Assistir à Copa do Mundo é um verdadeiro evento comunitário, principalmente em países periféricos. Em meio a tantos epicentros de torcidas que apoiam suas nações no Mundial, outros povos se aproveitam da ocasião para declarar seu amor pelos campeões mundiais.
Esse é o caso de Bangladesh, país no sul da Ásia, que tem uma relação curiosa com o Brasil e Argentina em Copas do Mundo.
Uma história marcante para o povo bengalês
O último censo demográfico definiu que Bangladesh tem uma população que gira em torno de 174 milhões de pessoas. Desse modo, tamanha é a multidão que se reunia em frente as televisões para assistir aos jogos da Copa do Mundo.
A cada gol de Brasil ou Argentina, a vibração é enorme e relatos não faltam. Um bom exemplo é o de Shahidul Partha, bengalês que viveu essa euforia ver um jogo da Canarinho e da Albiceleste.
No início dos anos 2000, mais de 80 pessoas costumavam se reunir no quintal de sua família para acompanhar os jogos em uma televisão preto e branco de apenas 14 polegadas, uma das poucas disponíveis na região.
“Quando saía um gol, todo mundo gritava. Parecia que estavam jogando junto com os atletas. As pessoas davam instruções para os jogadores pela televisão”, relembra Partha, hoje com 35 anos, engenheiro de software e morador da Pensilvânia, nos Estados Unidos.
Mesmo vivendo a milhares de quilômetros de distância de seu país natal, ele continua torcendo pela Seleção Brasileira. Não apenas pelo futebol, mas porque o Brasil o conecta diretamente às memórias de sua infância.
Uma paixão sem seleção na Copa
Embora Bangladesh jamais tenha disputado uma Copa do Mundo, isso nunca impediu que o futebol se transformasse em uma verdadeira paixão nacional.
Com mais de 170 milhões de habitantes, o país desenvolveu ao longo das décadas uma forte identificação com Brasil e Argentina. O fenômeno é tão expressivo que, durante a atual Copa do Mundo, cerca de 20% do tráfego de uma cobertura ao vivo do jornal britânico The Guardian sobre uma partida da Argentina veio justamente de Bangladesh.
O fanatismo também se manifesta nas ruas. Em Brahmanbaria, por exemplo, um torcedor brasileiro pintou toda a própria casa de verde e amarelo, decorando a fachada com bandeiras e murais de jogadores da Seleção.
Para muitos bengaleses, apoiar Brasil ou Argentina vai além do futebol. Trata-se de uma conexão cultural e emocional que atravessa gerações.
Pelé e Maradona: independência, identificação e herança colonial

As raízes dessa relação remontam à década de 1970, período em que Bangladesh conquistava sua independência do Paquistão e Pelé encantava o planeta com a camisa brasileira.
Para muitos habitantes do país recém-formado, a trajetória do Rei do Futebol simbolizava superação, esperança e ascensão social.

Se Pelé ajudou a construir a paixão pelo Brasil, Diego Maradona consolidou a idolatria pela Argentina.
A Copa do Mundo de 1986 foi um divisor de águas. Naquele ano, a emissora estatal Bangladesh Television transmitiu o torneio ao vivo para todo o país, permitindo que milhões de pessoas acompanhassem uma Copa pela primeira vez.
O momento mais marcante veio nas quartas de final, quando a Argentina eliminou a Inglaterra com o famoso gol da “Mão de Deus”.
Para muitos bengaleses, a vitória teve um significado que ultrapassava o futebol. Afinal, Bangladesh havia passado quase dois séculos sob domínio britânico.
“Ver Maradona derrotando uma potência colonial teve um impacto enorme. Aquilo mexeu com o coração das pessoas”, afirma Onyx Chowdhury, bengalês-americano que vive em Nova York.
Futebol em tempos de repressão
A Copa de 1986 também serviu como válvula de escape durante um período turbulento da história do país.
Na época, Bangladesh vivia sob regime militar. Ibrahim Chowdhury, hoje jornalista aposentado e morador de Nova Jersey, recorda que participava de movimentos políticos e precisava se esconder da polícia.
Mesmo assim, encontrava tempo para assistir aos jogos.
“Enquanto alguns faziam vigília do lado de fora, nós assistíamos às partidas. Durante a Copa, parecia que todos os conflitos ficavam suspensos por algumas horas”, relembra.
Quatro décadas depois, ele realizou um sonho antigo: participar de uma Copa do Mundo como voluntário, auxiliando torcedores nos estádios do torneio disputado nos Estados Unidos.
Messi, Neymar e uma tradição que segue viva

A paixão criada por Pelé e Maradona atravessou gerações. Hoje, Lionel Messi e Neymar ocupam espaços semelhantes no imaginário popular. Em cidades de Bangladesh, é comum encontrar ruas decoradas com bandeiras argentinas e brasileiras durante períodos de Copa do Mundo.
Segundo Monsur Latif, secretário da Bangladesh American Sports League, muitos torcedores não veem Brasil ou Argentina como seleções estrangeiras.
“Eles falam desses times como se fossem deles. Não importa que nunca tenham visitado esses países. O sentimento é real”, explica.

A rivalidade saudável entre brasileiros e argentinos também está presente na diáspora bengalesa espalhada pelo mundo. Em Nova Jersey, Nova York e Pensilvânia, famílias organizam festas para acompanhar os jogos e transmitir a tradição às novas gerações.
Escolher entre Brasil e Argentina e torcer por uma dessas seleções representa uma forma de manter viva a ligação com Bangladesh. Entre lembranças de infância, histórias familiares e ídolos que atravessaram décadas, o futebol se tornou um elo entre passado e presente.
“Através dessa torcida, existe uma conexão com o lugar de onde viemos”, resume Onyx.
E é justamente por isso que, mesmo sem nunca ter disputado uma Copa do Mundo, Bangladesh continua sendo um dos países que mais vivem intensamente o maior torneio de futebol do planeta.
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