Oleksandr Usyk
Lutas Boxe

Usyk e o legado que vai além dos cinturões: como o campeão se tornou símbolo da resistência ucraniana

Oleksandr Usyk deixará de ser campeão mundial dos pesos-pesados não porque tenha sido derrotado dentro do ringue, mas porque entende que chegou o momento de iniciar o encerramento de uma das carreiras mais completas da história do boxe. Aos 39 anos, o ucraniano decidiu abrir mão dos cinturões mundiais, encerrando seu reinado como principal nome da categoria e abrindo espaço para uma nova geração disputar o topo da divisão mais tradicional do esporte.

A decisão simboliza o fechamento de um ciclo em que Usyk se transformou não apenas em um campeão invicto, mas também em um dos maiores representantes da resistência e da identidade nacional da Ucrânia durante um dos períodos mais difíceis de sua história.

Sua despedida acontece depois de uma trajetória praticamente perfeita. Dono de um cartel invicto de 25 vitórias, sendo 16 por nocaute, Usyk conquistou tudo o que um boxeador poderia sonhar. Foi campeão olímpico em Londres, tornou-se campeão mundial absoluto dos cruzadores e repetiu o feito entre os pesos-pesados, algo extremamente raro na história do boxe. As vitórias sobre Anthony Joshua e Tyson Fury consolidaram seu nome entre os maiores da era moderna, demonstrando uma combinação incomum de inteligência tática, capacidade técnica, resistência física e disciplina competitiva.

Muito além das vitórias: Usyk foi um campeão em meio à guerra

A carreira de Usyk ganhou um significado completamente diferente a partir de fevereiro de 2022, quando a invasão russa à Ucrânia transformou completamente sua vida e a de milhões de compatriotas. Embora tenha cogitado integrar diretamente as forças armadas, o pugilista acabou convencido de que sua contribuição seria mais valiosa permanecendo ativo nos ringues, utilizando sua visibilidade internacional para manter a guerra em evidência diante do mundo.

Essa decisão mudou completamente a percepção sobre sua carreira. Cada luta passou a representar mais do que um cinturão ou um prêmio financeiro. As entradas no ringue carregando símbolos nacionais, as entrevistas defendendo a soberania ucraniana e os discursos após as vitórias transformaram Usyk em uma espécie de embaixador esportivo do país. Em uma época em que o conflito muitas vezes desaparecia das manchetes internacionais, suas lutas voltavam a colocar a Ucrânia no centro da atenção mundial.

Essa postura foi reforçada em dezembro de 2024, quando, após derrotar Tyson Fury, Usyk ergueu um sabre pertencente ao líder ucraniano Ivan Mazepa. O gesto possuía enorme significado histórico e serviu para reforçar sua mensagem de que a Ucrânia possui identidade própria e uma longa tradição de resistência ao domínio russo. Era mais uma demonstração de que, para ele, o boxe havia ultrapassado os limites do esporte.

A influência decisiva do pai na construção do campeão

Grande parte da personalidade de Usyk nasceu dentro de casa. Seu pai, Oleksandr Usyk Sr., serviu no Exército Soviético durante a ocupação do Afeganistão entre 1979 e 1989, período no qual foi ferido duas vezes e carregou traumas que o acompanharam até o fim da vida.

Apesar das marcas deixadas pela guerra, foi justamente ele quem moldou o caráter do futuro campeão mundial. Segundo o próprio Usyk, o pai lhe ensinou disciplina, resiliência e, principalmente, confiança em si mesmo quando poucas pessoas acreditavam que ele pudesse alcançar o topo do boxe mundial.

O momento mais simbólico dessa relação aconteceu após os Jogos Olímpicos de Londres. Pouco depois de conquistar a medalha de ouro, Usyk voltou para casa e colocou a medalha na mão do pai já falecido. A cena tornou-se uma das passagens mais emocionantes de sua trajetória e ajuda a explicar por que o lutador frequentemente se emociona ao falar sobre sua família.

Curiosamente, foi justamente a experiência traumática do pai na guerra que o impediu de seguir o caminho militar durante o conflito atual. O veterano sempre dizia que esperava que o filho jamais precisasse viver os horrores que ele próprio enfrentou no Afeganistão. De certa forma, permanecer no boxe também foi uma maneira de honrar esse desejo.

Por isso, o compromisso de Usyk com seu país nunca ficou restrito aos discursos. Ao longo dos últimos anos, sua fundação arrecadou milhões de euros destinados ao apoio humanitário, reconstrução de cidades e auxílio às forças de defesa da Ucrânia.

Entre as iniciativas mais marcantes esteve a reconstrução parcial da residência de um antigo companheiro de seleção nacional, Oleksiy Dzhunkivskyi, morto durante a ocupação russa em Irpin, nos arredores de Kiev. A escolha do imóvel não foi planejada. Somente ao chegar ao local, Usyk descobriu que ali funcionava a academia de boxe administrada pelo amigo com quem havia dividido competições internacionais anos antes.

Esse episódio resume bem a maneira como o campeão enxerga sua responsabilidade social. Em vez de limitar sua atuação ao simbolismo das vitórias, procurou transformar sua relevância pública em ajuda concreta para pessoas afetadas diretamente pela guerra.

Abrir mão dos cinturões também é reconhecer o tempo

A decisão de entregar os títulos mundiais representa, acima de tudo, um gesto de maturidade esportiva. Aos 39 anos, Usyk continua competitivo e ainda possui condições de enfrentar qualquer adversário da divisão. Entretanto, manter simultaneamente todos os cinturões exige uma sequência intensa de defesas obrigatórias que pouco acrescentariam ao seu legado.

Ao optar por liberar os títulos antes mesmo de sofrer uma derrota, o ucraniano evita prolongar artificialmente seu reinado e permite que a categoria volte a disputar naturalmente seu posto máximo. É uma postura rara em um esporte no qual muitos campeões permanecem ativos até que o declínio físico comprometa definitivamente sua imagem.

Mesmo assim, o próprio Usyk já afirmou que ainda pretende realizar sua “última dança” antes da aposentadoria. Essa luta deverá representar o encerramento oficial de uma carreira que dificilmente encontrará comparação nas próximas décadas.

Quando Oleksandr Usyk finalmente pendurar as luvas, será lembrado como um dos maiores boxeadores de sua geração. Seu currículo esportivo, por si só, já o coloca entre os gigantes da modalidade, reunindo títulos olímpicos, conquistas em duas categorias e um cartel invicto que poucos conseguiram preservar durante toda a carreira.

Entretanto, limitar seu legado aos cinturões seria ignorar aquilo que realmente diferenciou sua trajetória. Durante quatro anos de guerra, Usyk transformou cada vitória em uma demonstração de resistência nacional, cada entrevista em uma plataforma para defender seu país e cada aparição pública em uma oportunidade para lembrar ao mundo que a Ucrânia seguia lutando.

Os cinturões inevitavelmente passarão para novos campeões. O impacto que Oleksandr Usyk deixou dentro e fora do ringue, porém, dificilmente será substituído. Ele encerra seu reinado como campeão dos pesos-pesados, mas deixa o esporte ocupando um lugar muito maior: o de atleta que conseguiu transformar excelência esportiva em símbolo de esperança para toda uma nação.

(Foto: Getty Images)