Poucos jogadores conseguem mudar uma partida poucos segundos depois de entrar em campo. Ainda mais raro é fazer isso repetidamente em jogos decisivos de Copa do Mundo. Mikel Merino está conseguindo exatamente isso. O meio-campista da Espanha, que passou a atuar também como centroavante em determinados momentos da temporada, tornou-se uma das principais armas de Luis de la Fuente e chega à semifinal diante da França com o status de melhor “super reserva” do Mundial de 2026.
A campanha espanhola até aqui tem sido marcada pelo futebol coletivo, pelo controle da posse de bola e pela qualidade técnica de seus titulares. Entretanto, nos momentos em que o roteiro foge do planejado, Merino aparece para resolver. Foi assim nas oitavas de final contra Portugal e voltou a acontecer nas quartas diante da Bélgica, quando precisou de apenas 115 segundos em campo para marcar o gol da classificação.
O mais impressionante é que esses lances decisivos não representam uma coincidência. Os números mostram que Merino construiu uma reputação rara no futebol: a de um jogador capaz de alterar o destino das partidas sempre que é chamado.
Um especialista em decidir jogos nos minutos finais

A atual Copa do Mundo apenas reforça uma característica que Merino já havia apresentado em outras competições.
Nas oitavas de final, foi dele o gol marcado aos 46 minutos do segundo tempo que eliminou Portugal. Poucos dias depois, nas quartas de final, entrou aos 41 minutos da etapa final contra a Bélgica e, menos de dois minutos depois, balançou novamente as redes para colocar a Espanha entre as quatro melhores seleções do torneio.
Com esses gols, Merino entrou para a história.
Ele tornou-se o primeiro jogador a marcar o gol da vitória em duas partidas diferentes de mata-mata de uma mesma Copa do Mundo saindo do banco de reservas. Também passou a ser o primeiro espanhol a marcar dois gols da vitória após os 80 minutos em uma edição do Mundial.
Além da importância dos gols, a eficiência chama atenção.
Merino precisou de apenas quatro finalizações para marcar duas vezes na Copa, alcançando um índice de conversão de 50%. Dentro da área adversária, sua participação também impressiona: ele marca um gol a cada 3,5 toques na bola, uma das melhores médias de toda a competição.
Sua produção por tempo em campo confirma esse impacto.
Com média de 1,32 gol a cada 90 minutos, Merino aparece entre os cinco jogadores mais eficientes da Copa. Apenas Kylian Mbappé, Lionel Messi, Erling Haaland e Johan Manzambi possuem números superiores.
Estar ao lado desses nomes mostra que sua influência vai muito além do papel de reserva.
A transformação promovida por Arteta mudou sua carreira

Embora hoje seja visto como um atacante decisivo, Merino chegou ao Arsenal com uma função completamente diferente.
Mikel Arteta contratou o espanhol após uma temporada brilhante pela Real Sociedad atuando como meio-campista. Em 2023/24, ele liderou todas as cinco principais ligas da Europa em duelos vencidos, com 326, superando Bruno Guimarães.
No jogo aéreo, os números eram igualmente impressionantes.
Merino venceu 278 disputas pelo alto naquela temporada, liderando novamente o ranking entre todos os meio-campistas das cinco grandes ligas europeias.
Ou seja, o Arsenal contratou um jogador para recuperar bolas, vencer disputas físicas e controlar o meio-campo.
Tudo mudou por necessidade.
Durante a temporada, uma sequência de lesões deixou o Arsenal com poucas opções ofensivas. Diante desse cenário, Arteta decidiu improvisar Merino como centroavante na partida contra o Leicester City.
A aposta funcionou imediatamente.
Merino marcou dois gols naquela vitória e nunca mais deixou de ser utilizado como alternativa ofensiva.
Na UEFA Champions League, atuou sete vezes como atacante e marcou quatro gols, incluindo uma bela finalização de primeira na vitória por 3 a 0 sobre o Real Madrid.
Essa versatilidade passou a ser aproveitada também por Luis de la Fuente.
Quando a Espanha precisa aumentar sua presença na área ou buscar um gol decisivo, Merino deixa de atuar como volante ou meio-campista e transforma-se praticamente em um camisa 9.
O impacto vai além dos gols

Os números de Merino pelo Arsenal ajudam a entender por que essa mudança deu tão certo.
Desde sua estreia pelo clube inglês, ele marcou 15 gols em todas as competições.
Quatro deles vieram saindo do banco de reservas.
Mais importante do que a quantidade é o contexto.
Dos 11 gols marcados na Premier League, dez mudaram diretamente o estado da partida. Foram gols que transformaram derrotas em empates, empates em vitórias ou ampliaram vantagens mínimas em momentos decisivos.
Isso mostra que Merino não costuma marcar quando os jogos já estão resolvidos.
Ele aparece justamente quando sua equipe mais precisa.
Essa característica também já havia sido vista pela seleção espanhola antes mesmo da Copa.
Na Eurocopa de 2024, marcou de cabeça aos 119 minutos contra a Alemanha, classificando a Espanha para a semifinal antes da conquista do título.
Na Liga das Nações de 2025, saiu do banco para marcar nos acréscimos e garantir um empate por 2 a 2 diante da Holanda.
Somando Eurocopas e Copas do Mundo, Merino já marcou três gols como reserva, igualando Álvaro Morata como o maior artilheiro espanhol saindo do banco em grandes torneios.
Não por acaso, Luis de la Fuente faz questão de destacar a confiança que possui no jogador.
Segundo o treinador, Merino pode atuar em qualquer seleção ou clube do mundo e está perfeitamente adaptado ao modelo de jogo da Espanha. Para o comandante, sempre que o time precisa dele, a resposta aparece.
França terá de encontrar uma forma de neutralizar a principal arma do banco espanhol

A semifinal contra a França promete colocar frente a frente duas das seleções mais completas da Copa do Mundo.
De um lado, a França conta com jogadores como Kylian Mbappé e um elenco extremamente profundo.
Do outro, a Espanha possui uma equipe consolidada, que mantém seu estilo ofensivo independentemente do adversário.
Mas existe um diferencial que pode desequilibrar um confronto equilibrado.
Enquanto muitas seleções perdem qualidade ao recorrer ao banco de reservas, a Espanha ganha uma arma diferente quando Merino entra em campo.
Ele oferece presença física, excelente jogo aéreo, capacidade para vencer disputas e, principalmente, um instinto raro para decidir partidas nos momentos mais importantes.
Esse conjunto de características faz com que Luis de la Fuente tenha uma solução para cenários em que o futebol coletivo não esteja funcionando.
A Espanha nem sempre precisa dominar completamente seus adversários para vencer.
Basta que o treinador encontre o momento certo para colocar Merino em campo.
Até agora, essa estratégia tem funcionado quase perfeitamente.
Se repetir o impacto mostrado contra Portugal e Bélgica, o meio-campista transformado em atacante poderá ser novamente o responsável por escrever um dos capítulos mais importantes da campanha espanhola.
E, se isso acontecer mais uma vez diante da França, sua condição de melhor “super reserva” da Copa do Mundo deixará de ser apenas uma percepção para se tornar uma das grandes histórias do torneio.
(Foto de capa: FIFA)



