Quando a Copa do Mundo de 2006 chegou às fases decisivas, muitos acreditavam que a carreira do meio-campista Zinedine Zidane se caminhava para um encerramento discreto. Aos 34 anos, o maestro francês havia retornado da aposentadoria internacional para liderar uma seleção que atravessava um período de instabilidade após os fracassos nas competições anteriores. No entanto, o que se viu na Alemanha foi a última grande obra de um dos maiores jogadores da história, especialmente na partida que consolidou sua condição de carrasco do Brasil em Mundiais.
Depois de uma fase de grupos irregular, a França ganhou confiança ao eliminar a Espanha nas oitavas de final. O destino, porém, reservou um desafio ainda maior para Zidane: enfrentar o Brasil nas quartas de final. A seleção comandada por Carlos Alberto Parreira reunia uma constelação de craques, com nomes como Ronaldo Fenômeno, Ronaldinho Gaúcho, Adriano, Kaká, Zé Roberto, Dida, Cafu e Roberto Carlos, além do status de campeã mundial vigente. Para muitos, era a favorita absoluta ao título diante de um elenco histórico que inspirava respeito e impunha temor aos adversários.
Foi justamente nesse cenário que Zidane produziu uma das atuações individuais mais celebradas da história das Copas. Desde os primeiros segundos, o camisa 10 assumiu o controle do jogo com dribles, giros, passes precisos e uma capacidade impressionante de ditar o ritmo da partida. O francês parecia escapar dos marcadores brasileiros com naturalidade, transformando um confronto entre gigantes em um espetáculo particular de talento e inteligência, que entrou para a memória do futebol mundial como uma exibição praticamente perfeita.
O momento decisivo veio no segundo tempo. Em cobrança de falta perfeita, Zidane encontrou Thierry Henry livre na área para marcar o único gol da vitória dos Bleus por 1 a 0 e garantir a vaga nas semifinais da Copa do Mundo. Mais do que a assistência, porém, ficou a sensação de domínio absoluto. O meio-campista controlou cada fase do jogo e neutralizou, com a posse de bola e a visão de jogo, uma das equipes mais talentosas já reunidas pelo Brasil. A atuação foi tão marcante que companheiros e adversários passaram a descrevê-la como uma exibição para a eternidade.
Aquele triunfo reforçou uma relação especial entre Zidane e a Seleção Brasileira. O meio-campista já havia sido protagonista da final da Copa do Mundo de 1998, quando marcou dois gols na vitória por 3 a 0 que deu à França seu primeiro título mundial. Oito anos depois, voltou a ser decisivo ao encerrar a campanha brasileira nas quartas de final. O resultado interrompeu a sequência de 11 vitórias consecutivas do Brasil em Mundiais e consolidou ainda mais a imagem do francês como um dos grandes algozes da equipe verde-amarela.
A caminhada francesa na Copa do Mundo de 2026 continuou com a classificação sobre Portugal na semifinal, novamente com gol de Zidane. A despedida do craque, entretanto, ganharia contornos dramáticos na final contra a Itália. Depois de abrir o placar com uma cobrança de pênalti de cavadinha, ele protagonizou a famosa cabeçada em Marco Materazzi na prorrogação e recebeu cartão vermelho. Sem seu capitão na disputa por pênaltis, a França acabou derrotada, encerrando sua campanha de forma amarga em uma final marcada por controvérsias e forte carga emocional.
Mesmo com o desfecho amargo em Berlim, a lembrança mais forte daquele Mundial continua sendo a exibição de Zidane diante do Brasil. Para muitos analistas, jornalistas e torcedores, aquela tarde em Frankfurt representou a definição perfeita do que significa dominar uma partida de futebol. Foi a última dança de um gênio que encerrou a carreira sem levantar a taça, mas deixando uma atuação que permanece entre as maiores da história das Copas do Mundo um legado eterno no futebol mundial contemporâneo e inesquecível hoje.

Como Zidane transformou a França em potência do futebol mundial, após o título inédito de 1998 pra cá
Falar da França no futebol mundial desde 1998 é, inevitavelmente, falar da influência de Zidane. Antes do surgimento do camisa 10 como líder absoluto da seleção, os franceses possuíam tradição e talentos históricos, mas ainda não haviam conquistado uma Copa do Mundo. Tudo mudou em 12 de julho de 1998, quando o meio-campista marcou dois gols na vitória por 3 a 0 sobre o Brasil na final disputada em Paris, conduzindo o país ao primeiro título mundial de sua história. A conquista transformou a mentalidade do futebol francês e inaugurou a era mais vitoriosa da seleção.
O impacto daquele título foi muito além do troféu. A geração liderada por Zidane mostrou que a França podia competir de igual para igual com as maiores potências do planeta. A confiança construída em 1998 foi reforçada com a conquista da Eurocopa de 2000 e consolidou os Bleus entre as principais forças do futebol internacional. Esse ciclo marcou o início de uma era de respeito e protagonismo, elevando o futebol francês a um novo patamar de reconhecimento global e influência internacional duradoura ainda.
