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Futebol Brasileirão

Vitória mostra que sabe competir fora, mas ainda precisa aprender a controlar os jogos

O Vitória encontrou o caminho, mas não conseguiu ir até o fim

O empate por 2 a 2 com o Mirassol, no Maião, deixa uma sensação inevitável de oportunidade desperdiçada. O Vitória abriu 2 a 0 em apenas 12 minutos, teve um primeiro tempo muito bem executado e esteve perto de conquistar sua primeira vitória fora de casa no Brasileirão. Ao mesmo tempo, a partida revelou algo importante sobre a equipe de Jair Ventura: ela já encontrou uma maneira de ser competitiva como visitante, mas ainda não tem a mesma segurança para administrar o jogo quando o adversário consegue mudar a dinâmica da partida.

Essa diferença explica boa parte do que aconteceu em Mirassol.

O Vitória não entrou em campo tentando dominar pela posse ou controlar territorialmente o adversário. A proposta era outra: proteger a própria área, fechar os espaços por dentro e acelerar quando recuperasse a bola. Durante o primeiro tempo, funcionou muito bem. O problema apareceu quando o Mirassol passou a encontrar respostas para essa estratégia.

Jair Ventura acertou na leitura inicial

A escolha por uma formação com três zagueiros permitiu ao Vitória montar uma linha de cinco sem a bola, acompanhada por outra de quatro jogadores mais à frente. A intenção era clara: dificultar a entrada do Mirassol pelo centro e obrigar o adversário a procurar os lados do campo.

Não era uma proposta puramente defensiva. Havia também um plano para atacar os espaços deixados pelo adversário.

Renê foi fundamental nesse mecanismo. O Vitória procurava diretamente o jogador para explorar as costas da defesa do Mirassol, aproveitando os espaços quando a equipe da casa avançava. O segundo gol, marcado pelo próprio Renê após passe de Erick, mostrou que a vantagem não nasceu apenas de um lance fortuito.

O primeiro gol, de fato, teve uma dose importante de sorte. A bola enganou Muralha no quique antes de Renê finalizar. Poucos minutos depois, porém, o Vitória repetiu a exploração daquele espaço de maneira muito mais clara.

Isso ajuda a dimensionar o desempenho do primeiro tempo. O 2 a 0 não foi simplesmente resultado de um Mirassol desorganizado. O Vitória identificou onde poderia machucar o adversário e executou o plano.

O problema começou quando os espaços desapareceram

A dinâmica mudou depois do intervalo.

Precisando buscar o resultado, o Mirassol passou a ocupar mais o campo ofensivo e reduziu justamente os espaços que sustentavam a estratégia do Vitória. Renê já não recebia a bola com a mesma liberdade, os contra-ataques ficaram menos frequentes e a equipe visitante começou a ter dificuldade para sair da pressão.

É aí que aparece a principal fragilidade. Quando o espaço para atacar em velocidade desapareceu, faltou ao Vitória uma alternativa para manter o adversário longe da própria área. A equipe não conseguiu estabelecer períodos mais longos de posse, tampouco encontrou maneiras consistentes de diminuir o ritmo da partida.

A vantagem, que parecia confortável no intervalo, passou a exigir resistência. E resistir durante 45 minutos contra um adversário que cresce no jogo é muito diferente de controlar uma partida.

O empate não aconteceu simplesmente porque o Vitória recuou

Seria fácil resumir o segundo tempo dizendo que o Vitória recuou demais. A explicação, porém, é mais ampla.

A equipe realmente ficou mais baixa, mas isso também foi consequência da perda das condições que sustentavam seu plano inicial. O Mirassol aumentou a pressão, o Vitória perdeu intensidade e os espaços na entrada da área começaram a aparecer.

O gol de Reinaldo, com desvio de Bruno Santos, simbolizou essa mudança. O time da casa passou a encontrar finalizações de zonas que estavam mais protegidas no primeiro tempo e ainda acertou a trave duas vezes antes de chegar ao empate nos minutos finais.

