A eliminação do Uruguai ainda na fase de grupos da Copa do Mundo marcou o fim de uma das passagens mais aguardadas e, ao mesmo tempo, mais decepcionantes do futebol sul-americano nos últimos anos. Marcelo Bielsa chegou ao comando da Celeste com a missão de liderar uma renovação geracional e recolocar a seleção entre as principais forças do futebol mundial. Durante algum tempo, parecia que esse objetivo seria alcançado. Porém, uma queda de rendimento constante culminou na eliminação precoce e na despedida do treinador argentino.
Após a derrota por 1 a 0 para a Espanha, resultado que decretou a segunda eliminação consecutiva do Uruguai ainda na fase de grupos de uma Copa do Mundo, Bielsa fez uma autocrítica incomum até para alguém conhecido por sua sinceridade.
“Sou o responsável por essa decepção”, afirmou o treinador. Mais forte do que isso foi sua avaliação sobre o próprio trabalho: segundo ele, sua passagem “não deixou nada” para o futebol uruguaio.
As palavras resumem o sentimento de um projeto que começou cercado de expectativa, mas terminou sem entregar os resultados esperados.
Um início promissor que perdeu força ao longo do caminho

Quando assumiu a seleção após a Copa do Mundo do Catar, Bielsa encontrou um Uruguai em processo de renovação. A geração liderada durante anos por Luis Suárez, Edinson Cavani e Diego Godín estava chegando ao fim, enquanto nomes como Federico Valverde, Darwin Núñez, Manuel Ugarte e Rodrigo Bentancur surgiam como pilares para o futuro.
Nas Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa de 2026, o Uruguai venceu a Argentina fora de casa, derrotou o Brasil e terminou as seis primeiras rodadas com quase o dobro de gols marcados em relação a qualquer outro adversário.
A intensidade característica de Bielsa parecia encaixar perfeitamente naquele elenco jovem.
O problema é que essa evolução não se sustentou.
A partir da Copa América de 2024, o desempenho começou a cair de maneira significativa. Depois de um início empolgante, o time perdeu confiança, reduziu sua capacidade ofensiva e passou a apresentar dificuldades para controlar as partidas.
Os sinais ficaram ainda mais evidentes nos meses seguintes.
A derrota por 5 a 1 para os Estados Unidos mostrou uma equipe completamente desorganizada. O empate contra a Inglaterra, em Wembley, chamou atenção por outro motivo: o Uruguai praticamente não passou do meio-campo durante boa parte da partida, algo praticamente impensável para um time comandado por Marcelo Bielsa.
Na Copa do Mundo, os problemas se repetiram.
Empates contra Arábia Saudita e Cabo Verde obrigaram a seleção a vencer a Espanha na última rodada. A derrota confirmou a eliminação e colocou fim ao ciclo do treinador.
O impacto inicial foi extremamente positivo.
Mudanças táticas não resolveram os problemas
Ao longo da preparação para o Mundial, Bielsa tentou modificar algumas características da equipe.
Em vez de realizar amistosos, preferiu investir em um longo período de treinamentos para implementar um novo sistema tático.
A principal novidade era utilizar Federico Valverde aberto pelo lado direito, além da presença de dois atacantes.
A experiência, porém, fracassou rapidamente.
O esquema precisou ser abandonado ainda no intervalo da partida contra a Arábia Saudita. Com a volta do tradicional 4-3-3, o Uruguai melhorou seu desempenho e voltou a criar oportunidades.
O mesmo aconteceu diante de Cabo Verde.
Mesmo sem vencer, a equipe conseguiu produzir ofensivamente e esteve próxima da classificação. Erros individuais em momentos decisivos impediram que o Uruguai avançasse com uma rodada de antecedência.
Isso mostra que, embora as questões táticas tenham influenciado, talvez elas não expliquem completamente o fracasso da equipe.
O desgaste no relacionamento com o elenco pesou mais do que a parte técnica

Talvez o principal problema da passagem de Bielsa tenha acontecido longe das quatro linhas.
Nos últimos anos, diversos episódios indicaram um ambiente interno desgastado.
Luis Suárez foi o primeiro grande nome a tornar pública sua insatisfação.
Ao anunciar sua aposentadoria da seleção uruguaia, criticou diretamente a forma como Bielsa tratava os jogadores, apontando falta de proximidade, pouca comunicação e um ambiente excessivamente tenso dentro da concentração.
O fato de nenhum atleta do elenco desmentir as declarações do maior artilheiro da história do Uruguai acabou fortalecendo ainda mais essa percepção.
Outro episódio envolvendo Agustín Canobbio reforçou essa imagem.
Segundo o atacante, o relacionamento começou a se deteriorar quando Bielsa chegou a criticá-lo pela maneira como estava sentado, situação considerada pelo próprio jogador como o ponto de ruptura entre ambos.
O treinador também reconheceu possuir dificuldades de relacionamento.
Após a derrota para os Estados Unidos, definiu a si mesmo como um “perfeccionista tóxico”, admitindo que sua busca constante pela excelência pode dificultar sua convivência com outras pessoas.
Essa característica sempre fez parte da personalidade de Bielsa.
Durante décadas, ela foi vista como parte do preço necessário para extrair o máximo rendimento de suas equipes.
Hoje, porém, surge o questionamento se esse perfil ainda funciona da mesma maneira em um futebol onde os jogadores valorizam cada vez mais a comunicação, o diálogo e a construção de relações de confiança com seus treinadores
Uma despedida que resume toda a passagem
A eliminação diante da Espanha trouxe imagens que simbolizaram o fim do ciclo.
Fernando Muslera, um dos maiores ídolos da história da seleção uruguaia, deixou o campo no intervalo após cometer uma falha que originou o gol espanhol. O goleiro, que havia retornado da aposentadoria internacional a pedido do próprio Bielsa, encerrou sua provável última partida pela seleção de forma amarga.
Já o treinador mostrou toda sua frustração ao perder a paciência enquanto aguardava uma entrevista após o apito final, chegando a gritar para que o procedimento fosse iniciado rapidamente.
Nem mesmo detalhes fora de campo deixaram de reforçar sua personalidade peculiar. Bielsa criticou as pausas para hidratação da Copa do Mundo, dizendo que elas “não acrescentam absolutamente nada” ao futebol, e recusou participar da tradicional sessão oficial de fotos do torneio, justificando de forma direta: “Eu não sou modelo.”
Esses episódios resumem bem um treinador que sempre fez tudo à sua maneira.
Apesar do fracasso no Mundial, Marcelo Bielsa continuará sendo uma das figuras mais influentes da história recente do futebol. Seu legado tático permanece enorme e inspira treinadores em diferentes partes do mundo. No Uruguai, porém, a história terminou de forma muito diferente do que se imaginava quando ele assumiu o comando da seleção. Um projeto que parecia capaz de recolocar a Celeste entre as maiores potências terminou com uma eliminação precoce, um ambiente desgastado e a sensação de que o potencial daquele grupo jamais foi plenamente alcançado.
(Foto de capa: Paul Childs/Reuters)