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Neymar mais avançado e decisivo no Santos: a nova função que pode recolocá-lo na seleção brasileira de Ancelotti para a Copa 2026

Neymar, mais uma vez virou pauta obrigatória. A vitória do Santos por 2 a 1 sobre o Vasco, na Vila Belmiro, pelo Brasileirão 2026, com dois gols de Neymar, não foi apenas mais um capítulo da história do camisa 10 com a camisa alvinegra. Foi, sobretudo, um indício claro de transformação. Não técnica — essa nunca esteve em debate —, mas estratégica. O posicionamento de Neymar no jogo de ontem revelou um caminho possível para levá-lo a um novo patamar de efetividade e, consequentemente, recolocá-lo com força real na disputa por uma vaga na Seleção Brasileira de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo.

O que mudou? Muita coisa.

Um Neymar menos operário e mais decisivo

Contra o Vasco, Neymar atuou numa faixa de campo mais avançada e aberta, especialmente pelo lado esquerdo, atacando o espaço no último terço com mais frequência. Diferentemente do que vinha ocorrendo em partidas anteriores do Paulistão 2026, o camisa 10 fez muito menos trabalho sem a bola na fase defensiva e, principalmente, deixou de baixar constantemente para buscar a construção no campo defensivo.

Isso não é detalhe. É mudança de função.

Nos jogos contra o Velo Clube (apenas um tempo) e o Novorizontino, também pelo Paulistão 2026, os mapas de calor mostraram um Neymar extremamente participativo na base da jogada. Ele recuava para organizar, encostava nos volantes, flutuava por dentro e, muitas vezes, acumulava funções de meia armador clássico. O resultado era um jogador mais envolvido, mas menos presente na zona de definição.

Contra o Vasco, foi o oposto.

Ele manteve-se mais alto, menos centralizado na construção e mais posicionado entre lateral e zagueiro adversários. O mapa de calor evidencia maior concentração no corredor ofensivo esquerdo e na entrada da área, com menor presença no campo defensivo. Isso aumentou sua frequência de ações dentro da área e potencializou sua capacidade de finalização.

E o placar confirmou: dois gols, jogo decidido.

A diferença tática em relação a Velo Clube e Novorizontino

Nos confrontos contra Velo Clube e Novorizontino, Neymar assumiu responsabilidade quase total pela organização ofensiva. O Santos dependia dele para sair jogando, acelerar transições e encontrar passes verticais. O mapa de calor dessas partidas mostrava uma mancha ampla, espalhada do meio-campo defensivo até a intermediária ofensiva.

Isso gera volume, mas dilui energia.

Um jogador que percorre tantos metros com bola precisa tomar decisões sob pressão constante, sofre mais contato físico e chega menos inteiro na área. Ele participa de mais jogadas, mas decide menos.

Contra o Vasco, o Santos redistribuiu responsabilidades na base da jogada. Neymar não precisou ser o primeiro construtor. Recebeu mais vezes já em zonas de vantagem, com o time mais organizado à frente. O resultado foi um jogador mais fresco, mais agressivo e mais vertical.

Essa diferença muda o patamar de impacto.

Neymar como ponta híbrido: menos desgaste, mais eficiência

O posicionamento adotado na Vila Belmiro lembra muito a função que Neymar exerceu em seu auge europeu: partindo aberto, mas com liberdade para infiltrar por dentro no momento certo. Não como um meia que arma desde trás, mas como um atacante que define.

Essa escolha tática aumenta três fatores fundamentais:

  1. Número de toques no último terço
  2. Finalizações por jogo
  3. Ações decisivas dentro da área

Contra o Vasco, Neymar apareceu mais vezes em condição de chute. E quando ele recebe nessa zona, a probabilidade de gol sobe exponencialmente.

Ao reduzir sua participação defensiva e a necessidade de baixar para construir, o Santos preserva fisicamente o jogador e maximiza sua principal qualidade: a capacidade de decidir jogos grandes.

E é exatamente isso que pesa em uma convocação para Copa do Mundo.

