Durante anos, Federico Valverde foi aquele cara que todo técnico amava… mas que nem sempre virava manchete, estamos falando do famoso “pedreiro”. O “jogador que faz o time funcionar”. Corre por todo mundo, tapa buraco, marca, apoia, o pacote completo. Só que, na última semana, ele resolveu mudar o roteiro, demonstrando que ainda tem um nível interessantíssim para ser apresentado ao mundo.
No Santiago Bernabéu, o uruguaio simplesmente acabou com o jogo contra o Manchester City: hat-trick, vitória por 3 a 0 e um recado claro, talvez ele nunca tenha sido apenas o coadjuvante.
Foi a primeira vez da carreira que ele guardou três gols num único confronto, seja com o Real Madrid ou com a seleção uruguaia. E não foi qualquer noite: teve volta olímpica improvisada, bola do jogo autografada indo direto para o filho Bautista e aquele clima de “isso aqui vai virar história pra contar no churrasco da família”.
Mas, como todo bom roteiro de cinema (ou documentário da Netflix), esse momento não surgiu do nada.
De “Pajarito” ao motor do Real Madrid
Antes de ser esse monstro físico que domina o meio-campo, Valverde era só um garoto de Montevidéu, mais especificamente do bairro La Unión, tentando dar seus primeiros chutes na bola, na tentativa de seguir seu sonho de virar jogador de futebol.
Filho de um segurança e de uma mãe que limpava casas (e fazia de tudo um pouco pra ajudar nas contas), ele cresceu em um ambiente onde nada vinha fácil. As primeiras chuteiras? Usadas. Reformadas. Remendadas. O famoso “até furar de vez”.
Nos tempos de base, ganhou o apelido de “Pajarito” (passarinho), porque parecia estar em todo lugar do campo. Curiosamente, ele nem sempre foi esse corredor incansável. Quando mais novo, não curtia muito essa ideia, achava que só o talento resolveria.
Só que teve um dia em que foi substituído por não voltar para marcar. Aquilo bateu. E mudou tudo.
O “não” do Arsenal que mudou tudo
Antes de virar ídolo no Real, Valverde teve um capítulo curioso e pouco conhecido com o Arsenal.
Com apenas 16 anos, ele passou um período treinando em Londres. Imagina o choque: um garoto uruguaio, sem falar inglês, no meio de estrelas da Premier League. Quem ajudava na tradução? Um velho conhecido do futebol sul-americano: Emiliano Martínez.
Parecia o início de um conto de fadas… até deixar de ser. O Arsenal não se convenceu. E ali bateu a primeira grande dúvida: será que ele era tudo isso mesmo?
Só que o futebol adora dar voltas. Pouco tempo depois, durante o Sul-Americano Sub-17, dois representantes apareceram no hotel da seleção uruguaia.
Destino? Madrid.
Choque de realidade e construção de caráter
Chegar ao Real Madrid não foi exatamente um conto de fadas imediato. Muito pelo contrário. No vestiário do Castilla, Valverde olhou em volta: cintos Gucci, relógios caros, carteiras de grife. Aí olhou pra si mesmo… e se via completamente deslocado da realidade, por não compartilhar daquele lifestyle, ou pelo menos, da mesma realidade de seus companheiros.
“Foi quando percebi que ali eu não era ninguém”, disse anos depois.
E essa percepção foi fundamental. Depois de um período no time B, veio o empréstimo ao Deportivo La Coruña. E aí sim começou a transformação de verdade. Longe de casa, lidando com críticas e pressão, ele evoluiu como jogador e como pessoa.
Mas nem tudo foram flores. Ficar fora da Copa do Mundo de 2018 com o Uruguai foi um baque enorme. Ele voltou pra casa se sentindo culpado, como se tivesse decepcionado todo mundo. E, pra piorar, os primeiros passos no elenco principal do Real Madrid vieram acompanhados de insegurança. Medo de errar, de arriscar, de não corresponder.
Se hoje Valverde joga com uma confiança absurda, muito disso passa por um nome: Mina Bonino. Foi ela quem deu aquele empurrão quando ele mais precisava: “Se você está no Real Madrid, é por um motivo. Para de se esconder.” Simples. Direto. E eficaz.
Com ajuda psicológica, confiança de treinadores como Julen Lopetegui e o próprio amadurecimento, Valverde foi se soltando. Aos poucos, aquele garoto inseguro virou um dos jogadores mais confiáveis do elenco.
Entre dúvidas, posição improvisada e redenção
Nem tudo foi linear. Em alguns momentos, ele foi testado fora de posição, inclusive como lateral-direito. E aí veio uma das frases mais sinceras da carreira:
“Eu não nasci para ser lateral-direito.”
Dito e feito. A mudança definitiva veio com Álvaro Arbeloa, que devolveu Valverde ao meio-campo, seu habitat natural. Ali, ele voltou a ser o “Pajarito”, só que versão turbo: marca, cria, infiltra e decide.
Fora de campo, a vida também testou o uruguaio. Durante a gravidez do segundo filho, ele e Mina viveram momentos de tensão com risco na gestação. Foi um período pesado, daqueles que fazem qualquer um perder o foco. Mas tudo terminou bem. Bautista nasceu saudável e hoje já faz parte das comemorações históricas do pai.
O símbolo silencioso que agora faz barulho
Com quase 300 jogos pelo Real Madrid e múltiplos títulos, incluindo Champions League, Valverde já era peça-chave. Mas faltava “aquele momento”. Agora não falta mais.
A atuação de Valverde contra o Manchester City não foi só um hat-trick. Foi uma declaração. De quem já foi rejeitado, duvidou de si mesmo e quase passou despercebido… para quem hoje decide jogos gigantes. Se antes ele era o motor invisível, agora virou manchete. E, sinceramente? Demorou até pouco.
Foto: Getty Images