A Ferrari introduziu uma solução técnica importante para enfrentar um dos desafios mais sensíveis da Fórmula 1 moderna: a degradação térmica dos pneus. As novas rodas traseiras apresentadas pela equipe durante o GP da Espanha, disputado no Circuito de Barcelona-Catalunha, fizeram parte relevante do pacote de atualizações levado pela escuderia e foram apontadas como responsáveis por melhorar o controle da temperatura dos compostos.
Desenvolvidas em parceria com a fornecedora de rodas BBS, as novas peças apresentam diferenças visíveis em relação ao projeto anterior. A principal alteração está na presença de um anel circunferencial, aparentemente fabricado em fibra de carbono, instalado ao longo da borda externa da face da roda. Ao mesmo tempo, os raios que existiam anteriormente foram removidos.
A mudança não tem apenas uma função estética. Ela altera de forma significativa a maneira como o calor é administrado na região da roda, uma área crucial para o desempenho dos pneus e para a estabilidade do carro durante longos períodos de corrida.
Novo desenho cria canal dedicado para resfriamento
A eliminação dos raios tradicionais permitiu a criação de um volume interno dentro do anel externo. Essa estrutura se estende profundamente para o interior da roda e forma um canal de resfriamento dedicado.
O sistema recebe fluxo de ar por meio de entradas localizadas dentro do tambor de carbono que envolve a roda. Essas entradas são independentes dos dutos de freio convencionais, responsáveis por resfriar os discos e as pinças de freio.

Com essa configuração, a Ferrari consegue direcionar o fluxo de ar para uma área específica da roda, favorecendo a dissipação térmica sem interferir diretamente nos sistemas de refrigeração dos freios.
Mesmo que uma parcela significativa da superfície anteriormente visível tenha desaparecido para dentro da cavidade da roda, a área disponível continua sendo maximizada para manter o máximo possível de calor afastado dos pneus. A estratégia adotada não se limita apenas a reduzir a transferência de calor, mas também a acelerar sua dissipação para o ambiente.
O objetivo principal é controlar de forma mais eficiente a temperatura dos pneus traseiros, reduzindo os efeitos da degradação térmica que pode comprometer o desempenho ao longo dos stints de corrida.
Regulamento de 2026 volta a abrir espaço para inovação
O desenvolvimento das rodas ganha importância adicional porque o regulamento técnico de 2026 voltará a permitir maior liberdade de projeto nessa área. Entre 2022 e 2025, as rodas foram classificadas como componentes padronizados, com especificações definidas pelo regulamento. Isso limitava significativamente a capacidade das equipes de desenvolver soluções próprias.
A partir de 2026, porém, as rodas passarão a integrar a categoria denominada “Open Source Component” (Componente de Código Aberto). Nesse modelo, os projetos desenvolvidos pelas equipes deverão ser enviados à FIA e ficarão integralmente acessíveis aos demais competidores.
Na prática, isso significa que qualquer solução criada por uma equipe poderá ser analisada e eventualmente copiada pelas rivais, reduzindo o sigilo tecnológico, mas incentivando novas abordagens de engenharia.
Apesar da liberdade ampliada, as rodas continuarão sujeitas a restrições específicas estabelecidas pelo regulamento técnico da categoria.
Solução respeita as regras apesar do foco na dissipação de calor
Embora deixem de ser peças padronizadas, as rodas ainda precisam obedecer a diversos requisitos regulamentares. A construção só pode utilizar uma de duas ligas de magnésio aprovadas pela FIA, identificadas como A227 ou A2280. Além disso, as rodas devem respeitar determinadas dimensões geométricas básicas definidas pelas regras técnicas.
Antes de serem padronizadas, as rodas eram uma área extremamente fértil para desenvolvimento, tanto por razões aerodinâmicas quanto para o gerenciamento dos pneus, como pode ser visto nas ilustrações antigas abaixo:


Existe ainda uma restrição particularmente relevante para projetos voltados ao controle térmico. O artigo C10.7.2 (I) do regulamento estabelece que não são permitidos elementos como nervuras, aletas, geradores de turbulência, tratamentos de superfície ou revestimentos que influenciem as características de transferência de calor da roda.
À primeira vista, o novo conceito da Ferrari poderia levantar questionamentos justamente por seu evidente objetivo de melhorar a dissipação térmica. No entanto, segundo a análise técnica apresentada, a solução adotada pela equipe não infringe nenhuma das limitações impostas pelo regulamento.
O desenho respeita as exigências estabelecidas pela FIA e opera dentro das margens permitidas pelas regras atuais. Ainda assim, seu propósito é claramente otimizar o gerenciamento de calor na região da roda e dos pneus, um aspecto que pode trazer benefícios importantes em desempenho e consistência ao longo das corridas.
A atualização demonstra como as equipes continuam encontrando maneiras de explorar áreas permitidas pelo regulamento para ganhar eficiência. No caso da Ferrari, a aposta foi em uma abordagem focada no controle térmico dos pneus traseiros, utilizando uma solução estrutural que melhora a circulação de ar e acelera a dissipação de calor sem violar as restrições técnicas atualmente em vigor.
Foto: (Scuderia Ferrari)