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Wilder está longe de seu auge, mas vitória dá nova dimensão para seu futuro

A vitória de Deontay Wilder sobre Derek Chisora não foi, tecnicamente, uma exibição de alto nível. Longe disso. Foi desorganizada, caótica em certos momentos, marcada por decisões controversas da arbitragem e por falhas evidentes de ambos os lados. Ainda assim, talvez tenha sido uma das atuações mais importantes da fase recente de Wilder, não pelo que ele fez de melhor, mas pelo que provou ainda ter.

Durante anos, a carreira de Wilder foi definida por um elemento quase mitológico: sua mão direita. Um golpe que não apenas encerrava lutas, mas que construía narrativas. Era o chamado “toque da morte”, capaz de resolver qualquer combate em um instante. Mas essa dependência sempre veio acompanhada de críticas. Para muitos, Wilder era unidimensional, um lutador que sobrevivia pela potência, não pela complexidade.

Essa leitura, embora simplista, ganhou força conforme sua carreira avançou. As derrotas para Tyson Fury, especialmente na trilogia que marcou uma era dos pesos-pesados, expuseram limitações técnicas. Ainda assim, paradoxalmente, também revelaram algo mais profundo: a resiliência. Wilder caiu, levantou, voltou a cair, e continuou tentando. Em um esporte onde a linha entre coragem e dano irreversível é tênue, ele demonstrou um tipo de bravura que não se ensina.

E é justamente esse aspecto que voltou ao centro da discussão após a luta contra Chisora.

Wilder mostra resistência e longevidade

Aos 40 anos, vindo de derrotas preocupantes para nomes como Joseph Parker e Zhilei Zhang, Wilder entrou no ringue cercado de dúvidas. Havia a percepção de que não apenas estava em declínio, mas que havia perdido sua principal arma: a capacidade de “puxar o gatilho”. Sem isso, restaria o quê?

A resposta veio em forma de insistência. Contra Chisora, Wilder não foi dominante no sentido clássico. Mas foi ativo, agressivo, disposto. Lançou golpes, buscou o nocaute, aceitou a troca franca. E, sobretudo, voltou a derrubar um adversário duas vezes nos rounds finais. Não foi a versão mais refinada de seu boxe, mas foi uma versão viva. E isso, no estágio atual de sua carreira, tem um valor enorme.

A luta também foi marcada por controvérsias externas. A atuação do árbitro Mark Bates gerou críticas, especialmente por decisões que poderiam ter alterado o rumo do combate. Em um ambiente hostil, lutando fora de casa, Wilder precisou lidar não apenas com o adversário, mas com a sensação constante de que precisaria fazer mais para vencer. O resultado, uma decisão dividida, reflete esse cenário.

Wilder volta a ter seu nome ventilado no mundo do boxe

O que Wilder realmente conquistou foi relevância. Em um momento em que sua carreira parecia caminhar para o fim, ele se reposiciona como uma opção comercial novamente atraente. E, no boxe moderno, isso é quase tão importante quanto o desempenho esportivo.

Nesse novo contexto, um nome ressurge com força: Anthony Joshua. Durante anos, a luta entre Wilder e Joshua foi tratada como inevitável. Depois, como impossível. Agora, volta a ser viável, não necessariamente pelo momento esportivo de ambos, mas pelo apelo que ainda carregam. Joshua também viveu sua própria reconstrução, e a vitória contra Jake Paul ajudou a recuperar parte de sua imagem.

O encontro entre os dois, portanto, ganha uma nova camada: não é mais o confronto entre dois campeões no auge, mas entre duas narrativas em reconstrução, e isso pode ser ainda mais interessante.

Do ponto de vista técnico, há elementos que tornam essa luta imprevisível. Joshua já demonstrou vulnerabilidade sob pressão, especialmente contra Daniel Dubois. Wilder, por sua vez, continua sendo um risco permanente enquanto tiver força suficiente para conectar sua direita. Em um cenário assim, o equilíbrio não está na técnica, mas na margem de erro.

Ainda assim, o timing pode ser um obstáculo. Interesses comerciais, planos maiores envolvendo outros nomes e a gestão de risco podem adiar, ou até impedir, esse confronto.

Enquanto isso, outras possibilidades surgem. Lutas contra Jake Paul ou Francis Ngannou representam caminhos diferentes, mas igualmente lucrativos. São combates que misturam esporte e espetáculo, ampliando o alcance do boxe para além de seu público tradicional.

Para Wilder, esses cenários fazem sentido. Não apenas pela visibilidade, mas pela viabilidade. São lutas que ele pode vencer, e que podem consolidar uma sequência positiva tardia.

Há até mesmo uma possibilidade mais ambiciosa: um eventual confronto com Oleksandr Usyk. Embora pareça distante, não é impossível. No boxe atual, onde narrativas e oportunidades se constroem rapidamente, uma sequência de vitórias pode recolocar qualquer nome na disputa.

No fim das contas, a atuação contra Chisora não redefiniu quem Wilder é como lutador. Ele continua sendo, em essência, o mesmo: perigoso, limitado tecnicamente em alguns aspectos, mas dotado de uma qualidade rara: a disposição de continuar.

Em um esporte que frequentemente descarta seus veteranos, Wilder encontra uma forma de permanecer relevante. Não por reinventar completamente seu estilo, mas por se recusar a desaparecer. A vitória em Londres não foi perfeita. Mas, para alguém que já havia sido descartado por muitos, foi suficiente para reacender possibilidades.

(Foto: Getty Images)