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Automobilismo Fórmula 1

Zak Brown escreve carta à FIA sobre o “controverso” modelo da Red Bull na F1

Zak Brown, CEO da McLaren Racing, escreveu uma carta com tom firme ao presidente da FIA, Mohammed Ben Sulayem, pedindo regras mais rígidas para limitar alianças entre equipes da Fórmula 1. Zak já vinha demonstrando preocupação há bastante tempo com o modelo de propriedade dupla existente na categoria, especialmente no caso da Red Bull GmbH, que controla tanto a Red Bull Racing quanto a Racing Bulls.

Segundo Brown, esse tipo de estrutura representa um risco para a integridade esportiva da Fórmula 1. Ele já havia afirmado anteriormente, em abril, que a posse de duas equipes por uma mesma empresa é proibida na maioria dos grandes esportes, como o futebol, justamente porque pode comprometer a igualdade competitiva. Apesar disso, o dirigente reconheceu que esse modelo teve utilidade no passado, quando muitas equipes enfrentavam dificuldades financeiras e precisavam de apoio para sobreviver.

Agora, porém, o mesmo argumenta que a realidade financeira da Fórmula 1 mudou. Com as equipes vivendo uma situação econômica mais estável, ele considera que não há mais justificativa para manter esse sistema. Por isso, intensificou sua campanha para tentar proibir esse tipo de prática. A carta enviada ao presidente da FIA foi extensa e uma cópia do documento foi obtida pelo portal RacingNews365.

Na mensagem, Brown detalhou situações recentes que, na visão dele, demonstram como a Racing Bulls teria atuado de maneira favorável à equipe principal da Red Bull, colocando em dúvida a imparcialidade esportiva da categoria. Ele procurou mostrar exemplos concretos que, segundo sua interpretação, reforçam a necessidade de mudanças regulatórias mais rígidas.

Episódios citados por Brown

Um dos casos destacados por Zak Brown foi o Grande Prêmio de Singapura de 2024. Na ocasião, Daniel Ricciardo, então piloto da Racing Bulls, foi chamado aos boxes na última volta para tentar registrar a volta mais rápida da corrida. O objetivo seria retirar o ponto extra de Lando Norris, piloto da McLaren, o que acabaria beneficiando Max Verstappen na disputa pelo campeonato mundial de pilotos.

Ricciardo conseguiu tirar a volta mais rápida de Norris, e isso teve impacto importante nas combinações possíveis do campeonato. Com a perda do ponto extra por parte da McLaren, Verstappen passou a poder terminar em segundo lugar atrás de Norris nas provas restantes e ainda assim garantir o título mundial. Para Brown, o episódio demonstrou uma possível atuação coordenada entre as duas equipes controladas pela Red Bull.

Outro exemplo mencionado aconteceu recentemente no Grande Prêmio de Miami. Zak Brown apontou que a Racing Bulls instruiu Liam Lawson a devolver posição para Verstappen depois que o piloto da Red Bull aparentemente forçou Lawson a sair da pista ainda na primeira volta. O incidente ocorreu durante a recuperação de Verstappen após uma rodada de 360 graus na curva 2.

Na interpretação de Brown, esse tipo de ordem reforça a percepção de que existe cooperação esportiva entre equipes que deveriam atuar de maneira totalmente independente dentro do campeonato. Para ele, decisões como essa prejudicam a credibilidade da competição e levantam dúvidas sobre até que ponto as equipes realmente competem entre si.

Além dos acontecimentos em pista, Zak Brown também abordou movimentações internas envolvendo funcionários e dirigentes. Ele citou a transferência de Laurent Mekies da Racing Bulls para a Red Bull, ocorrida em julho de 2025, após a demissão de Christian Horner. Mekies era chefe de equipe da Racing Bulls e assumiu imediatamente uma função na Red Bull sem cumprir qualquer período de afastamento conhecido como “gardening leave”.

Transferências internas e preocupações

Zak Brown comparou o caso de Laurent Mekies com a contratação de Rob Marshall pela McLaren. Marshall deixou a Red Bull para trabalhar na equipe britânica, mas precisou cumprir nove meses de gardening leave, além de envolver compensações financeiras significativas. Para Brown, a diferença entre os dois casos reforça a percepção de que as barreiras internas entre Red Bull e Racing Bulls não funcionam como aconteceria entre concorrentes verdadeiramente independentes.

Outro ponto mencionado foi a recente contratação de Andrea Landi pela Red Bull. O anúncio aconteceu em 17 de abril, com início das atividades marcado para 1º de julho. Brown acredita que essas trocas rápidas de profissionais entre as duas equipes fortalecem dúvidas sobre a existência de separações efetivas entre os departamentos técnicos e administrativos.

Na carta, o CEO da McLaren afirmou que essa situação “reforça” a percepção de que os chamados firewalls internos não operam de forma aceitável entre competidores genuinamente independentes. Ele também levantou preocupações relacionadas ao possível compartilhamento indireto de benefícios técnicos, especialmente nas áreas de desenvolvimento em túnel de vento e softwares.

Segundo Zak Brown, estruturas de propriedade dupla poderiam criar vantagens competitivas difíceis de monitorar ou controlar completamente. Mesmo que não exista uma violação explícita das regras, ele sugere que a proximidade entre as equipes pode gerar troca de informações ou facilidades que outras organizações não possuem.

Essas preocupações fazem parte de uma discussão mais ampla sobre governança esportiva dentro da Fórmula 1. O crescimento financeiro da categoria nos últimos anos aumentou o debate sobre igualdade competitiva, independência operacional e possíveis conflitos de interesse entre equipes ligadas ao mesmo grupo empresarial.

Resposta da FIA e próximos passos

Mohammed Ben Sulayem comentou recentemente sobre o tema durante conversas com jornalistas em Miami. O presidente da FIA indicou que a entidade está analisando a questão da propriedade múltipla de equipes dentro da Fórmula 1.

Ele afirmou que possuir duas equipes pode ser aceitável dependendo das razões envolvidas. Ao mesmo tempo, questionou quais seriam exatamente os limites aceitáveis para esse tipo de situação. Segundo Ben Sulayem, o problema surge caso alguém adquira equipes apenas para impedir que outras pessoas o façam ou para aumentar influência política nas votações relacionadas aos regulamentos da categoria.

Apesar disso, o mesmo também declarou que, em sua visão pessoal, possuir duas equipes talvez não seja o caminho ideal para a Fórmula 1. Ele descreveu o assunto como uma área complicada e explicou que a FIA já colocou especialistas para estudar se essa prática deve continuar sendo permitida e se realmente faz sentido para o futuro do esporte.

Zak Brown encerrou sua carta afirmando que estaria disposto a continuar dialogando com a FIA sobre o tema. O  mesmo também demonstrou interesse em participar de discussões adicionais para encontrar soluções regulatórias que, na visão dele, possam proteger a integridade competitiva da Fórmula 1.

A discussão sobre propriedade dupla segue ganhando relevância dentro do paddock, especialmente porque envolve não apenas questões esportivas, mas também aspectos políticos, técnicos e comerciais. O posicionamento de Brown aumenta ainda mais a pressão para que a FIA avalie possíveis mudanças nas regras que regem a estrutura das equipes na categoria.

Foto: (MSports)