O Vitória não simplesmente abandonou o jogo. Foi sendo empurrado para trás e não encontrou uma resposta suficientemente forte para alterar essa dinâmica. Essa distinção é importante porque aponta para um problema de repertório, e não apenas de postura.

As substituições não conseguiram mudar a partida

Jair Ventura tentou reagir. Marinho e Pochettino deixaram o campo para as entradas de Tarzia e Erick, mas as mudanças tiveram pouco impacto no andamento da partida.

Isso também mostra que a dificuldade não estava concentrada em um jogador específico.

Quando o adversário controla os espaços e impede as transições, trocar peças ofensivas não basta se a equipe continua sem conseguir conectar defesa, meio-campo e ataque. O Vitória precisava recuperar algum controle com a bola, ganhar minutos longe da própria área e fazer o Mirassol correr para trás.

Não conseguiu.

Ainda houve uma oportunidade de ampliar a vantagem em uma bola parada, mas o gol de Luan Cândido foi anulado por impedimento. Depois disso, a pressão do Mirassol aumentou até chegar ao empate.

O Vitória terminou a partida muito mais preocupado em sobreviver do que em conduzir o jogo.

A oportunidade perdida pesa na luta do Vitória

Um ponto fora de casa não é necessariamente um resultado ruim, especialmente em um campeonato equilibrado na parte de baixo da tabela. O problema está no contexto.

O Vitória vencia por 2 a 0, tinha executado muito bem seu plano e enfrentava um adversário que precisava se expor. Era uma oportunidade concreta de conquistar uma vitória que ainda não veio como visitante na Série A. Por isso, o empate pesa.

A equipe segue sem vencer fora de casa e deixou escapar um resultado que poderia ter feito diferença na luta contra o rebaixamento. Ao mesmo tempo, seria injusto ignorar os sinais positivos apresentados no primeiro tempo.

O Vitória mostrou que consegue competir. Agora precisa aprender a controlar.

Jair Ventura não precisa abandonar a ideia, mas precisa acrescentar alternativas

A solução não parece ser abandonar a estratégia utilizada em Mirassol. Pelo contrário. A primeira etapa mostrou que Jair Ventura encontrou mecanismos capazes de incomodar um adversário mais forte tecnicamente em determinados momentos.

A questão é o que fazer depois de construir a vantagem. Um time que joga fora de casa precisa saber criar o resultado, mas também proteger essa vantagem sem simplesmente entregar a bola ao adversário. Precisa saber quando acelerar, quando diminuir o ritmo e, principalmente, como sair da pressão.

O Vitória ainda não demonstra segurança nesses momentos.

A semana livre antes do próximo compromisso, contra o Cruzeiro, no Barradão, pode ser importante justamente para trabalhar essas alternativas. Jair não precisa reconstruir a equipe, mas acrescentar respostas ao que já funcionou.

Competir é diferente de controlar

O empate no Maião deixou duas conclusões que parecem contraditórias, mas não são. O Vitória sabe competir fora de casa. Sabe montar uma estratégia, explorar as características do adversário, encontrar espaços e construir uma vantagem. Os primeiros 45 minutos deixaram isso evidente.

Mas também mostraram que ainda existe uma distância entre competir e controlar.

Quando o Mirassol aumentou a pressão, o Vitória não conseguiu conduzir a partida para um cenário mais confortável. Perdeu suas principais armas ofensivas, ficou cada vez mais próximo da própria área e acabou sofrendo o empate.

Esse é o próximo passo que Jair Ventura precisa dar ao time. Não se trata de exigir que o Vitória passe a dominar todos os adversários. Trata-se de fazer com que a equipe tenha respostas quando o plano inicial deixa de funcionar.

Em uma luta contra o rebaixamento, essa capacidade pode valer pontos decisivos. O Vitória mostrou no Maião que sabe como criar uma vantagem fora de casa. Agora precisa aprender a não depender apenas da resistência para mantê-la.

Foto: Divulgação/Vitória