O que Carlo Ancelotti observa

Carlo Ancelotti sempre valorizou jogadores capazes de decidir partidas em alto nível competitivo. Ao longo de sua carreira, trabalhou com atletas que, mesmo não sendo os mais participativos defensivamente, entregavam impacto ofensivo real.

Para o treinador, eficiência supera volume.

Se Neymar continuar sendo o jogador que toca 80 vezes na bola, mas finaliza pouco, ele vira um articulador de luxo. Mas se ele passa a tocar 45 vezes e produzir dois gols, ele volta a ser diferencial.

O jogo contra o Vasco é um exemplo claro de como o reposicionamento pode torná-lo mais interessante para a Seleção Brasileira.

Ancelotti dificilmente abrirá mão de organização coletiva para acomodar um jogador que precise buscar jogo no círculo central. Mas pode perfeitamente encaixar um Neymar mais alto, partindo da esquerda, flutuando por dentro e atacando o espaço entre lateral e zagueiro — especialmente em jogos de Copa, onde a definição em poucos momentos decide destinos.

Efetividade: o salto que faltava

O Santos percebeu algo que pode mudar o rumo da temporada — e talvez da carreira recente de Neymar: ele não precisa ser o motor do time. Ele precisa ser o detonador.

Nos mapas de calor contra Velo Clube e Novorizontino, Neymar era onipresente. No mapa contra o Vasco, ele foi cirúrgico.

Menos deslocamento defensivo.
Menos recuo para armar.
Mais presença na área.
Mais finalizações.

Esse ajuste tático aumenta sua taxa de participação direta em gols, indicador que pesa muito mais em análise de desempenho do que simples volume de passes ou conduções.

Para uma Copa do Mundo, técnicos buscam jogadores que transformem meia chance em gol. Neymar, posicionado dessa forma, volta a se encaixar nesse perfil.

O impacto psicológico e simbólico

Além da questão tática, há um aspecto simbólico importante. Dois gols, vitória na Vila Belmiro e protagonismo em jogo grande fortalecem narrativa. E convocação também passa por narrativa.

Se a imagem recente era a de um Neymar sobrecarregado, tentando fazer tudo e nem sempre decidindo, o cenário começa a mudar. Agora, ele aparece como finalizador, como homem do último toque, como responsável direto pelo resultado.

Essa mudança altera percepção pública e técnica.

E percepção conta.

O desafio daqui para frente

O ponto central agora é consistência.

Se o Santos mantiver Neymar nessa faixa de campo mais avançada, reduzindo sua obrigação defensiva e distribuindo melhor a construção ofensiva, a tendência é que os números de gols e participações decisivas cresçam.

Mas é preciso disciplina coletiva. O time precisa compensar defensivamente e garantir que o camisa 10 receba em vantagem.

Caso contrário, ele volta a recuar por instinto competitivo — e o ciclo recomeça.

Pode levá-lo a outro patamar?

Sim. E não é exagero. Um Neymar que atua mais próximo da área, com energia preservada e foco na definição, é um jogador diferente. Não apenas tecnicamente, mas estatisticamente. Se repetir atuações como a contra o Vasco — dois gols, presença constante no último terço, menor desgaste defensivo — ele se reposiciona no debate da Seleção. Carlo Ancelotti convocará jogadores que resolvem. O Neymar construtor é importante. O Neymar finalizador é decisivo. E, em Copa do Mundo, quem decide jogos entra para a história.

Se o mapa de calor da Vila Belmiro virar padrão — mais quente na área adversária e menos espalhado pelo campo inteiro — o camisa 10 não apenas aumenta suas chances de convocação. Ele eleva seu jogo a um novo nível de efetividade. E talvez esteja aí o ajuste que faltava para transformar talento em definição constante.

O Santos venceu por 2 a 1. Neymar fez dois. Mas o maior gol pode ter sido tático.

Creditos foto: GUILHERME DIONÍZIO/CÓDIGO19/ESTADÃO CONTEÚDO