A França começou a Copa do Mundo cercada por uma sensação que acompanha a seleção há algum tempo: muito talento individual, mas nem sempre um futebol à altura do elenco. Com nomes como Michael Olise, Kylian Mbappé, Ousmane Dembélé, Désiré Doué e outras estrelas espalhadas pelo ataque, existia a impressão de que faltava encaixe para transformar qualidade em um jogo mais fluido. Bastou um jogo para o debate mudar de direção.
A entrada de Michael Olise na equipe abriu uma nova possibilidade para Didier Deschamps. Sem chamar atenção fora de campo e longe do perfil midiático que costuma acompanhar grandes estrelas, o jogador do Bayern apareceu justamente oferecendo algo que a França vinha procurando: conexão entre setores, circulação ofensiva e menos previsibilidade.
Contra Senegal, especialmente no segundo tempo, ficou evidente que algo diferente estava acontecendo. Atuando por dentro, entre as linhas e próximo de Mbappé, Olise deu mobilidade ao setor ofensivo e ajudou a criar uma França menos dependente de aceleração pelos lados ou de jogadas individuais.
Deschamps buscava equilíbrio em meio a tantas estrelas
A trajetória recente da França mostra como encontrar esse equilíbrio virou um desafio constante. Nem sempre o problema esteve na qualidade dos jogadores. Pelo contrário. O elenco francês talvez seja um dos mais profundos do futebol mundial.
Mas ter muitas opções nem sempre significa ter encaixe.
Na Euro e também em torneios anteriores, Deschamps fez diversas alterações ofensivas tentando encontrar a melhor configuração. Houve momentos com Mbappé aberto, depois centralizado, Griezmann como articulador, Dembélé mais agressivo, Thuram entrando para dar profundidade e outras combinações ao longo do caminho.
A lesão no nariz de Mbappé em torneios recentes também alterou planos e forçou mudanças constantes. Em alguns momentos, a França parecia uma equipe tentando descobrir sua identidade durante a própria competição.
Agora o cenário parece diferente.
Olise não entrou para disputar protagonismo. Entrou para organizar o talento ao redor dele.

Olise oferece algo que faltava ao ataque francês
O que chama atenção no jogo de Michael Olise não é necessariamente o volume de finalizações ou números explosivos. O diferencial está em como ele ocupa espaços.
Contra Senegal, a França ganhou um jogador capaz de receber entre linhas, acelerar quando necessário e também desacelerar para dar controle ao ataque. Isso fez Mbappé jogar mais próximo do gol e permitiu que Dembélé tivesse mais liberdade para circular.
Durante muito tempo, o ataque francês foi acusado de funcionar quase exclusivamente em transição rápida. Recuperava a bola, acelerava e apostava na superioridade física dos seus atacantes.
Com Olise, apareceram outras soluções.
A equipe passou a construir mais por dentro, aproximou jogadores e criou situações onde o passe passou a ter tanto peso quanto a velocidade.
Não significa abandonar as características que fizeram da França uma potência. Significa adicionar novas possibilidades.

Dembélé ganha liberdade e o ataque muda de perfil
Um dos jogadores que mais pode se beneficiar dessa nova configuração é justamente Dembélé.
No Paris Saint-Germain, o atacante passou por uma evolução importante nos últimos anos. Deixou de ser apenas um ponta de explosão e passou a participar mais da construção ofensiva, aparecendo em diferentes zonas do campo e até ocupando funções mais centrais.
Na seleção, porém, esse papel nem sempre era simples de reproduzir.
Com Olise assumindo momentos de organização, Dembélé ganha liberdade para atacar espaços e alternar posições sem perder equilíbrio coletivo.
A própria ideia explicada internamente na seleção francesa é que os atacantes permutem constantemente ao longo do jogo. Em vez de posições fixas, o objetivo é criar trocas permanentes entre os homens de frente.
Isso ajuda Mbappé, que continua sendo o principal nome da equipe, mas reduz a dependência de que todas as jogadas passem por ele.

A França parece menos previsível na hora certa da Copa
Ainda é cedo para transformar um jogo em conclusão definitiva. Copa do Mundo normalmente muda rápido e o nível dos adversários tende a crescer.
Mas algumas respostas começam a aparecer.
Thuram e Barcola seguem como opções importantes. Doué também surge como peça capaz de alterar o ritmo da equipe. Só que a entrada de Olise parece ter resolvido uma dúvida que acompanhava Deschamps antes mesmo do torneio começar.
Pela primeira vez em algum tempo, a França parece menos mecânica.
Mais do que criar um novo titular, Michael Olise pode ter mudado a forma como essa seleção ataca.
E para uma equipe que sempre teve talento de sobra, talvez fosse exatamente isso que estava faltando.
Foto: FIFA