Milan x Manchester United, Amistoso. Foto: Reprodução/AC Milan site oficial.
Futebol Premier League UEFA Champions League

Rúben Amorim volta para assombrar o Manchester United e expõe velhos problemas dos Red Devils

Sete meses depois de deixar o Manchester United pela porta dos fundos, Rúben Amorim reencontrou o clube que marcou o período mais turbulento de sua ainda curta carreira como treinador. Desta vez, porém, o português estava do outro lado. No comando do Milan, enfrentou os Red Devils em Wroclaw, na Polônia, e saiu de campo com uma vitória por 4 a 2 no último amistoso de pré-temporada do time inglês.

O resultado, por si só, já seria suficiente para transformar o reencontro em uma história interessante. Mas a partida deixou algo ainda mais importante para o Manchester United: alguns problemas que pareciam pertencer ao passado continuam aparecendo.

A equipe de Michael Carrick até começou muito bem, abriu o placar aos dois minutos com Harry Maguire e voltou a ficar na frente logo no início do segundo tempo, quando Patrick Dorgu aproveitou um passe para trás desastroso da defesa italiana. O problema foi justamente não conseguir sustentar a vantagem. Samuel Chukwueze empatou ainda no primeiro tempo, Bruno Fernandes desperdiçou um pênalti antes do intervalo e, depois do segundo gol dos ingleses, o Milan reagiu novamente.

Alphadjo Cissé apareceu no segundo poste para deixar tudo igual, enquanto Gonçalo Ramos e Ruben Loftus-Cheek completaram a virada nos minutos finais. O United terminou a preparação para a nova temporada com uma derrota que serve de alerta antes da estreia na Premier League, contra o Hull City, no próximo sábado (22).

E existe uma ironia nessa história: o Milan de Amorim conseguiu machucar o Manchester United justamente em alguns dos espaços que o português conhecia tão bem.

A defesa continua sendo o principal ponto de preocupação

Se o Manchester United pudesse engarrafar os primeiros 15 minutos da partida e assistir a esse trecho antes de cada jogo da temporada, Michael Carrick provavelmente ficaria satisfeito. O time marcou logo aos dois minutos, pressionou alto, mostrou intensidade e conseguiu forçar o Milan a cometer erros. Por alguns momentos, parecia exatamente a equipe que os torcedores esperam ver depois da evolução apresentada na reta final da última temporada.

O problema foi manter esse nível. O Milan assumiu o controle da posse de bola, começou a encontrar espaços entre os setores e obrigou Senne Lammens a fazer algumas boas defesas antes de chegar ao empate. O United, que havia começado pressionando, passou a recuar e encontrou dificuldades para recuperar a bola. Quando voltou a ficar na frente no início do segundo tempo, a história se repetiu: seis minutos depois, o Milan já havia empatado novamente.

A equipe inglesa não conseguiu proteger os corredores, sofreu quando o adversário acelerou as jogadas e mostrou pouca capacidade para controlar uma partida depois de assumir a vantagem. Carrick não escondeu a insatisfação após o apito final e reconheceu que o United não fez uma boa partida, além de destacar a necessidade de evolução antes do início oficial da temporada.

É claro que pouco se pode concluir a partir de um amistoso de pré-temporada. Ainda assim, quatro gols sofridos e uma vantagem de 2 a 0 desperdiçada são sinais que não podem ser completamente ignorados.

E existe uma curiosidade tática interessante no meio disso tudo. Amorim passou meses sendo criticado por insistir no 3-4-2-1 durante sua passagem por Old Trafford, sistema que acabou ficando associado ao fracasso do português no clube. Agora, foi justamente com uma estrutura baseada em ideias semelhantes, principalmente na ocupação dos espaços, pressão e transições rápidas, que o Milan encontrou maneiras de incomodar o antigo time de seu treinador.

