Irã x Nova Zelândia, Copa do Mundo 2026
Futebol Copa do Mundo

Copa do Mundo 2026: entre protestos e apoio, Irã estreia sob tensão nos Estados Unidos

O empate por 2 a 2 entre Irã e Nova Zelândia, na última segunda-feira (15), foi apenas uma parte da história vivida no SoFi Stadium, em Los Angeles. Em uma das estreias mais carregadas de significado político desta Copa do Mundo, a seleção iraniana entrou em campo cercada por debates, manifestações e dificuldades que começaram muito antes do apito inicial.

A partida aconteceu em um cenário particularmente simbólico. Los Angeles abriga a maior comunidade iraniana fora do país e é conhecida por muitos como “Tehrangeles”, em referência à enorme concentração de imigrantes e descendentes que chegaram aos Estados Unidos após a Revolução Islâmica de 1979.

Nesse contexto, o duelo contra os neozelandeses transformou-se em muito mais do que uma partida de futebol. Para parte da diáspora iraniana, apoiar a seleção significava celebrar a cultura e a identidade nacional. Para outros, a equipe representa uma extensão do regime da República Islâmica, tornando impossível separar futebol e política, ainda mais em um contexto de Copa do Mundo.

Bandeira proibida vira símbolo de resistência

Irã, Copa do Mundo 2026. Foto: Richard Heathcote/Getty Images via AFP
Irã, Copa do Mundo. Foto: Richard Heathcote/Getty Images via AFP

 

O principal foco das tensões esteve na bandeira do Leão e Sol, utilizada pelo país antes da revolução de 1979. O símbolo é frequentemente adotado por iranianos que desejam demonstrar orgulho nacional sem se associar ao atual governo.

Horas antes da partida, diversos torcedores foram impedidos de entrar no SoFi Stadium com a bandeira. Agentes de segurança orientavam os presentes a devolver o material aos veículos ou entregá-lo para apreensão. Ainda assim, dezenas de torcedores conseguiram levar o símbolo para dentro das arquibancadas.

Do lado de fora do estádio, grupos de manifestantes protestavam contra o governo iraniano. Alguns distribuíam camisetas com o emblema do Leão e Sol, enquanto outros carregavam imagens de pessoas que teriam sido mortas durante protestos no país nos últimos anos.

A decisão da Fifa de proibir a bandeira gerou revolta entre parte dos torcedores.

Para muitos presentes, a discussão ultrapassava a esfera esportiva. A bandeira tornou-se um símbolo de identidade, memória e oposição política, refletindo a divisão existente entre os próprios iranianos espalhados pelo mundo.

Um estádio dividido, mas unido pelo futebol

Irã, Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Reuters
Irã, Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Reuters

 

O clima dentro do SoFi Stadium ilustrou perfeitamente essa complexidade. Durante a execução do hino nacional iraniano, foi possível ouvir vaias em alguns setores. Em outros, houve aplausos e manifestações de apoio. Houve torcedores que viraram as costas para o campo durante a cerimônia, enquanto outros cantaram normalmente.

Mas quando a bola rolou, o cenário mudou. Cada ataque iraniano foi acompanhado por uma explosão de entusiasmo nas arquibancadas. Os gols marcados por Ramin Rezaeian e Mohammad Mohebbi foram comemorados tanto por torcedores com a bandeira oficial da República Islâmica quanto por aqueles que carregavam versões pré-revolucionárias do símbolo nacional.

Após a partida, o técnico Amir Ghalenoei destacou justamente esse aspecto. Apesar das diferenças políticas e ideológicas, segundo ele, os iranianos presentes apoiaram a equipe durante os 90 minutos, algo que classificou como uma vitória para todos.

Problemas fora de campo aumentam a pressão de uma estreia na Copa do Mundo

Irã, Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Ge.globo via Leonardo Lourenço
Irã, Copa do Mundo. Foto: Reprodução/Ge.globo via Leonardo Lourenço

 

Como se não bastasse o ambiente político, os iranianos também enfrentou obstáculos logísticos durante sua preparação para a Copa do Mundo.

A delegação precisou alterar seu centro de treinamento semanas antes do torneio e passou a utilizar Tijuana, no México, como base de operações. Mesmo com todos os jogos da fase de grupos acontecendo nos Estados Unidos, a equipe foi obrigada a realizar constantes deslocamentos internacionais.

Após o empate contra a Nova Zelândia, a seleção recebeu a determinação de retornar imediatamente ao México, sem o período de recuperação inicialmente planejado.

Ghalenoei não escondeu a irritação e classificou os iranianos como “talvez a equipe mais oprimida de toda a Copa do Mundo”.

O capitão Mehdi Taremi também demonstrou frustração, principalmente em relação às restrições enfrentadas por integrantes da delegação, incluindo dirigentes que tiveram dificuldades para entrar nos Estados Unidos.

Um resultado que retrata o momento do Irã

O empate contra a Nova Zelândia deixou o Grupo G completamente embolado, com todas as seleções somando um ponto após a primeira rodada. Porém, o resultado esportivo parece ter sido apenas um detalhe diante de tudo que cercou a estreia iraniana.

Entre bandeiras proibidas, protestos, questões diplomáticas e desafios logísticos, o Irã viveu uma das noites mais peculiares desta Copa do Mundo.

Dentro de campo, a seleção mostrou força para buscar o empate. Fora dele, carregou consigo todas as contradições de um país que continua dividido — e cuja diáspora segue tentando encontrar uma forma de conciliar identidade nacional, paixão pelo futebol e posicionamentos políticos.

Créditos da foto de capa: Frederic J.Brown/AFP