O Tottenham conseguiu transformar mais uma derrota fora de casa em um novo capítulo caótico de uma temporada que parece não ter fim, pelo menos o sofrimento. O revés por 3 a 2 para o Bournemouth, decidido nos acréscimos, foi apenas o ponto de partida para uma noite de tensão, cobranças públicas, discussões com torcedores e, principalmente, um recado duríssimo do capitão Cristian Romero à hierarquia do clube.
Se dentro de campo os Spurs mostraram fragilidade defensiva e ofensiva, numa nova oportunidade sairam de mãos vazias, mas no caso, fora dele o cenário foi ainda pior. O gol de Antoine Semenyo, aos 95 minutos, encerrou uma sequência de 11 jogos sem vitória do Bournemouth e empurrou o clube londrino para um lugar incômodo na tabela: o 14º lugar da Premier League, com apenas duas vitórias nos últimos 12 jogos.
Discussões com a torcida e clima pesado
Assim que o árbitro apitou o fim da partida, o que se viu foi um ambiente completamente tóxico e caótico no setor visitante. Torcedores do Tottenham protestaram de forma intensa, e alguns jogadores resolveram responder. Micky van de Ven, Pedro Porro e João Palhinha se envolveram em discussões diretas com os fãs, algo que já havia acontecido na temporada passada, no mesmo estádio.
Palhinha tentou amenizar a situação depois, dizendo que os torcedores estavam apenas expressando frustração e que o elenco entende o momento. Mas a verdade é que o desgaste entre arquibancada e elenco está cada vez mais visível e perigoso, porque não tem sido vista mudança dentro das quatro linhas, o que resta para os fãs da equipe reclamarem sobre o que está diante de seus olhos.
Romero assume responsabilidade… e aponta o dedo
Poucas horas depois, veio o episódio que realmente colocou fogo no noticiário do Tottenham. Capitão e um dos líderes técnicos do time, Cristian Romero publicou um longo texto no Instagram pedindo desculpas à torcida. Até aí, nada de novo, mais do mesmo. O problema (ou a coragem, dependendo do ponto de vista) veio na sequência.
Em um trecho que rapidamente viralizou, Romero afirmou que, em momentos difíceis como esse, “outras pessoas deveriam aparecer para falar, mas não aparecem, como vem acontecendo há vários anos”. E foi além: disse que essas pessoas “só aparecem quando as coisas vão bem, para contar algumas mentiras”.
A frase foi posteriormente editada e a parte sobre “mentiras” acabou removida, mas o estrago já estava feito, o argentino há havia colocado a lenha na fogueira. A mensagem era clara e direta: Romero não estava falando do elenco, nem da comissão técnica. O alvo era a hierarquia do Tottenham, os cabeças da instituição, o que acaba chamando atenção pelo fato de Daniel Levy não estar mais no posto.
Mesmo com a edição, o tom do desabafo continuou forte. O argentino reforçou que os jogadores assumem a responsabilidade, mas cobrou presença e transparência de quem comanda o clube nos bastidores. Não por acaso, companheiros como Richarlison e Pedro Porro demonstraram apoio público à postagem. Romero em si, está longe de viver o melhor de seus momentos, vive inclusive uma péssima fase com a camisa dos Spurs, mas ainda é uma peça vital no elenco do atual campeão da Europa League.
Um recado que não é isolado
O posicionamento de Romero não surge do nada. Em junho, quando Ange Postecoglou foi demitido, o zagueiro já havia publicado uma mensagem enigmática falando sobre “os muitos obstáculos que sempre existiram e sempre existirão” no Tottenham. Na época, o texto foi interpretado como mais uma crítica velada à estrutura do clube.
Agora, o tom ficou bem menos velado.
Em um momento em que o Tottenham passa por mudanças internas importantes, com a saída de Daniel Levy da presidência, maior controle do Lewis Family Trust e a recente chegada do CEO Vinai Venkatesham, o capitão expõe aquilo que muitos torcedores já sentem: falta liderança clara e comunicação nos momentos de crise, sem esquecer também, da força no mercado de transferências.
Thomas Frank pressionado (e o copo do Arsenal…)
No meio de tudo isso, Thomas Frank também vive dias difíceis, talvez está impossíveis. O treinador está claramente pressionado pelos resultados ruins e ainda precisou lidar com uma situação, no mínimo, constrangedora: foi flagrado bebendo café em um copo com o escudo do Arsenal, maior rival do Tottenham.
Frank explicou que não percebeu o detalhe e disse que seria “completamente estúpido” fazer isso de propósito. Ainda assim, para uma torcida já irritada, o episódio virou símbolo de um clube perdido até nos detalhes. Só imaginar o Abel Ferreira num jogo do Palmeiras, bebendo num copo do Corinthians, para ter uma ideia sobre o tamanho da situação.
Dentro de campo, o treinador afirmou que o Tottenham jogou bem e merecia mais, especialmente no segundo tempo. Mas o discurso já não convence tanto assim quando os números mostram que apenas o Wolverhampton perdeu mais jogos na Premier League desde o início da temporada passada, algo que escancara e potencializa os problemas.
Futuro incerto e alerta ligado
O ex-técnico dos Spurs, Tim Sherwood, resumiu bem o cenário: o clima é pesado, a torcida está impaciente e Thomas Frank corre riscos reais de demissão, o tempo passa e o time não melhora, nem se encaminha para isso. Ele até disse que espera que o clube não “aperte o botão” cedo demais, mas admitiu que não ficaria surpreso se isso acontecesse.
No fim das contas, o Tottenham vive mais uma crise que vai muito além de uma derrota. O desabafo de Romero escancarou um problema estrutural, que já dura anos e segue sem solução clara. Quando o capitão sente a necessidade de falar publicamente sobre “mentiras” e ausência de dirigentes, é sinal de que algo está muito errado.
E enquanto ninguém aparece para explicar, o Tottenham segue afundando, dentro de campo e fora dele.
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