Não significa que a derrota possa ser resumida a uma questão de formação. Mas ela mostra que trocar o comandante não resolve automaticamente problemas estruturais. O Manchester United mudou, ganhou jogadores e vive um ambiente muito mais positivo, mas algumas fragilidades reapareceram quando o jogo ficou caótico.

Amorim conhecia os caminhos para incomodar o antigo clube

O reencontro também carrega um componente simbólico. Amorim passou 14 meses no Manchester United, entre novembro de 2024 e janeiro de 2026. Foram 63 partidas e apenas 24 vitórias, em uma passagem marcada pelo desgaste progressivo com torcedores, imprensa e parte do elenco.

Isso, porém, não apaga o conhecimento que o português acumulou sobre aqueles jogadores.

Amorim conhecia as características, os hábitos e as limitações de boa parte do grupo que esteve em campo. Sabia como alguns atletas reagiam sob pressão e quais espaços poderiam aparecer quando o United perdesse a organização. Seu Milan soube acelerar o jogo nos momentos certos, atacar os corredores e explorar a desorganização defensiva dos ingleses.

Não dá para afirmar que Amorim simplesmente “venceu Carrick” por conhecer melhor o adversário. Seria uma conclusão exagerada para um amistoso. Mas existe, sim, um componente interessante: o treinador sabia exatamente o que estava enfrentando.

E isso inevitavelmente levanta uma pergunta que acompanhou sua passagem por Manchester: quanto dos problemas encontrados por Amorim eram responsabilidade do próprio português e quanto estava relacionado à estrutura do clube?

A resposta não pode ser encontrada em uma única partida. O trabalho de Amorim no United foi ruim, seus números foram ruins e a relação com o ambiente se deteriorou até a demissão. Ao mesmo tempo, a vitória do Milan mostra que algumas das dificuldades que ele enfrentou não desapareceram simplesmente com sua saída.

O United evoluiu, mas não pode se acomodar

Milan x Manchester United, Amistoso. Foto: Reprodução/Manchester United via site oficial.
Milan x Manchester United, Amistosos. Foto: Reprodução/Manchester United via site oficial.

 

Seria injusto olhar para o 4 a 2 e concluir que o Manchester United voltou à estaca zero. O contexto atual é completamente diferente.

Michael Carrick conseguiu reorganizar o ambiente depois da saída de Amorim e conduziu o United a uma terceira colocação na Premier League e ao retorno à Champions League. O treinador foi efetivado depois de um período como interino e ganhou a confiança da diretoria justamente pela recuperação apresentada na temporada passada.

O elenco também foi reforçado. Matheus Cunha, Bryan Mbeumo, Benjamin Šeško, Youri Tielemans e Andrey Santos chegaram para aumentar a qualidade do grupo, enquanto Bruno Fernandes vem de uma temporada extraordinária, na qual estabeleceu o recorde de assistências da Premier League e foi eleito o melhor jogador da competição.

Portanto, existem motivos para otimismo em Old Trafford. O problema é que o nível de exigência também aumentou.

O Manchester United não está mais tentando simplesmente escapar de uma temporada ruim. O clube voltou à Champions League e precisa provar que a recuperação da reta final de 2025/26 não foi apenas um momento passageiro. A derrota para o Milan funciona justamente como um lembrete de que ainda existe trabalho pela frente.

Carrick terá de encontrar o equilíbrio entre o bom futebol que apareceu em determinados momentos e a necessidade de tornar o time mais consistente. E isso passa principalmente pela defesa.

O United pode marcar muitos gols com Cunha, Mbeumo, Šeško e Bruno Fernandes. Pode recuperar Marcus Rashford e ganhar uma nova arma ofensiva. Pode voltar a disputar a parte de cima da tabela. Mas se continuar sofrendo quando perde o controle das partidas, os problemas inevitavelmente vão reaparecer diante de adversários mais fortes.

