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Por que o VAR virou alvo de críticas durante a Copa do Mundo; confira

Há poucos dias, o principal debate sobre arbitragem na Copa do Mundo girava em torno de uma pergunta específica: o VAR estava sendo usado de maneira diferente no torneio? Agora, depois de uma sequência de decisões polêmicas, a discussão parece ter mudado de direção. O sentimento entre torcedores, jogadores e comentaristas é outro: ninguém mais consegue prever quando o árbitro de vídeo realmente vai entrar em ação.

Lances recentes aumentaram ainda mais essa sensação. Desde o pênalti não marcado para Gana contra a Inglaterra, passando pelo gol anulado do Brasil diante da Escócia até chegar ao gol validado da Alemanha contra o Equador, ficou difícil entender qual é exatamente o critério adotado nas revisões.

Os números mostram que o volume de intervenções não está muito distante de outras grandes competições. Na última temporada da Premier League, por exemplo, houve média de 0,29 intervenções por jogo, enquanto nesta Copa o índice está em 0,28. Nos casos subjetivos — aqueles em que o árbitro precisa ir ao monitor — os números também são parecidos: 0,15 por partida na Inglaterra contra 0,17 no Mundial.

Ainda assim, a percepção geral parece muito diferente.

Quanto mais a Copa avança, mais difícil fica manter um critério

Uma das explicações para essa sensação de inconsistência está na própria filosofia adotada pela arbitragem da FIFA.

Pierluigi Collina, chefe de arbitragem da entidade, defende há tempos uma ideia clara: futebol é um esporte de contato e nem todo contato precisa virar falta. O objetivo para esta Copa seria permitir partidas mais rápidas, mais intensas e com menos interrupções.

Na teoria, isso parece positivo. O problema aparece quando essa interpretação precisa ser aplicada em conjunto com o VAR.

Se os árbitros começam a permitir mais disputas físicas dentro de campo, o vídeo também precisa elevar o nível de exigência para recomendar revisões. E justamente aí surge a dificuldade: definir o que realmente é um “erro claro e óbvio”.

Essa é uma discussão que outras competições já enfrentaram anteriormente e que continua sem uma solução definitiva.

Competições diferentes aplicam critérios diferentes

Parte da confusão também acontece porque nem todos os torneios trabalham com o mesmo limite de intervenção.

Na Liga dos Campeões, por exemplo, o VAR costuma participar muito mais das decisões. A média chega a 0,47 intervenções por jogo e 0,36 revisões no monitor por partida — números bem superiores aos registrados nesta Copa.

Isso cria uma percepção de consistência porque o público passa a esperar que o vídeo participe mais vezes.

Mas existe um efeito colateral: quanto mais o VAR interfere, mais distante ele fica da proposta inicial de atuar apenas em erros realmente graves.

A regra da mão na bola ajuda a entender isso. Nas competições organizadas pela Uefa, existe uma interpretação mais rígida e objetiva. Em muitos casos, basta a bola tocar no braço do defensor para gerar revisão. O espaço para subjetividade acaba sendo menor.

Na Copa do Mundo, o cenário parece menos previsível.

Lances recentes aumentaram sensação de incoerência

Os episódios desta semana ajudaram a elevar o tom das críticas.

Na terça-feira, Gana reclamou fortemente de um pênalti não marcado contra a Inglaterra após dividida entre Ezri Konsa e Prince Kwabena Adu. O técnico Carlo Queiroz chegou a ironizar e disse que o VAR “foi tomar café”.

O lance chamou atenção porque pareceu um contato forte o suficiente para ao menos gerar revisão em campo. O jogo terminou empatado sem gols e aumentou a sensação de oportunidade perdida.

No dia seguinte veio outro episódio.

Na vitória do Brasil por 3 a 0 sobre a Escócia, um gol brasileiro acabou anulado por uma falta atribuída a Vinicius Júnior sobre Jack Hendry. A interpretação gerou debate porque, para muitos observadores, o defensor escocês teria iniciado o contato.

Ex-árbitros e comentaristas apontaram que o nível de intervenção naquele caso pareceu mais baixo do que em outras situações semelhantes.

Alemanha x Equador virou símbolo do debate sobre o VAR

Mas foi no duelo entre Alemanha e Equador que a discussão ganhou ainda mais força.

Logo no início da partida, Leroy Sané participou da jogada do primeiro gol alemão em um lance que teve um detalhe importante: Alexandar Pavlovic atingiu Pedro Vite com o pé alto antes da conclusão da jogada.

Mesmo assim, o gol foi validado.

A decisão gerou surpresa porque muitos entenderam que havia elementos suficientes para uma revisão. Entre os comentários após a partida, houve quem defendesse que qualquer jogador acompanhando o torneio enxergaria aquele lance como uma ação perigosa.

Pouco depois, outro episódio aumentou ainda mais a sensação de falta de padrão.

A arbitragem marcou pênalti para a Alemanha após contato em Kai Havertz. Só que, dessa vez, o VAR entrou em ação para revisar uma falta anterior cometida por Leroy Sané e recomendar o cancelamento da penalidade.

Individualmente, a decisão poderia até ser considerada aceitável.

O problema apareceu na comparação com o lance anterior.

Para muitos, parecia incoerente que uma falta fosse considerada suficiente para revisão enquanto outra, aparentemente mais clara, passasse despercebida.

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foto: Getty Images

O grande desafio continua sendo o mesmo

Ao longo do torneio, as principais seleções acabaram sendo pouco prejudicadas por decisões subjetivas de vídeo.

Entre os favoritos, poucos lances importantes terminaram revertidos contra essas equipes. Um dos exemplos mais comentados foi o pedido de pênalti para a França em lance envolvendo Sadio Mané e Mbappé — situação em que houve recomendação do VAR, mas sem mudança da decisão inicial.

Casos como esse acabam alimentando ainda mais o debate sobre falta de uniformidade.

Desde que foi criado, o VAR surgiu com um lema simples: “mínima interferência para máximo benefício”.

Na prática, porém, alcançar esse equilíbrio continua sendo extremamente difícil.

Porque existe um detalhe que ainda parece definir tudo: para que o VAR interfira pouco e funcione bem, as decisões dentro de campo precisam estar corretas desde o início.

E neste momento da Copa, essa sensação de segurança ainda parece longe de existir.

Foto: Getty Images