Pouca gente em sã consciência esperava algo do Chelsea no Etihad Stadium neste último domingo. Enfrentar o Manchester City, atual octacampeão da Premier League, já é missão ingrata em condições normais. Fazer isso com um treinador interino que caiu de paraquedas, elenco desfalcado e clima de “troca de turno” no clube? Aí parecia roteiro pronto para mais uma noite longa e dolorosa para os Blues.
Mas o futebol, como sempre, gosta de contrariar o que é esperado de ocorrer. Sob o comando provisório de Calum McFarlane, que teve apenas três dias para preparar o jogo após a saída de Enzo Maresca, o Chelsea saiu de Manchester com um empate por 1 a 1 que vale muito mais do que um ponto na tabela. Vale moral, confiança e, principalmente, uma pista clara de por onde o time pode evoluir.
E além desse fator, conseguiram tirar boas conclusões de outras coisas importantes dentro do elenco, que resolveram aparecer quando a pressão aumentou.
Um primeiro tempo para o Chelsea esquecer (ou quase)
Os primeiros 45 minutos seguiram exatamente o roteiro esperado. O City teve controle absoluto, jogou no piloto automático e abriu o placar sem precisar acelerar. O Chelsea terminou o primeiro tempo com apenas 32% de posse de bola, acuado no próprio campo e com jogadores ofensivos exercendo funções quase exclusivas de marcação, simplesmente estavam se defendendo, sem terem turno de ataque.
Estevão e Pedro Neto passaram boa parte do tempo ajudando os laterais, tentando conter as subidas constantes de Nico O’Reilly e Matheus Nunes. O problema é que, ofensivamente, isso praticamente anulou os dois, obviamente não tinha como eles cobrirem e atacarem, sem morreram de cansaço. Resultado: um Chelsea inofensivo, previsível e pressionado.
Para ser justo, o placar de 1 a 0 saiu barato, mas muito. Erling Haaland acertou a trave, outras chances apareceram, e se o City tivesse apertado um pouco mais, o jogo poderia ter sido resolvido cedo. Guardiola não precisou forçar. O domínio foi total, porém, entra aquele famoso ponto, se não girar a faca…
No intervalo, McFarlane tomou sua decisão mais importante da noite. Sacou Estevão, que pouco produziu, e lançou Andrey Santos, um nome que tem brilhado, só que fica muito difícil pra ele a briga por um espaço no time titular, com Enzo, Reece James e Caicedo no setor. Uma substituição simples no papel, mas que mudou completamente o desenho do jogo.
O Chelsea alterou o sistema. Malo Gusto e Pedro Neto passaram a atuar como alas, quase como wing-backs. No meio, Andrey se juntou a Reece James, Enzo Fernández e Cole Palmer, dando mais densidade e controle. Na frente, João Pedro virou a referência.
E, de repente, o Chelsea começou a jogar futebol, depois de ter deixado os Sky Blues com a bola por um tempo inteiro.
Andrey Santos: o ponto de equilíbrio que faltava
A entrada de Andrey Santos foi o divisor de águas. O brasileiro assumiu uma função mais recuada no meio-campo, protegendo a defesa e liberando James e Enzo para subir o bloco. Com isso, o Chelsea conseguiu algo raro até então: respirar, algo que parecia simplesmente impossível para o time londrino.
Na segunda etapa, o time criou três grandes chances, acumulou 1,66 de xG e passou a frequentar o campo ofensivo com muito mais regularidade. O empate veio no apagar das luzes, aos 94 minutos, com Enzo Fernández, justo prêmio para uma atuação muito mais corajosa após o intervalo, sendo uma boa mensagem em meio a uma demissão surpreendente de Enzo Maresca, mas agora é bola pra frente pro Chelsea.
Os números ajudam a explicar o impacto de Santos. Ele venceu cinco dos oito duelos disputados, fez quatro ações defensivas importantes e, principalmente, organizou o jogo com a bola no pé. Foram 28 passes certos em 31 tentativas, um índice que permitiu ao Chelsea sair da dependência dos chutões e construir jogadas desde trás.
Não por acaso, o City praticamente sumiu ofensivamente no segundo tempo. Criou menos de 0,3 xG, mesmo com um sistema de marcação individual adotado pelos Blues, que em teoria poderia ter aberto espaços perigosos. Não mataram o jogo quando tiveram a bola, e para melhorar, não souberam se defender quando foi preciso ver os Blues jogarem.
Declaração que diz tudo
Após o jogo, McFarlane não economizou elogios. Em coletiva, foi direto e reto:
“Achei o Andrey excepcional. Ele realmente controlou o meio-campo.”
E não foi discurso protocolar. Foi constatação, a mais clara realidade.
O desempenho de Andrey Santos chama ainda mais atenção quando se olha para o contexto. O volante do Chelsea retornou a Stamford Bridge em junho, depois de uma temporada excelente emprestado ao Strasbourg. Imaginava-se que ele ganharia mais espaço, só que devido ao alto nível da posição, não é bizarro vê-lo ganhando chances aos poucos, a pressa é a inimiga da perfeição.
Foram apenas 441 minutos em 19 rodadas da Premier League, uma utilização que nunca fez muito sentido para quem acompanhou o brasileiro na França. Contra o City, em 45 minutos, ele mostrou tudo o que vinha faltando ao Chelsea: presença, leitura de jogo e qualidade na saída de bola.
Olho no futuro: Rosenior pode ser o empurrão final
A atuação de Andrey Santos ganha ainda mais peso com a iminente chegada de Liam Rosenior ao comando do Chelsea. O treinador, que trabalhou com o brasileiro no Strasbourg, deve ser anunciado nos próximos dias. E o histórico entre os dois é animador, sendo o próprio responsável pelo crescimento do volante no contexto mundial.
Na Ligue 1, Andrey foi peça-chave, com 16 participações diretas em gols em 34 jogos. Um volante moderno, que marca, constrói e aparece na área. A reunião com Rosenior pode ser exatamente o gatilho que faltava para sua carreira engrenar de vez em Londres.
Claro, Moises Caicedo estava suspenso contra o City e tende a voltar ao time titular. Mas o recado foi dado. Andrey Santos mostrou que não é apenas uma opção de elenco, é alguém pronto para assumir responsabilidades, não é atoa que Carlo Ancelotti tem apostado nele na Seleção Brasileira, sendo um nome com enormes chances de aparecer na Copa do Mundo.
Em meio a tanta instabilidade, o Chelsea talvez tenha encontrado algo raro: uma solução simples, dentro de casa, esperando apenas a chance certa. E às vezes, no meio do caos, é exatamente assim que as melhores histórias começam.
Foto: Darren Walsh/Chelsea FC via Getty Images