Alexander Zverev
Tenis Roland Garros

Alexander Zverev e a oportunidade de salvar uma geração: o que acontece quando os seus fantasmas tomam conta de você?

Há uma música da banda Foals chamada Out of the Woods que parece dialogar diretamente com o momento que Alexander Zverev vive em Roland Garros. A canção fala sobre a tentativa de deixar para trás um período de dúvidas, medos e cicatrizes, sobre a busca por uma saída depois de muito tempo caminhando por uma floresta emocional da qual não se sabe exatamente como escapar.

Não existe na letra uma celebração absoluta da vitória, mas sim uma sensação de resistência, de alguém que continua avançando apesar de tudo o que ficou pelo caminho. É difícil não enxergar essa imagem quando se observa a trajetória do alemão em Paris. Afinal, depois de anos convivendo com derrotas dolorosas, oportunidades desperdiçadas, críticas constantes e uma coleção de fantasmas que parecem reaparecer sempre que um Grand Slam entra em cena, Zverev chega mais uma vez à porta da história. A diferença é que desta vez o cenário parece ter sido construído especialmente para ele.

Aos 29 anos, disputando sua quarta final de Grand Slam e a segunda em Roland Garros, Zverev se encontra diante de uma oportunidade que talvez nunca mais volte a surgir com tamanha clareza. Pela primeira vez em muitos anos, o caminho até o título não passa por derrotar Carlos Alcaraz, Jannik Sinner ou Novak Djokovic em uma decisão.

Os grandes protagonistas da atual geração ficaram pelo caminho antes da reta final do torneio, deixando um espaço raro em um esporte que passou as últimas duas décadas sendo dominado por superastros. Do outro lado da rede estará Flavio Cobolli, um tenista talentoso e em ascensão, mas que ainda disputa a primeira final de Grand Slam da carreira. É impossível ignorar que esta é a melhor chance que Zverev já teve de conquistar o título que falta para completar sua trajetória.

A geração esquecida entre duas eras históricas

Existe um motivo pelo qual a história de Zverev desperta tanta empatia entre quem acompanha o tênis há mais tempo. Ela não pertence apenas a ele. Ela pertence a toda uma geração de jogadores que nasceu no momento errado.

A chamada “geração sanduíche” não recebeu esse apelido por acaso. São os tenistas nascidos principalmente na década de 1990 que cresceram acreditando que seriam os próximos donos do circuito, apenas para descobrir que o esporte continuava sendo propriedade de Roger Federer, Rafael Nadal e Novak Djokovic. Quando finalmente parecia que os integrantes do Big Three começavam a abrir espaço, uma nova onda liderada por Carlos Alcaraz e Jannik Sinner surgiu para ocupar o vácuo.

No meio desse intervalo ficaram nomes como Alexander Zverev, Daniil Medvedev, Stefanos Tsitsipas, Andrey Rublev, Casper Ruud e Matteo Berrettini. Todos alcançaram posições de elite. Todos tiveram momentos em que pareciam destinados a conquistar múltiplos Grand Slams. Mas quase todos acabaram se tornando personagens de uma época de transição que nunca lhes pertenceu completamente. É por isso que a floresta de Zverev não é uma paisagem isolada. Ao redor dele existem outros caminhos igualmente tortuosos.

Daniil Medvedev, por exemplo, é provavelmente o caso mais cruel. Diferentemente de Zverev, ele conseguiu escapar uma vez. Em 2021, derrotou Novak Djokovic na final do US Open e impediu que o sérvio completasse o Grand Slam de calendário. Naquele momento, parecia o início de uma nova era. Medvedev tinha acabado de derrotar o maior jogador do mundo no maior palco possível. Era jovem, inteligente, imprevisível e parecia pronto para acumular títulos importantes. Mas o que veio depois foi uma espécie de aprisionamento silencioso.

Enquanto Zverev carrega o peso de nunca ter vencido um Slam, Medvedev convive com uma pergunta talvez ainda mais incômoda: como um jogador tão bom venceu apenas um? Desde aquele triunfo em Nova York, acumulou finais perdidas em Melbourne, derrotas dolorosas para Djokovic e, mais recentemente, tornou-se uma das primeiras vítimas da ascensão de Sinner e Alcaraz.

Em janeiro de 2024, chegou a abrir dois sets de vantagem contra Sinner na final do Australian Open antes de sofrer uma virada devastadora. Foi uma derrota que pareceu resumir toda a sua fase atual: suficientemente bom para chegar lá, mas incapaz de permanecer no topo quando a nova geração acelera.

A floresta de Medvedev é diferente da de Zverev. Não é a floresta da busca pelo primeiro título. É a floresta da confirmação. A dúvida não é se ele pode vencer um Grand Slam. Ele já provou isso. A dúvida é se conseguirá voltar a fazê-lo antes que a história avance sem ele.

Stefanos Tsitsipas talvez represente uma tragédia esportiva ainda mais peculiar. Durante muito tempo, parecia o mais preparado para assumir o trono deixado pelo Big Three. Seu tênis possuía beleza estética, variedade tática e uma agressividade que lembrava os grandes campeões de outras épocas. Quando derrotou Nadal no Australian Open de 2021 após perder os dois primeiros sets, muitos acreditaram estar assistindo ao nascimento de um futuro número 1 do mundo. No entanto, o roteiro tomou outro rumo.

