Dana White Zuffa Boxing
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Zuffa Boxing desafia hierarquia do boxe, mas problemas podem frear ímpeto de Dana White

O boxe profissional pode estar à beira de mais uma de suas recorrentes guerras de poder. De um lado surge a Zuffa Boxing, projeto ligado ao presidente do UFC, Dana White, com apoio financeiro e político significativo — incluindo o investimento esportivo do saudita Turki Alalshikh e a proximidade de White com o presidente americano Donald Trump. Do outro, permanece a chamada “velha guarda” do esporte: promotoras estabelecidas como Matchroom Boxing, Top Rank, Queensberry Promotions e Golden Boy Promotions.

A disputa não é apenas comercial. Trata-se de um confronto entre visões diferentes de como o boxe deve ser organizado, e, mais importante, de quem deve controlar seu futuro.

Apesar do discurso reformista de Zuffa, a história do boxe ensina cautela. Vários promotores chegaram ao esporte prometendo revolucioná-lo e acabaram reproduzindo seus mesmos vícios estruturais. Nomes como Don King, Frank Warren, Oscar De La Hoya e Eddie Hearn surgiram em diferentes épocas como agentes de mudança — cada um com capital, ambição e a promessa de um boxe mais organizado. No entanto, embora tenham transformado o mercado em diversos momentos, nenhum conseguiu resolver definitivamente os problemas crônicos do esporte.

É justamente essa história que torna o momento atual tão intrigante.

O primeiro problema: contratações e respostas

O primeiro grande movimento da nova disputa aconteceu quando Zuffa anunciou a contratação do peso-meio-médio britânico Conor Benn, um atleta fortemente associado à Matchroom. A aquisição representou mais do que um simples acordo promocional: foi um sinal de que o novo projeto pretende competir diretamente com as estruturas existentes.

A reação veio rapidamente. Em um gesto simbólico, Eddie Hearn respondeu trazendo o astro do MMA Tom Aspinall para atuar como consultor, numa tentativa de demonstrar que a velha guarda também está disposta a expandir sua influência para além do boxe tradicional.

Mais do que uma disputa por atletas específicos, o que se desenha é um confronto por narrativas. Zuffa quer se apresentar como uma alternativa moderna, inspirada no modelo centralizado que transformou o UFC na maior organização de artes marciais mistas do mundo. Já os promotores tradicionais insistem que a experiência acumulada no ecossistema complexo do boxe ainda é um ativo impossível de substituir.

No entanto, mesmo que Zuffa consiga atrair nomes relevantes, existe um obstáculo fundamental: a escassez de superestrelas globais no boxe atual.

No peso-pesado, por exemplo, figuras como Tyson Fury, Oleksandr Usyk e Anthony Joshua ainda são reconhecidas mundialmente, mas todos já passaram do auge competitivo. Assinar contratos com eles pode gerar grandes eventos no curto prazo, mas dificilmente sustentará um projeto de longo prazo.

Em divisões mais leves, o cenário não é muito diferente. O supermédio Canelo Alvarez permanece como uma das poucas estrelas capazes de mobilizar grandes audiências. Já nomes muito respeitados entre fãs, como Jaron Ennis ou Vergil Ortiz Jr., ainda não atingiram o status de celebridade esportiva global.

Até mesmo lutas aguardadas por anos, como o duelo entre Terence Crawford e Errol Spence Jr., tiveram números de audiência abaixo do esperado quando comparados a megafights do passado. Isso revela um problema central: mesmo que Zuffa conseguisse reunir vários dos melhores boxeadores do mundo sob um mesmo guarda-chuva, talvez ainda não houvesse massa crítica suficiente de estrelas para transformar o mercado de forma radical.

O poder da estrutura existente pode complicar a Zuffa

Outro obstáculo para qualquer tentativa de “tomar o controle” do boxe é a própria natureza descentralizada do esporte. Diferente do MMA, que se consolidou em torno de grandes organizações como o Ultimate Fighting Championship, o boxe continua dividido entre promotores, redes de televisão, patrocinadores e organismos sancionadores.

Entre esses organismos estão entidades como a International Boxing Federation, a World Boxing Council e outras federações responsáveis por títulos mundiais. Essas instituições têm interesses próprios e pouca disposição para ceder espaço a um novo sistema de poder.

Recentemente, por exemplo, a IBF demonstrou resistência ao recusar sancionar uma luta envolvendo o campeão dos cruzadores Jai Opetaia contra Brandon Glanton sob um novo cinturão ligado ao projeto de Zuffa. Foi um gesto simbólico que mostrou que as federações não pretendem abrir mão de sua influência.

Ao mesmo tempo, decisões controversas, como a aprovação de Rico Verhoeven como desafiante ao título de Usyk, também alimentam críticas à legitimidade dessas organizações. É justamente nesse espaço de insatisfação que projetos reformistas tentam prosperar.

A promessa de mudança da Zuffa

Dana White insiste que o projeto ainda está em fase de construção. Segundo ele, o objetivo não é seguir um plano rígido, mas criar os melhores combates possíveis com os melhores lutadores disponíveis. Esse discurso lembra muito a estratégia que ele utilizou no crescimento do UFC: centralização, eventos bem organizados e rankings relativamente claros. Em teoria, aplicar esse modelo ao boxe poderia trazer algo que o esporte há décadas carece: ordem.

O boxe sempre funcionou como um sistema caótico. Vários campeões por divisão, rankings contestáveis e negociações intermináveis para realizar lutas relevantes são parte do cotidiano da modalidade. Reformar esses aspectos poderia ser mais transformador do que simplesmente contratar grandes nomes.

No fim das contas, a disputa entre Zuffa e os promotores tradicionais talvez não seja decidida pelas grandes contratações ou pelas superlutas. O fator decisivo pode estar nos detalhes estruturais: rankings confiáveis, regras consistentes e transparência nas decisões.

Se uma nova organização conseguir demonstrar imparcialidade, clareza e planejamento de longo prazo, poderá conquistar a confiança de lutadores e fãs, algo que muitas instituições do boxe têm dificuldade em manter. Mas a história do esporte também sugere prudência. O boxe sobreviveu a inúmeros ciclos de reforma, guerras promocionais e promessas de revolução.

Por isso, embora o confronto atual seja fascinante, é possível que o resultado final não seja uma vitória absoluta de nenhum lado. Como em muitas batalhas anteriores no mundo do boxe, o desfecho mais provável talvez seja simplesmente um empate, um o esporte seguindo seu caminho caótico, adaptando-se lentamente às novas forças que tentam moldá-lo.

Foto: Jasper Colt / USA TODAY NETWORK