Nem mesmo o fracasso na Copa do Mundo de 2002 apagou esse legado. Como atual campeã, a França foi eliminada ainda na fase de grupos e sequer marcou gols, surpreendendo o mundo do futebol. Ainda assim, a base criada por Zidane e seus companheiros permaneceu viva. Quatro anos depois, já perto da aposentadoria, o craque retornou ao protagonismo e comandou uma campanha memorável na Copa de 2006. Após eliminar Espanha, Brasil e Portugal, os Bleus chegaram à final contra a Itália e terminaram com o vice-campeonato após a decisão por pênaltis. Apesar da derrota, aquela campanha reafirmou a capacidade francesa de se reinventar e permanecer entre os protagonistas do futebol mundial.
A saída de Zidane após 2006 abriu um período de transição que atingiu seu ponto mais baixo na Copa do Mundo de 2010, quando a França caiu na fase de grupos em meio a crises internas e conflitos no elenco. O torneio na África do Sul é frequentemente lembrado como um dos momentos mais turbulentos da história da seleção. Esse episódio marcou profundamente o futebol francês e evidenciou a necessidade de renovação estrutural dentro da equipe nacional ao longo dos anos recentes.
Entretanto, a estrutura criada ao longo das décadas anteriores permitiu uma reconstrução rápida. O país continuou formando talentos em quantidade impressionante, revelando jogadores como Antoine Griezmann, Paul Pogba, N’Golo Kanté e, posteriormente, Kylian Mbappé. Sob o comando de Didier Deschamps, capitão do título de 1998, os franceses voltaram ao topo ao conquistar a Copa do Mundo de 2018 e chegaram novamente à final em 2022, perdendo apenas nos pênaltis para a Argentina.
Os números ajudam a explicar a dimensão dessa trajetória. Desde 1998, nenhuma seleção alcançou tantas finais de Copa do Mundo quanto a França, presente nas decisões de 1998, 2006, 2018 e 2022. Esse período é considerado uma verdadeira era de ouro, marcada por uma combinação rara de títulos, regularidade e capacidade de renovação, que consolidou os Bleus como uma das potências mais consistentes e influentes do futebol mundial contemporâneo, capaz de se reinventar entre diferentes gerações de jogadores ao longo do tempo internacional recente.
Por isso, embora Zidane tenha encerrado sua carreira de jogador há duas décadas, sua influência permanece visível. O craque não apenas entregou o primeiro título mundial francês, mas ajudou a criar uma cultura vencedora que continuou produzindo gerações de elite. Da glória de 1998 ao protagonismo permanente nas décadas seguintes, a França transformou-se em uma das maiores seleções de todos os tempos.

Será que Zidane conseguiu manter o legado e revolucionar a mítica camisa 10 da França?
Quando Zidane encerrou sua carreira após a Copa do Mundo de 2006, a França não perdeu apenas um craque. Perdeu o principal símbolo da camisa 10 desde a era de Michel Platini. A grande questão era saber se alguém conseguiria sustentar o peso de um número que havia conduzido os Bleus ao título mundial de 1998, à Eurocopa de 2000 e ao vice-campeonato do mundo em 2006, período que marcou uma geração inesquecível do futebol francês e deixou um legado duradouro no esporte.
Nos anos imediatamente após sua aposentadoria, a seleção buscou diversos herdeiros. Jogadores como Julien Faubert, Sidney Govou, Djibril Cissé e, posteriormente, Karim Benzema receberam o número em diferentes momentos. Nenhum deles, porém, conseguiu estabelecer uma ligação tão forte com a camisa quanto Zidane havia construído. Esse período foi de experimentação da equipe, que tentou reconstruir sua identidade ofensiva, mas encontrou dificuldades para substituir a liderança técnica e simbólica do antigo camisa 10, cujo impacto dentro e fora de campo como referência.
Entre 2008 e 2015, Benzema foi quem mais se aproximou desse status. Dono de enorme talento técnico, o atacante utilizou a camisa 10 da França durante boa parte de sua trajetória internacional e ajudou a manter viva a tradição de associar o número ao principal jogador ofensivo da equipe. Depois dele, nomes como Dimitri Payet, André-Pierre Gignac e Antoine Griezmann também vestiram o uniforme dos Bleus em competições importantes mantendo a presença da camisa 10 em alto nível simbólico.
A verdadeira consolidação do legado de Zidane, entretanto, ocorreu em 2018. Aos 19 anos, Kylian Mbappé recebeu a histórica camisa 10 para a Copa do Mundo da Rússia, assumindo oficialmente a herança de Platini e Zidane. O resultado foi imediato: a França conquistou seu segundo título mundial, e Mbappé tornou-se o novo rosto da seleção. Desde então, o atacante transformou-se no principal representante do número, acumulando participações em finais de Copa do Mundo, recordes e protagonismo internacional.
Mais do que encontrar sucessores, a França ampliou o significado da camisa 10. Se com Zidane ela simbolizava o clássico armador cerebral, com Benzema, Griezmann e Mbappé passou também a representar liderança, capacidade de decisão e protagonismo ofensivo. Em 2026, a seleção segue entre as maiores potências do planeta, com uma linha sucessória que conecta Platini, Zidane e Mbappé. Nesse sentido, o ídolo do Real Madrid conseguiu algo raro: transformar uma camisa histórica em uma tradição permanente. Seu legado não ficou preso ao passado; tornou-se parte da identidade moderna dos Bleus.
(Foto: Getty Images)
