Brito Seleção Brasileira
Copa do Mundo

Adeus, Brito: entenda como zagueiro campeão de 70 formou a dupla de zaga que mudou o futebol

O futebol brasileiro se despediu de uma de suas figuras históricas com a morte de Brito, campeão mundial pela Seleção Brasileira em 1970 e integrante de uma das duplas defensivas mais importantes da história do esporte. Aos 86 anos, o ex-zagueiro deixa um legado que vai muito além dos títulos conquistados. Sua parceria com Wilson Piazza ajudou a criar um conceito que décadas depois se tornaria comum no futebol moderno: a importância de defensores com características complementares.

Quando se fala da Seleção de 1970, os holofotes normalmente se voltam para Pelé, Jairzinho, Rivellino, Gérson e Tostão. Afinal, aquele time é considerado por muitos como a melhor equipe da história das Copas do Mundo. No entanto, por trás de um ataque brilhante existia uma defesa extremamente eficiente, liderada justamente por Brito e Piazza.

A dupla foi fundamental para que o Brasil conquistasse o tricampeonato mundial no México e mostrou que uma defesa não precisa ser formada por jogadores com características idênticas para funcionar. Pelo contrário: foi justamente a combinação entre perfis diferentes que tornou aquela parceria tão especial.

A união perfeita entre força e inteligência

Seleção 70

Brito representava o modelo clássico de zagueiro.

Forte fisicamente, agressivo na marcação e extremamente competitivo, ele era responsável por proteger a área brasileira contra os principais atacantes do mundo. Sua imposição física era tão marcante que recebeu o apelido de “Hércules” durante a carreira.

Com excelente preparo físico, considerado por muitos como um dos melhores da Copa de 1970, Brito transmitia segurança aos companheiros e assumia as disputas mais duras contra os adversários.

Ao seu lado estava Piazza, um jogador completamente diferente.

Volante de origem, o atleta do Cruzeiro foi adaptado por Zagallo para atuar na defesa. Enquanto Brito cuidava da proteção e da marcação direta, Piazza exercia uma função que hoje seria facilmente comparada à de um zagueiro-líbero.

Sua qualidade técnica permitia iniciar as jogadas ainda no campo de defesa, quebrando linhas com passes precisos e contribuindo diretamente para a construção ofensiva da equipe.

Essa combinação foi revolucionária para a época.

Enquanto muitos times utilizavam dois zagueiros com funções semelhantes, o Brasil passou a contar com um defensor mais físico e outro mais técnico. Décadas depois, essa fórmula se tornaria padrão em diversas equipes de elite do futebol mundial.

A base defensiva de uma das maiores seleções da história

Brito Gerson copa 70
(Original Caption) Italian forward Alessandro Mazzola (right) takes it up with Brazilians Brito (falling) and Gerson during World Cup final here today 6/21 at the Azteca Stadium. (Bettmann/Bettmann Archive)

A importância da dupla fica ainda mais evidente quando analisamos a campanha brasileira na Copa do Mundo de 1970.

Brito foi titular em todos os jogos da competição e, ao lado de Piazza, ajudou a Seleção a superar alguns dos adversários mais difíceis do torneio.

O Brasil enfrentou Inglaterra, campeã mundial de 1966, além de Uruguai e Itália, duas potências tradicionais do futebol mundial. Também passou por Tchecoslováquia, Romênia e Peru ao longo da competição.

Mesmo diante de adversários tão qualificados, a equipe sofreu apenas sete gols em seis partidas.

Pode não parecer um número extraordinário quando comparado ao futebol atual, mas é importante lembrar que aquela Seleção tinha uma proposta extremamente ofensiva, com vários jogadores criativos e constantemente presentes no ataque.

Nesse contexto, o trabalho defensivo de Brito e Piazza se tornava ainda mais importante.

A segurança oferecida pela dupla permitia que laterais como Carlos Alberto Torres e Everaldo avançassem ao ataque com frequência. Também dava liberdade para que os meias e atacantes criassem sem a necessidade de grandes preocupações defensivas.

Em outras palavras, o brilho do ataque brasileiro era potencializado pela estabilidade que existia atrás.

Um legado que antecipou o futebol moderno

Saliba Gabriel Magalhães
Foto: Getty Images

Hoje é comum observar grandes equipes utilizando um zagueiro com perfil mais técnico ao lado de outro mais físico.

Clubes como Manchester City, Real Madrid, Liverpool e Arsenal frequentemente montam suas linhas defensivas dessa maneira. Um defensor é responsável por iniciar a construção das jogadas, enquanto o outro se destaca pela força, imposição e capacidade de vencer duelos.

O que muitos esquecem é que o Brasil já fazia algo muito parecido em 1970.

Piazza era o responsável pela saída de bola qualificada. Brito oferecia a proteção necessária para que o companheiro pudesse exercer essa função sem comprometer a segurança defensiva da equipe.

Foi uma parceria construída sobre equilíbrio.

A técnica de um completava a força do outro. A inteligência posicional de Piazza encontrava respaldo na capacidade física e na agressividade de Brito. Juntos, formaram uma dupla que ajudou a transformar conceitos defensivos dentro do futebol.

Muito mais que um campeão do mundo

Brito
Foto: Acervo O GLOBO

Brito encerra sua trajetória como um dos grandes nomes da história da Seleção Brasileira.

Foram 61 partidas vestindo a camisa verde e amarela entre 1964 e 1972, participações em duas Copas do Mundo e presença fundamental na conquista do tricampeonato no México.

Além da Seleção, construiu uma carreira importante por clubes como Vasco da Gama, Flamengo, Botafogo, Cruzeiro, Corinthians e Athletico Paranaense, deixando sua marca por onde passou.

Mas talvez seu maior legado esteja justamente naquilo que muitas vezes passa despercebido quando se fala sobre a histórica Seleção de 1970.

Enquanto Pelé encantava o mundo com sua genialidade e Jairzinho marcava gols em todos os jogos da Copa, Brito e Piazza mostravam que grandes equipes também são construídas pela inteligência tática e pelo equilíbrio entre diferentes características.

Mais de cinco décadas depois, o futebol continua utilizando conceitos que aquela dupla ajudou a popularizar.

Por isso, a despedida de Brito representa não apenas a perda de um campeão do mundo, mas também de um dos pioneiros de uma ideia que mudou a forma de enxergar a defesa dentro do futebol.

(Foto de capa: IMAGO)

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Kaique