os Estados Unidos por 3 a 0 na estreia, a equipe foi derrotada por Gana e Itália, ambas por 2 a 0, e acabou eliminada ainda na fase de grupos.
Aquela Copa marcou simbolicamente o encerramento da geração mais talentosa da história recente do futebol tcheco. Desde então, a seleção não conseguiu retornar ao Mundial até a edição de 2026.
Agora, o país volta ao principal palco do futebol mundial com uma proposta completamente diferente. Se antes a esperança estava nos craques, hoje ela está no coletivo.
Uma seleção construída pelo trabalho coletivo
A atual República Tcheca não possui o mesmo número de estrelas internacionais que encantaram os torcedores nas décadas anteriores.
Na verdade, o elenco atual é um reflexo das mudanças vividas pelo futebol do país. Os jogadores continuam competitivos, mas poucos atuam nos gigantes europeus. O próprio elenco conta com apenas dois atletas ligados a clubes da Premier League: Ladislav Krejčí e Tomáš Souček.
Essa realidade fez a seleção desenvolver uma identidade muito clara.
O técnico Miroslav Koubek construiu uma equipe baseada na intensidade física, disciplina tática e organização sem a bola. Diferentemente da geração de 2006, que dependia fortemente de seus principais jogadores, a atual equipe busca dividir responsabilidades entre todos os setores.
Essa característica torna o time menos vulnerável a lesões ou suspensões. Enquanto a ausência de Pavel Nedvěd na semifinal da Eurocopa de 2004 e a lesão de Jan Koller na Copa de 2006 tiveram impacto enorme no desempenho da equipe, o grupo atual consegue absorver melhor a perda de jogadores importantes.
A classificação para a Copa do Mundo ilustra bem essa mentalidade coletiva.
Mesmo após uma derrota por 5 a 1 para a Croácia e um tropeço surpreendente diante das Ilhas Faroe, a equipe conseguiu se reorganizar. As derrotas custaram o cargo de Ivan Hašek, mas a chegada de Miroslav Koubek trouxe estabilidade suficiente para conduzir a seleção até o Mundial.
As bolas paradas se transformaram na principal arma
Se existe um aspecto que define o futebol da República Tcheca atualmente, é a eficiência nas bolas paradas.
Os números das Eliminatórias Europeias mostram isso de maneira clara.
A seleção marcou 11 gols originados em bolas paradas. Nenhuma outra equipe da UEFA foi tão eficiente nesse tipo de situação.
Metade dos 22 gols marcados durante toda a campanha classificatória nasceu justamente de jogadas de bola parada.
O dado se torna ainda mais impressionante quando observamos a variedade dessas ações. A República Tcheca foi uma das únicas seleções das Eliminatórias a marcar pelo menos um gol em cada uma dessas categorias: pênalti, escanteio, falta indireta e lateral lançado para a área.
Além disso, liderou toda a competição em gols marcados após cobranças de escanteio, com sete.
Isso demonstra que não se trata apenas de uma coincidência estatística, mas de uma característica incorporada ao modelo de jogo da equipe.
Em uma Copa do Mundo, onde muitos confrontos são decididos por detalhes, esse tipo de eficiência pode representar uma enorme vantagem competitiva.
Patrik Schick lidera uma geração sem superestrelas

Embora a República Tcheca esteja menos dependente de talentos individuais do que no passado, existe um jogador que se destaca acima dos demais.
Patrik Schick chega ao Mundial como principal referência técnica da equipe.
O atacante do Bayer Leverkusen vive uma das melhores fases de sua carreira e recentemente entrou para a história ao se tornar o primeiro jogador tcheco a alcançar a marca de 100 gols nas cinco principais ligas da Europa.
Os números recentes mostram a qualidade do centroavante.
Desde sua recuperação de uma lesão no adutor, no final de 2023, Schick marcou 37 gols mesmo apresentando um índice de gols esperados de apenas 29,8. Isso significa que superou sua expectativa estatística em 7,2 gols.
Entre todos os jogadores das cinco principais ligas europeias, apenas sete conseguiram desempenho superior nesse quesito durante o mesmo período.
Ao seu lado surge outro nome importante: Pavel Šulc.
Após sua transferência para o Lyon, o meia-atacante se transformou em uma das revelações da Ligue 1, registrando média de 0,63 gol por 90 minutos, uma das melhores de todo o campeonato francês.
Onde a República Tcheca pode chegar?
O grupo da República Tcheca está longe de ser impossível.
Os tchecos terão pela frente Coreia do Sul, África do Sul e México. Nenhuma dessas seleções aparecem com claro favoritismo para se classificar, o que torna a disputa pela vaga bastante equilibrada.