O Tottenham ainda não figura entre os melhores times do mundo na atualidade, e até a última partida contra o Everton pela Premier League, muitas dúvidas pairavam sobre o trabalho de Thomas Frank. A questão é que o time londrino se encontra na terceira colocação do campeonato nacional e segue vivo na Champions League. Talvez as altas expectativas estejam distorcendo a percepção sobre os resultados, porque o dinamarquês tem feito um trabalho bem interessante por lá.
Sempre existe uma forma diferente de ver as coisas.
Uma base sólida e uma ideia clara
Thomas Frank chegou ao norte de Londres com uma missão ingrata: reorganizar um elenco abalado por uma temporada caótica, ainda que coroada pela surpreendente conquista da Europa League.
Era sua primeira oportunidade em um time de ponta na Inglaterra e, junto dela, o desafio de quebrar um tabu surreal e elevar o nível de expectativa do clube.
O treinador ainda enfrenta questões importantes no sistema ofensivo do Tottenham, mas, ao mesmo tempo, conseguiu algo que o time não tinha há anos: uma defesa sólida e confiável.
Seja pelas atuações consistentes dos defensores ou pelas exibições surreais de Guglielmo Vicario, como na última partida da Champions contra o Monaco, o sistema defensivo se tornou o pilar do sucesso recente.
O que antes era um time aberto demais, agora é um grupo que sabe sofrer e sabe vencer.
E se há algo que Frank trouxe de seu tempo no Brentford, foi justamente isso: a noção de que todo time competitivo começa por ser difícil de bater.
Na Premier League 2025/26, o Tottenham disputou 8 jogos, sofreu apenas 7 gols e já soma 3 clean sheets, números que o colocam entre as cinco defesas menos vazadas do campeonato.
Para efeito de comparação, na mesma altura da temporada passada, os Spurs já tinham levado 14 gols.
Essa diferença não é coincidência. Frank priorizou o básico: organização, disciplina e compactação.
A ideia era clara desde o primeiro treino: arrumar a casa antes de decorar a sala. E está funcionando.
“Não é bonito, mas é eficiente” e tá tudo bem!
É verdade, o Tottenham de Frank ainda não encanta.
Há jogos em que falta criatividade, e o time confia demais nos momentos de inspiração individual de Mohammed Kudus que, sejamos honestos, tem correspondido.
Mas também é verdade que o treinador dinamarquês vem enfrentando uma lista de lesões de fazer inveja a qualquer hospital: Dejan Kulusevski, Dominic Solanke e James Maddison estão fora há semanas.
Mesmo assim, o Tottenham segue firme.
O time venceu o Everton por 3 a 0 com autoridade e mostrou que, mesmo cansado pela viagem a Mônaco pela Liga dos Campeões, sabe administrar vantagens.
Sim, recuou demais no segundo tempo e sofreu mais do que deveria, mas quem não faria o mesmo depois de 90 minutos intensos fora de casa?
Frank leu o momento, protegeu a liderança e garantiu os pontos.
E o torcedor pode até chiar, mas no fundo sabe: há método na cautela.
A evolução vem aí
O mais empolgante é que esse Tottenham ainda está em construção.
Se você lembrar do Brentford sob o comando de Frank, vai reconhecer o padrão: o time começou direto, físico, simples e, aos poucos, foi se tornando mais técnico, fluido e criativo.
Não há motivos para pensar que o mesmo não vá acontecer em Londres, especialmente com jogadores de qualidade muito superior.
Frank já mostrou que sabe evoluir ideias ao longo do tempo, e no Tottenham ele tem um elenco que permite sonhar alto.
Basta imaginar Maddison e Kulusevski de volta, somando talento e visão ao pragmatismo atual, para enxergar o potencial do que vem aí.
Pragmatismo agora, brilho depois
A torcida do Tottenham, coitada, já se acostumou com os altos e baixos de técnicos de estilos completamente opostos.
De um Conte ultra-defensivo para um Postecoglou que atacava em blocos e com linhas altíssimas, o contraste era brutal.
Thomas Frank, por sua vez, parece querer o meio-termo: organização defensiva com liberdade ofensiva gradual.
E esse pode ser o segredo do sucesso.
O time não precisa escolher entre jogar bonito ou ser competitivo, pode ser os dois.
Só precisa de tempo, saúde e paciência da arquibancada.
O Tottenham que o torcedor pode (finalmente) reconhecer
Thomas Frank ainda está longe de concluir seu projeto, mas já deu ao Tottenham algo que parecia perdido: identidade.
É um time que corre, luta, defende junto e começa a acreditar novamente.
O futebol ainda não é o mais empolgante, mas os resultados estão lá, e o resto virá com o tempo.
No fim das contas, o “efeito Thomas Frank” não é só tático, é emocional.
Ele devolveu ao Tottenham o prazer de competir.
E, se continuar nesse ritmo, vai devolver também o prazer de sonhar.
Foto: IMAGO