Quando a Inglaterra divulgou sua convocação para a Copa do Mundo, alguns nomes chamaram atenção pelas ausências. Phil Foden, Cole Palmer, Trent Alexander Arnold e Harry Maguire ficaram fora dos planos de Thomas Tuchel, criando uma das listas mais debatidas dos últimos anos. Mas entre todas as surpresas, uma acabou chamando atenção por um motivo diferente: o retorno de Ivan Toney.
O atacante do Al Ahli passou quase um ano longe da seleção inglesa e sequer vinha sendo presença constante nas convocações recentes. Sua última aparição sob comando de Tuchel havia sido uma entrada nos minutos finais contra Senegal em junho de 2025. Desde então, ficou fora das quatro listas seguintes e parecia ter desaparecido completamente dos planos do treinador.
Por isso, sua volta gera uma pergunta natural: por que Thomas Tuchel decidiu trazer Toney novamente para a seleção justamente em um momento em que vários jogadores tecnicamente talentosos ficaram pelo caminho?
A resposta parece passar por algo que o treinador alemão vem deixando claro desde que assumiu a Inglaterra: reputação pesa menos do que desempenho atual.
Toney supera Harry Kane em alguns quesitos
O primeiro motivo que explica a decisão está nos números produzidos por Ivan Toney durante a temporada.
O atacante terminou o ano com 32 gols em 32 partidas no campeonato saudita, além de sete assistências. Mais do que a quantidade de gols, alguns dados chamam atenção pela eficiência apresentada.
Entre os principais centroavantes ingleses convocáveis para a seleção, Toney terminou a temporada com o melhor aproveitamento de finalizações, convertendo 34,4% de seus chutes em gols.
A comparação com outros nomes da posição ajuda a explicar a escolha:
Harry Kane
31 jogos
36 gols
5 assistências
30,3% de conversão
Ollie Watkins
36 jogos
14 gols
3 assistências
17,7% de conversão
Danny Welbeck
36 jogos
13 gols
1 assistência
23,2% de conversão
Dominic Calvert Lewin
34 jogos
14 gols
1 assistência
19,4% de conversão
Dominic Solanke
15 jogos
3 gols
0 assistências
15% de conversão
Ivan Toney
32 jogos
32 gols
7 assistências
34,4% de conversão
Os números inclusive mostram algo curioso: Toney terminou a temporada com mais assistências e maior eficiência nas finalizações do que Harry Kane.
Claro que existe um debate importante sobre o peso desses números. A liga saudita não possui o mesmo nível competitivo da Premier League, LaLiga ou Bundesliga. Mas ignorar completamente os dados também seria injusto.
Para efeito de comparação, Cristiano Ronaldo marcou 53 gols em 60 jogos na mesma competição. Toney registrou 55 gols em 62 partidas ao longo de duas temporadas.
Isso não significa necessariamente que ele esteja no mesmo nível do português, mas mostra que seu rendimento ofensivo foi extremamente consistente.
Trajetória de Toney ajuda a explicar a confiança de Tuchel
Ivan Toney construiu uma carreira muito diferente da maioria dos principais nomes da seleção inglesa.
Enquanto muitos jogadores chegam à elite ainda muito jovens, sua evolução aconteceu de maneira gradual. O atacante começou no Northampton, passou pelo Newcastle, mas foi emprestado seis vezes diferentes antes de encontrar estabilidade profissional. Depois atuou pelo Peterborough e conseguiu um feito pouco comum: marcou gols nas quatro principais divisões do futebol inglês.
Foi apenas no Brentford que sua carreira mudou de patamar.
Toney teve papel importante no acesso do clube à Premier League em 2021 e alcançou seu auge na temporada 2022/23, quando marcou 20 gols no campeonato inglês.
Sua chegada à seleção também aconteceu mais tarde do que em outros atacantes ingleses. O atacante tinha 27 anos quando estreou pela equipe principal. Para comparação, Harry Kane já possuía 46 partidas pela Inglaterra na mesma idade, enquanto Wayne Rooney acumulava 78.
A trajetória do atacante também passou por momentos turbulentos. Em 2023, Toney recebeu uma suspensão de oito meses após ser considerado culpado por 232 violações das regras de apostas da Federação Inglesa.
Depois de retornar aos gramados, voltou marcando pelo Brentford e posteriormente participou da Eurocopa de 2024 antes de seguir para o Al Ahli, da Arábia Saudita, em uma transferência avaliada em aproximadamente 40 milhões de libras.
Mas a principal discussão em torno de sua convocação continua existindo. Existe quem argumente que a Inglaterra já possui Harry Kane e Ollie Watkins e não precisava de mais um centroavante na lista, principalmente em um momento em que jogadores versáteis e meias criativos ganharam ainda mais espaço no futebol moderno.
Por outro lado, a decisão de Thomas Tuchel parece mostrar uma ideia diferente. Mais do que acumular nomes talentosos no setor ofensivo, o treinador parece buscar perfis específicos para determinadas situações dentro dos jogos.
Nesse cenário, Toney oferece características que poucos jogadores ingleses conseguem reunir ao mesmo tempo: presença física dentro da área, eficiência nas finalizações e força no jogo aéreo.
Talvez ele não seja o nome mais óbvio entre os convocados da Inglaterra. Mas olhando para os números da temporada, sua eficiência ofensiva e o papel que pode desempenhar dentro do elenco, a escolha de Tuchel deixa de parecer apenas uma surpresa e passa a fazer mais sentido dentro da construção da equipe para a Copa do Mundo.