Fernandes desperdiça outro pênalti antes da estreia

Outro ponto que merece atenção é Bruno Fernandes. O capitão teve a oportunidade de ampliar a vantagem do Manchester United ainda no primeiro tempo, mas parou no goleiro Lorenzo Torriani.

O português costuma utilizar uma corrida mais lenta nas cobranças, esperando a movimentação do goleiro antes de escolher o canto. Dessa vez, optou pela força, mas não conseguiu colocar a bola no ângulo. Torriani acertou o lado e defendeu a cobrança.

O desperdício acontece poucos dias depois de Fernandes perder um pênalti na disputa contra o Leeds United, embora o United tenha avançado naquela ocasião.

Na última temporada, o meio-campista havia desperdiçado duas das seis cobranças que teve pelo clube. Agora, dois pênaltis perdidos em sequência adicionam uma pequena preocupação justamente às vésperas do início da Premier League.

Não é motivo para colocar em dúvida o status de Fernandes como cobrador principal, muito menos para questionar tudo o que ele produziu na temporada anterior. Mas é um detalhe que o capitão certamente gostaria de corrigir rapidamente.

Rashford volta a vestir a camisa do United

A derrota também teve um aspecto positivo para os torcedores: Marcus Rashford voltou a atuar pelo Manchester United.

O atacante não fazia uma partida pelo clube desde dezembro de 2024 e, durante muito tempo, parecia que sua história em Old Trafford havia chegado ao fim. A relação com Amorim foi um dos pontos de maior tensão durante a passagem do português, e Rashford acabou sendo emprestado ao Aston Villa e posteriormente ao Barcelona.

A chegada de Carrick, porém, abriu a possibilidade de uma reintegração. Depois de retornar aos treinamentos com o grupo, Rashford entrou no segundo tempo contra o Milan e disputou os últimos 30 minutos.

Sua atuação esteve longe de ser brilhante, especialmente porque as seis mudanças realizadas pelo United aos 60 minutos acabaram desorganizando o setor ofensivo. Ainda assim, houve momentos em que o atacante mostrou a velocidade e a força que podem transformá-lo novamente em uma arma importante.

Uma arrancada em profundidade, inclusive, poderia ter terminado em gol. Para Rashford, portanto, o amistoso representou mais do que uma simples partida de preparação. Foi o primeiro capítulo de uma possível tentativa de reconstrução de sua relação com o clube que o revelou.

Amorim saiu, mas deixou perguntas para o Manchester United responder

Talvez essa seja a principal conclusão do reencontro. Rúben Amorim não precisava vencer o Manchester United para provar que sua passagem por Old Trafford foi melhor do que os resultados indicaram. O período foi ruim, os números foram ruins e a relação com o ambiente se deteriorou até a demissão. Mas o português também não é o único responsável pelo cenário que encontrou.

O Manchester United mudou desde então. Carrick trouxe estabilidade, o clube voltou à Champions League e o elenco ganhou reforços importantes. A atmosfera também é diferente, e existe a expectativa de que a equipe consiga transformar a recuperação da última temporada em um novo ponto de partida.

Só que o 4 a 2 para o Milan mostrou que ainda existem respostas a serem dadas. Amorim voltou a encontrar o antigo clube sem precisar dizer muita coisa. O campo falou por ele. Seu Milan encontrou espaços, castigou a defesa e mostrou que uma equipe organizada pode colocar o Manchester United em dificuldades quando consegue acelerar o jogo.

Agora cabe a Carrick responder e rápido: a estreia contra o Hull City é o primeiro teste oficial e será daqui menos de uma semana. Depois virão adversários mais pesados, uma Premier League cada vez mais competitiva e, principalmente, o retorno à Champions League.

O Manchester United conseguiu deixar para trás a era Amorim. O desafio, agora, é provar que também conseguiu deixar para trás os problemas que fizeram aquela era fracassar.

Créditos da foto de capa: Reprodução/AC Milan site oficial.