Faltando nove meses para a Copa do Mundo, Thomas Tuchel ainda está no laboratório tentando encontrar a fórmula ideal para o meio-campo da Inglaterra. O treinador alemão, que assumiu a seleção para suceder Gareth Southgate, já deixou claro que não pretende bater o martelo agora. E não é por indecisão pura: as lesões, as diferentes funções que seus jogadores exercem em seus clubes e a necessidade de flexibilidade em torneios curtos obrigam Tuchel a manter várias portas abertas até a convocação final.
Para os jogos das Eliminatórias contra Andorra, em Villa Park, e Sérvia, em Belgrado, Tuchel chamou pela primeira vez Elliot Anderson, destaque do Nottingham Forest, e Adam Wharton, do Crystal Palace. Mas Wharton se lesionou e acabou cortado, abrindo espaço para Ruben Loftus-Cheek. Assim, o treinador tem no momento quatro opções para o setor: Jordan Henderson, Declan Rice, Anderson e Loftus-Cheek. John Stones, que chegou a ser cogitado como um “camisa 6” improvisado, deixou a concentração com um problema muscular e voltou para o Manchester City.
Um setor cheio de perguntas, poucas respostas
Desde que assumiu a seleção inglesa, Tuchel já convocou 13 meias diferentes em apenas três listas. É um número que mostra claramente como ele ainda não encontrou o equilíbrio que procura. No Arsenal, Rice virou um “box-to-box” mais ofensivo, e o alemão não quer usar o volante na função mais recuada, para não limitar suas chegadas ao ataque. Henderson, por sua vez, voltou à Premier League pelo Brentford depois de passagens pelo Oriente Médio e pela Holanda, e ainda tenta mostrar que tem pernas para proteger a defesa como fazia na era Southgate.
Anderson e Wharton são os “wildcards” de Tuchel. Anderson se destacou no Forest pela combatividade e pelas bolas paradas, mas também atuou bastante adiantado, às vezes até como ponta. Wharton brilhou na campanha do Palace na Copa da Inglaterra e ganhou minutos importantes na Premier League, mas também não é um “5” puro. Loftus-Cheek, chamado de última hora, vive fase mais ofensiva no Milan, mas Tuchel o conhece dos tempos de Chelsea e sabe que ele pode fazer papéis mais recuados. O ponto positivo é que todos são versáteis; o negativo é que nenhum é o “pivote” clássico que fecha a frente da zaga.
John Stones e outras soluções criativas
A ideia de usar John Stones no meio não é descabida. No Manchester City, Guardiola já transformou o zagueiro em uma espécie de meio-campista na saída de bola. Desde 2017/18, Stones já jogou mais de 1.100 minutos no setor central na Premier League, o equivalente a 12 partidas inteiras. Tuchel chegou a admitir que vê nele características de um “camisa 6” moderno, mas, por enquanto, a lesão do jogador atrapalha qualquer tentativa de teste. Mesmo assim, o técnico fez questão de dizer publicamente que Stones continua sendo peça importante, elogiando seu peso como “cola social” no vestiário.
Outro nome que ronda os bastidores é Myles Lewis-Skelly, joia do Arsenal. Embora tenha despontado como lateral-esquerdo na seleção sub-21, ele se formou como volante e Tuchel já o descreveu como um “6 invertido” após seu primeiro jogo no comando da Inglaterra. Angel Gomes, hoje no Olympique de Marselha, também é um perfil que agrada à FA, lembrando um Frenkie de Jong pelo estilo de receber a bola dos zagueiros e sair jogando. São alternativas que mostram que o alemão não tem medo de pensar fora da caixa para resolver seu maior dilema.
Um dilema de luxo para Tuchel em um time estrelado
Se tem algo que Tuchel faz questão de repetir é que não lhe faltam jogadores de qualidade. “Temos top players e vamos encontrar a dupla certa”, disse na última coletiva. Para ele, a mobilidade dos seus meio-campistas é uma vantagem no futebol moderno, e não um problema. Em torneios curtos como a Copa do Mundo, a capacidade de adaptação pode ser tão valiosa quanto ter um titular incontestável.
O cenário mais provável, se todos estiverem saudáveis, é ver Jude Bellingham como um 10 e Rice como um 8 mais solto. Falta, porém, definir quem será o “carregador de piano” à frente da defesa. Henderson é o candidato natural pela experiência e pela leitura tática, mesmo que já não tenha o fôlego de antes. Loftus-Cheek pode ser o coringa, Anderson tem uma oportunidade de ouro neste período de testes, e Stones permanece como a carta na manga para uma função híbrida.
No fundo, o que Tuchel tenta fazer é encontrar um equilíbrio que a França de Didier Deschamps já dominou: um volante que “faz o trabalho sujo” para liberar os talentos criativos. Se conseguir resolver esse quebra-cabeça, a Inglaterra chega à Copa com um meio-campo versátil, moderno e capaz de controlar os jogos contra qualquer adversário. Caso contrário, o setor pode virar um calcanhar de Aquiles num torneio que não perdoa improvisações.
Por enquanto, a busca continua. E, como o próprio Tuchel disse, não é hora de decisões definitivas. O laboratório segue aberto, os testes continuam e, se depender da qualidade à disposição, os ingleses têm tudo para chegar ao Mundial com um meio-campo competitivo – mesmo que a escalação final só seja conhecida na hora H.