O West Ham está de volta à Championship depois de 14 anos, mas o segundo nível do futebol inglês pode acabar sendo apenas uma das muitas fogueiras que o clube terá de enfrentar nesta temporada. O rebaixamento da Premier League colocou os Hammers diante de uma oportunidade de reconstrução, mas também trouxe uma série de problemas extracampo que tornam o momento bastante delicado.
Para uma torcida acostumada a viver altos e baixos, a queda não chega exatamente como uma novidade. O que torna o cenário diferente desta vez é a possibilidade de usar o desastre esportivo como um ponto de partida para uma mudança mais profunda. Afinal, o West Ham não terá apenas de buscar o retorno à elite: precisará descobrir que tipo de clube pretende ser quando chegar lá novamente.
Porque não adianta voltar a primeira prateleira do futebol inglês, para repetir os mesmos erros e passar pelos mesmo problemas.
Rebaixamento pode virar ponto de partida
É muito fácil olhar para o West Ham e imaginar que a volta à Premier League será automática. Afinal, o clube possui uma estrutura financeira superior à de boa parte dos adversários da Championship, tem jogadores com experiência no futebol de elite e conta com um treinador que conhece muito bem a competição, sem contar que não estavam mal na reta final da primeira prateleira do futebol inglês, simplesmente sucumbiram a pressão.
Nuno Espírito Santo já conquistou a Championship anteriormente e sabe o tamanho da maratona que espera os Hammers. O problema é que a competição não costuma respeitar muito a lógica do “somos grandes, então vamos subir”. O calendário é pesado, os jogos são numerosos e a pressão aumenta a cada rodada.
Ainda assim, existe uma parcela da torcida que enxerga a queda como uma espécie de choque de realidade que poderia ter acontecido antes. O West Ham passou anos tentando se estabelecer na Premier League, mas acabou entrando em um ciclo que terminou com o descenso.
Há também uma lembrança positiva no passado recente do clube. Na temporada 2011/12, os Hammers disputaram a Championship e viveram uma campanha marcada por muitas vitórias, embora a reta final tenha sido mais nervosa do que o necessário depois de uma tentativa frustrada de garantir a promoção antecipadamente.
Agora, mais de uma década depois, o clube terá de repetir a receita, mas tentando evitar o drama.
West Ham tem apoio da torcida
Se existe uma coisa que não parece faltar ao West Ham neste momento, é apoio. Cerca de 50 mil torcedores compraram ingressos para a temporada, um número impressionante para um clube que acaba de deixar a Premier League.
O entusiasmo também apareceu na venda de ingressos para o primeiro compromisso da temporada na Carabao Cup, contra o Portsmouth. É um sinal importante de que a torcida não pretende simplesmente abandonar o clube durante a passagem pela segunda divisão.
Esse apoio pode ser um dos principais combustíveis do projeto. A Championship exige consistência, e ter um estádio cheio jogo após jogo pode fazer diferença em uma competição na qual cada ponto perdido em casa costuma ser lembrado mais adiante.
Para os torcedores, a expectativa é simples: transformar a temporada em uma campanha de reconstrução, e não em mais um capítulo de frustração.
Bowen permanece, e isso pesa bastante
No mercado da bola, o West Ham começou a janela com algumas decisões importantes. A principal delas foi garantir a permanência de Jarrod Bowen, capitão e uma das principais referências do elenco.
Manter Bowen é importante não apenas pelo desempenho dentro de campo, mas também pelo simbolismo. Em um momento de mudança, perder uma das lideranças do grupo poderia aumentar ainda mais a sensação de desmanche.
Por outro lado, o clube arrecadou cerca de £148 milhões com as vendas de Mateus Fernandes, Crysencio Summerville e Freddie Potts. O dinheiro dá ao West Ham uma margem importante para reconstruir o elenco e, principalmente, buscar jogadores capazes de competir em um calendário muito mais exigente.
