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Fury x Joshua contra Usyk x Wilder: o possível duelo final entre a velha guarda do boxe e o projeto de Dana White

Durante anos, o peso-pesado foi um território dividido entre grandes promotoras, cinturões fragmentados e estrelas que, muitas vezes, precisavam atravessar uma verdadeira selva política para chegar às lutas que o público queria ver. Agora, justamente quando uma geração começa a caminhar para o fim, o boxe pode estar diante de uma mudança de poder.

De um lado, Tyson Fury x Anthony Joshua, confronto que representa talvez a maior luta que restou da velha geração britânica e que ainda pode ser incorporado ao sistema tradicional dos cinturões. Do outro, Oleksandr Usyk x Deontay Wilder, duelo que ganhou força como a possível despedida do ucraniano e que pode ser promovido pela Zuffa Boxing, projeto comandado por Dana White.

Separadamente, são duas lutas gigantes. Juntas, podem representar algo ainda maior: a tentativa de defesa das promotoras tradicionais contra a primeira grande ofensiva da Zuffa Boxing no mercado dos pesos-pesados.

Fury x Joshua ainda pertence ao velho boxe

A possível luta entre Fury e Joshua carrega consigo quase tudo aquilo que definiu o boxe dos últimos 15 anos. Dois britânicos que chegaram ao topo em momentos diferentes, construíram enormes carreiras comerciais, conquistaram títulos mundiais e passaram anos sendo associados ao confronto que nunca aconteceu.

Agora, curiosamente, a própria estrutura dos cinturões pode ajudar a produzir o combate. Mauricio Sulaimán, presidente do WBC, afirmou que a entidade aprovaria Fury x Joshua como eliminatória final pelo título caso o confronto seja concretizado. Fury ocupa atualmente a primeira posição do ranking do organismo e é ex-campeão mundial. Joshua aparece em quinto, depois de ter conquistado os cinturões da WBA, IBF e WBO em sua carreira.

A lógica do ranking também favorece a decisão. Lawrence Okolie, segundo colocado, enfrenta questões relacionadas a um teste antidoping positivo, enquanto Moses Itauma e Filip Hrgovic, terceiro e quarto, respectivamente, disputarão o título vago da IBF em 29 de agosto. O vencedor deverá deixar o ranking do WBC, enquanto o derrotado provavelmente cairá posições.

De repente, Fury x Joshua deixa de ser apenas uma luta comercial e passa a ter uma justificativa esportiva dentro da estrutura tradicional do boxe. O próprio Sulaimán reconheceu a dimensão do confronto e o vínculo histórico de Fury com o WBC, destacando também a relação antiga da entidade com Joshua.

É o boxe tradicional fazendo aquilo que sabe fazer: encontrar uma brecha regulatória para transformar um espetáculo em uma luta oficialmente relevante.

O problema é que o campeão do WBC já não é Usyk O ucraniano abriu mão dos seus cinturões e deixou o topo da divisão. Agit Kabayel passou a ocupar o posto de campeão do WBC e está próximo de anunciar sua primeira defesa.

Isso significa que o peso-pesado entrou em uma espécie de processo de reconstrução. A geração que dominou a divisão durante anos está se desfazendo. Usyk abandonou os títulos. Fury está próximo do fim da carreira. Joshua também está em uma fase em que cada grande luta possui peso desproporcional para definir seu legado.

Ao mesmo tempo, nomes como Itauma, Hrgovic e Kabayel representam uma nova fase. E é justamente nesse intervalo entre duas gerações que a Zuffa Boxing aparece.

Dana White percebeu a oportunidade

A grande sacada de Dana White pode estar justamente em não tentar competir com o boxe tradicional em sua lógica mais antiga. Em vez de entrar imediatamente na guerra pelos cinturões, a Zuffa pode entrar pela porta mais valiosa: as grandes lutas que o público quer assistir.

Usyk é o exemplo perfeito. O ucraniano já conquistou praticamente tudo o que poderia conquistar. Foi campeão mundial dos cruzadores, tornou-se campeão indiscutível dos pesos-pesados e venceu duas vezes Tyson Fury. Depois de abrir mão dos cinturões, deixou claro que pretende fazer apenas mais uma luta antes de encerrar a carreira.

E o adversário escolhido tem uma lógica comercial quase perfeita: Deontay Wilder. Wilder não representa necessariamente o melhor desafio esportivo disponível para Usyk. Mas representa algo diferente: um perigo absoluto em uma única mão.

O estadunidense continua sendo um dos maiores punchers de sua geração e carrega uma marca que poucos pesos-pesados possuem: mesmo quando sua carreira entra em declínio, ele permanece capaz de transformar qualquer luta em um evento.

Usyk x Wilder, portanto, seria vendido menos como uma disputa de supremacia entre os melhores do mundo e mais como a última dança de duas estrelas da geração anterior. E isso é exatamente o tipo de evento que Dana White sabe transformar em produto.

No entanto, é importante distinguir interesse de acordo. A luta entre Usyk e Wilder não está oficialmente fechada. A equipe de Usyk confirmou que existem conversas com a Zuffa Boxing, enquanto Dana White, ao ser questionado sobre a possibilidade de promover a última luta do ucraniano, respondeu que “tudo é possível”.

O próprio Usyk admitiu que a Zuffa pode ser a promotora de sua despedida. A expectativa é que o combate aconteça nos Estados Unidos, possivelmente em Nova York, no fim de 2026 ou início de 2027.

O último capítulo antes de uma nova era

No final, Fury x Joshua provavelmente seria a luta que o boxe tradicional passou anos tentando produzir, enquanto Usyk x Wilder pode ser a luta que o novo boxe precisa para anunciar sua chegada.

Uma nasce da história dos cinturões e das rivalidades acumuladas ao longo de uma década. A outra nasce da liberdade de dois veteranos escolherem como querem terminar suas carreiras.

E talvez seja justamente por isso que ambas sejam tão importantes. Porque o peso-pesado não está apenas procurando seus próximos campeões. Está procurando seu próximo modelo de negócio.

A geração de Fury, Joshua, Wilder e Usyk está chegando ao fim. Kabayel, Itauma, Hrgovic e os demais terão a missão de preencher o vazio esportivo.

Mas, enquanto os novos campeões constroem seus legados, existe uma batalha acontecendo nos bastidores para decidir quem terá o poder de transformar esses legados em grandes eventos.

Fury x Joshua pode ser o último grande espetáculo produzido sob a lógica que comandou o boxe durante décadas. Usyk x Wilder pode ser o primeiro grande espetáculo de uma lógica diferente.

E, se Dana White conseguir fazer da despedida de Usyk um evento comparável às maiores noites do esporte, talvez a luta mais importante dessa história nem seja entre dois pesos-pesados. Talvez seja entre dois modelos de boxe.