Em um Liverpool recheado de contratações milionárias – nada menos que 446 milhões de libras gastos na última janela – foi um menino de apenas 17 anos que decidiu um dos jogos mais emocionantes da temporada. Rio Ngumoha, um nome que até pouco tempo atrás era conhecido apenas por olheiros e fãs das categorias de base, saiu do banco e, com uma frieza de veterano, marcou o gol da vitória por 3 a 2 sobre o Newcastle, no centésimo minuto, no sempre hostil St. James’ Park.
Esse momento não veio do nada. Antes desse jogo histórico, Ngumoha já havia mostrado seu talento no período de pré-temporada com três gols – dois deles verdadeiras pinturas – e duas assistências. A torcida dos Reds já vinha se encantando com o garoto, mas agora o mundo inteiro sabe quem ele é. E mais: depois desse jogo, ele ainda se tornou o jogador mais jovem do Liverpool a atuar na Champions League.
Como o Liverpool tirou a joia do Chelsea
Ngumoha nasceu em Newham, no leste de Londres, e entrou para a academia do Chelsea aos oito anos. Com talento acima da média, pulou etapas e jogava pelo time sub-21 dos Blues quando tinha apenas 15 anos. Não à toa, John Terry, ídolo do Chelsea e envolvido no trabalho das categorias de base, chegou a prever que ele seria um “top, top player”.
Mesmo assim, em 2024, o Liverpool conseguiu convencer a joia a trocar Londres por Merseyside. O argumento dos Reds foi simples: existe um caminho real do time de base para o profissional – algo que Jurgen Klopp provou várias vezes e que Arne Slot, seu sucessor, está repetindo. Para Ngumoha, a chance de treinar e aprender com nomes como Van Dijk e Mohamed Salah pesou muito.
Ngumoha e a ascensão meteórica no clube
Logo ao chegar, Ngumoha começou no sub-18, mas rapidamente chamou a atenção do técnico Arne Slot. Em dezembro passado, foi relacionado para um jogo da Copa da Liga contra o Southampton. No mês seguinte, virou o jogador mais jovem a iniciar uma partida oficial pelo Liverpool, na Copa da Inglaterra contra o Accrington Stanley. Desde então, divide seu tempo entre treinos na base e no time principal.
Esse contato precoce com os profissionais fez diferença. No tour de pré-temporada por Hong Kong e Japão, com a saída de Luis Díaz para o Bayern abrindo espaço, Slot decidiu dar mais minutos ao garoto. Resultado: gols marcantes contra o Yokohama F. Marinos e o Athletic Club, com arrancadas e dribles que explicam por que o Chelsea não queria vê-lo sair.
Personalidade e elogios dos companheiros
Ngumoha não se intimidou nem com os holofotes. Contra o Athletic, precisou de apenas cinco minutos para fazer um gol e dar uma assistência. Ben Doak, hoje no Bournemouth, ficou impressionado e declarou ao LFCTV: “Esse cara é ridículo. Vai ter uma carreira gigante!”.
Arne Slot, por sua vez, tenta manter os pés do garoto no chão. Após a vitória sobre o Yokohama, o treinador elogiou, mas lembrou: “Houve um momento em que ele deveria ter passado a bola. Ele pode aprender”. A mensagem é clara: talento ele tem, mas precisa seguir evoluindo.
Hora de estar envolvido de vez
Jamie Carragher, lenda dos Reds, foi mais direto depois do gol contra o Newcastle: “Ele tem que estar envolvido”. Para o ex-zagueiro, o Liverpool não pode ignorar um jovem que mostrou tamanha personalidade num momento tão decisivo. Com a saída de Luis Díaz e a disputa pela posição na esquerda, há uma brecha para Ngumoha aparecer mais vezes no time principal.
Carragher não fala em titularidade absoluta, mas acredita que o garoto precisa estar no banco e entrar nos jogos importantes nos próximos meses. É uma oportunidade única de crescimento e, para o clube, uma chance de lapidar um talento que pode ser decisivo no presente e no futuro.
Pé no chão e apoio do elenco
Virgil van Dijk, capitão do time, preferiu adotar cautela: “Estou muito feliz pelo Rio. Mas isso é só o começo. Ele precisa seguir trabalhando duro e permanecer humilde. Tem que aproveitar esses momentos, porque não são garantidos”. O holandês sabe bem do que fala: a Premier League é intensa até para jogadores na casa dos 20 anos, imagine para um adolescente.
Ainda assim, a impressão deixada por Ngumoha é forte. Em um elenco recheado de estrelas e investimentos pesados, ver um garoto formado na base estrear, decidir jogos e quebrar recordes traz um sentimento especial para os torcedores do Liverpool. O futuro parece promissor para o jovem atacante – e, pelo jeito, esse futuro já começou.