Até agora, porém, o ritmo de contratações não acompanhou o volume das saídas. Joel Veltman, vindo do Brighton, foi a principal novidade depois das vendas, o que levanta uma dúvida natural: será que os Hammers estão preparados para a Championship com o elenco atual?
Elenco que ainda tem experiência de sobra
Apesar das saídas, o West Ham ainda possui jogadores que podem fazer diferença na segunda divisão. No gol, Alphonse Areola e Mads Hermansen continuam no grupo, enquanto a defesa conta com nomes como Aaron Wan-Bissaka, Konstantinos Mavropanos, Jean-Clair Todibo e Kyle Walker-Peters.
No meio-campo, Tomas Soucek e Edson Alvarez oferecem experiência e presença física, características que podem ser bastante úteis em uma competição conhecida pelo ritmo intenso e pelo calendário apertado.
No ataque, Taty Castellanos e Pablo também aparecem como jogadores que podem assumir protagonismo. A expectativa é que atletas acostumados ao nível da Premier League consigam elevar o padrão do time diante de adversários que não possuem o mesmo orçamento ou profundidade.
É claro que alguns desses jogadores ainda podem sair antes da estreia na Championship, marcada para 16 de agosto, contra o Burnley. Caso isso aconteça, porém, o West Ham terá a possibilidade de transformar novas vendas em recursos para reforçar o elenco antes do fechamento da janela, em 3 de setembro.
E existe ainda o mercado de janeiro como uma espécie de plano B. Se a equipe começar mal ou demonstrar alguma deficiência durante a primeira metade da temporada, a diretoria terá outra oportunidade para corrigir a rota.
Grande questão está fora de campo
Se o futebol fosse decidido apenas dentro das quatro linhas, talvez o projeto do West Ham parecesse mais simples. O problema é que o clube também atravessa uma importante mudança em sua estrutura de poder.
David Sullivan deixou o cargo de presidente depois de 16 anos no comando, em meio a alegações graves divulgadas por uma investigação conjunta da BBC Panorama e do The Times. Sullivan negou as acusações e, apesar da renúncia, continua sendo o maior acionista do clube, com 38,8% das ações.
Isso significa que sua saída da presidência não representa necessariamente o fim de sua influência sobre o West Ham.
É nesse cenário que surge Amanda Staveley. A ex-dirigente do Newcastle chegou acompanhada de um consórcio e pretende adquirir a participação de Sullivan. Recentemente, ela acertou a compra de 25,1% das ações pertencentes à família de David Gold, antigo coproprietário do clube, por £150 milhões.
O movimento, porém, enfrenta resistência de Daniel Kretinsky, outro dos principais acionistas do West Ham. Ou seja: enquanto Nuno Espírito Santo tenta organizar o time para subir na tabela, a diretoria também vive sua própria disputa por espaço.
West Ham precisa aproveitar a fogueira
O momento é complicado, mas também pode representar uma oportunidade rara. O rebaixamento obriga o West Ham a parar, olhar para o próprio funcionamento e decidir o que pretende fazer nos próximos anos.
A torcida parece disposta a abraçar a ideia de um recomeço. Bowen permanece. O clube arrecadou uma quantia considerável com vendas. Nuno Espírito Santo conhece a Championship. E ainda existe um grupo de jogadores experientes que pode formar a base de uma equipe competitiva.
Mas nada disso garante o acesso.
A Championship é longa, desgastante e cheia de armadilhas. Um início ruim pode transformar rapidamente o discurso de “subiremos de primeira” em uma crise de confiança. Por isso, cada decisão tomada até o fechamento da janela será importante.
O West Ham está, de fato, de volta à Championship. A diferença é que agora os Hammers precisam decidir se a segunda divisão será apenas um incêndio passageiro ou o calor necessário para forjar uma equipe mais forte.
Depois de tantos anos na Premier League, talvez o clube tenha finalmente recebido a oportunidade, ainda que da maneira mais dolorosa possível de apertar o botão de reinício.
Foto: Getty Images Sport



