Graham Potter West Ham
Futebol Premier League

West Ham demite Graham Potter, mas continua com os mesmos problemas

A demissão de Graham Potter do comando técnico do West Ham não surpreendeu praticamente ninguém. Os sinais de desgaste estavam visíveis desde as vaias da torcida no London Stadium, reforçadas pelo cântico irônico entoado em conjunto com torcedores do Crystal Palace.

O ambiente tornou-se insustentável após uma sequência de oito jogos sem vitória em casa e apenas seis triunfos em 23 compromissos de Premier League. Os números foram implacáveis, mas o diagnóstico vai além de simples estatísticas: os problemas estruturais do clube parecem ainda mais preocupantes do que o desempenho recente de seu treinador.

Potter chegou com a missão de modernizar o estilo de jogo do West Ham e oferecer um futebol mais propositivo, mas encontrou um elenco em transição, envelhecido em alguns setores e mal equilibrado em outros. Sua proposta acabou se transformando em um jogo passivo, sem intensidade, que não empolgava os torcedores nem entregava resultados.

O West Ham se tornou a equipe que mais permitia passes aos adversários antes de intervir defensivamente e que menos conseguia acelerar o jogo em transições rápidas. Era um time previsível, incapaz de incomodar os rivais ou de se proteger nos momentos críticos, especialmente em bolas paradas defensivas.

Os problemas do West Ham não acabam em Potter

Contudo, seria simplista atribuir o fracasso apenas ao trabalho de Potter. O ambiente hostil se estende também à cúpula administrativa. A relação entre a torcida e o conselho diretor do clube já vinha se desgastando há anos e explodiu novamente nesta temporada.

Em comunicado enviado à vice-presidente Karren Brady, os torcedores afirmaram não ter confiança nem nela nem no presidente David Sullivan, acusando-os de falhas repetidas em planejamento financeiro, estratégia esportiva, governança e relacionamento com os fãs. O bordão “sack the board” ecoou nas arquibancadas com tanta força quanto os pedidos pela saída do treinador.

Essa instabilidade política ajuda a explicar um dado: desde que a atual gestão assumiu o controle, há 15 anos, o West Ham já trocou de treinador nove vezes. Para efeito de comparação, nos 110 anos anteriores, apenas 11 técnicos haviam passado pelo comando do clube. Esse ciclo de demissões, sem que haja uma mudança de fundo na estrutura esportiva, torna qualquer tentativa de reconstrução efêmera.

A comparação com o período de David Moyes, que deixou o clube em alta após conquistar a Conference League em 2023, é inevitável. Aquele título, embalado pela despedida de Declan Rice, parecia o início de uma era de estabilidade. Mas a venda do capitão por 105 milhões de libras ao Arsenal não foi capitalizada de maneira eficiente.

Os investimentos feitos com esses recursos levaram a contratações medianas e a um elenco que, segundo o site Transfermarkt, tem valor de mercado equivalente apenas ao 14º da Premier League. Para um clube que sonha em se consolidar na parte superior da tabela, o recado é claro: houve falha de planejamento e execução no mercado.

As saídas de jogadores como Mohammed Kudus, Aaron Cresswell e Michail Antonio, somadas à perda de outros pilares, abriram lacunas que os reforços — entre eles Mateus Fernandes, Callum Wilson e Kyle Walker-Peters — não conseguiram suprir de imediato. A média de idade do elenco do West Ham caiu, mas a qualidade e a intensidade caíram junto, deixando a equipe vulnerável.

Dentro de campo, as críticas de ex-jogadores e analistas são duras. Tim Sherwood classificou o recrutamento como “mediano”, enquanto Jamie Redknapp destacou a fragilidade defensiva como fator central para as derrotas recentes. Restam como pontos de luz apenas o capitão Jarrod Bowen e o meia Lucas Paquetá, peças de alto nível que, no entanto, não podem carregar sozinhos o peso de um time desorganizado.

O novo desafio

Agora, o desafio passa a ser do provável sucessor, Nuno Espírito Santo, apontado como favorito para assumir o cargo. O treinador português, conhecido pela solidez defensiva e pela disciplina tática, terá a difícil tarefa de reorganizar um grupo pouco confiante e de reconquistar o torcedor. A grande dúvida é se mudanças apenas no banco de reservas serão suficientes. Sem um diretor de futebol atuante, sem um plano de longo prazo e com torcedores desconfiados da diretoria, Nuno pode se tornar apenas mais uma peça em um ciclo de instabilidade.

No entanto, é claro que o momento do West Ham exige algo maior do que a simples troca de técnico. O clube precisa de uma estrutura profissionalizada, com funções executivas claras e um projeto esportivo que vá além da sobrevivência na Premier League.

A torcida, que viveu um dos momentos mais felizes de sua história recente com a conquista europeia de 2023, sabe que o potencial existe. Mas enquanto a política interna e as decisões equivocadas de mercado se repetirem, dificilmente qualquer treinador — seja Potter, Moyes ou Nuno — terá condições de transformar esse potencial em realidade.

Assim, a queda de Graham Potter pode ser lida como sintoma de um problema mais profundo no West Ham: um clube preso entre a ambição de se consolidar no topo e a incapacidade de se organizar internamente para chegar lá. O futuro imediato dirá se o West Ham aprenderá com mais esta mudança ou se continuará repetindo o ciclo que, há mais de uma década, o mantém distante da estabilidade.

(Foto: Getty Images)