As derrotas nas finais de Roland Garros de 2021 e do Australian Open de 2023 deixaram marcas profundas. Em Paris, abriu vantagem sobre Djokovic e parecia caminhar para o maior triunfo da carreira antes de ser engolido pela experiência do sérvio. Em Melbourne, encontrou novamente Djokovic e foi derrotado de forma contundente. Desde então, sua trajetória parece ter entrado em um ciclo de estagnação. Lesões, mudanças técnicas, oscilações de confiança e dificuldades para acompanhar a evolução dos rivais transformaram um candidato a múltiplos Grand Slams em um jogador que hoje luta para voltar ao grupo dos principais favoritos.

A floresta de Tsitsipas é a da promessa interrompida. É a sensação permanente de que existe um jogador extraordinário escondido em algum lugar, mas que nunca mais conseguiu emergir completamente.

Há algo de poético nisso tudo. Enquanto Alcaraz e Sinner representam a clareira iluminada do futuro, a geração sanduíche continua caminhando entre árvores cada vez mais altas. Não porque lhes falte talento. Pelo contrário. Talvez o maior azar desses jogadores tenha sido justamente serem talentosos o suficiente para alimentar expectativas gigantescas.

Zverev conquistou medalha de ouro olímpica e múltiplos Masters 1000. Medvedev chegou ao topo do ranking mundial e venceu um Grand Slam. Tsitsipas disputou finais dos maiores torneios do planeta e permaneceu anos entre os melhores. Em qualquer outra época do tênis, esses feitos seriam suficientes para transformá-los nos protagonistas absolutos de uma geração.

Mas eles nasceram em uma era que não respeita parâmetros normais. Primeiro tiveram de enfrentar Federer, Nadal e Djokovic. Depois passaram a enfrentar Alcaraz e Sinner. É como se o tênis tivesse retirado deles a possibilidade de ocupar o centro do palco por tempo suficiente para consolidar seus próprios legados.

Os fantasmas que o acompanham em cada Grand Slam

Toda grande carreira esportiva acumula cicatrizes, mas poucas parecem tão presentes quanto as de Zverev. O alemão não chega a uma final carregando apenas a expectativa pelo próximo jogo. Ele entra em quadra acompanhado por lembranças que o circuito inteiro conhece.

A mais dolorosa delas talvez continue sendo a final do US Open de 2020. Naquela ocasião, Zverev abriu dois sets de vantagem sobre Dominic Thiem e ficou a poucos games de conquistar seu primeiro Grand Slam. Era a chance perfeita. O cenário ideal. O momento pelo qual trabalhou durante toda a carreira. E mesmo assim tudo escapou. Thiem iniciou a reação, levou o jogo ao quinto set e venceu no tiebreak decisivo. Desde então, aquela derrota passou a ser usada como símbolo de uma narrativa que perseguiria Zverev pelos anos seguintes.

A história voltou a se repetir de formas diferentes. Em Roland Garros de 2024, ele chegou novamente muito perto da glória, mas viu Carlos Alcaraz assumir o controle da partida nos momentos decisivos da final. No Australian Open de 2025, acreditava estar jogando o melhor tênis de sua vida, apenas para ser dominado por Jannik Sinner em uma atuação que reforçou ainda mais a sensação de que algo sempre acontecia quando o troféu estava ao alcance de suas mãos.

Aos poucos, a narrativa deixou de ser apenas sobre técnica, preparação física ou estratégia. Passou a ser uma discussão sobre confiança, pressão e capacidade de lidar com os maiores momentos do esporte. É por isso que a final diante de Cobolli carregam um peso psicológico gigantesco. Pela primeira vez, não haverá um supercampeão esperando do outro lado. Pela primeira vez, a principal batalha parece acontecer dentro da própria mente de Zverev.

Zverev tem a chance de finalmente sair da floresta

Talvez seja justamente aqui que a metáfora de Out of the Woods encontre seu significado mais poderoso. A música fala sobre a esperança de finalmente deixar para trás um período de incertezas. Não existe garantia de que tudo ficará bem. Não existe promessa de felicidade permanente. Existe apenas a decisão de continuar caminhando até encontrar uma saída. E é exatamente esse o momento que Zverev vive.

Durante anos, ele atravessou uma floresta construída por derrotas, expectativas e questionamentos. Cada nova oportunidade parecia apenas ampliar o peso das oportunidades anteriores. Cada nova final trazia consigo a lembrança das finais perdidas. Cada nova campanha em Grand Slam carregava o fantasma das campanhas que terminaram em frustração. Agora, porém, o cenário é diferente. Pela primeira vez em muito tempo, o caminho parece aberto. Não porque seus adversários sejam fracos, mas porque os obstáculos que historicamente interromperam sua jornada já não estão mais presentes.

A grande questão é se as cicatrizes acumuladas ao longo dos anos servirão como combustível ou como âncora. Alguns atletas transformam o sofrimento em força. Outros acabam aprisionados por ele. Roland Garros pode ser o torneio que responderá definitivamente qual dessas histórias pertence a Alexander Zverev.

Se vencer, o alemão finalmente deixará para trás o rótulo de melhor jogador sem um Grand Slam e reescreverá a narrativa de toda a sua carreira. Se perder, os fantasmas ganharão mais um capítulo e a floresta continuará existindo, talvez ainda mais densa do que antes. Por isso esta final vale muito mais do que um troféu. Ela vale a forma como Alexander Zverev será lembrado quando sua carreira terminar. E poucas vezes um jogador entrou em quadra carregando um peso tão grande e, ao mesmo tempo, uma oportunidade tão rara de se libertar dele.

(Foto: Getty Images)