A Red Bull chegou à temporada de 2026 com Max Verstappen como um dos grandes favoritos ao título. Afinal, o holandês vinha de uma temporada de 2025 em que brigou pelo campeonato até a última corrida e já havia demonstrado inúmeras vezes capacidade de compensar deficiências do carro.
Mas a primeira metade de 2026 contou uma história bem diferente. Depois de 11 etapas, Verstappen aparece apenas em sexto no campeonato, com 109 pontos, enquanto Isack Hadjar ocupa a oitava posição, com 68. A Red Bull, por sua vez, não conseguiu acompanhar o ritmo da Mercedes e viu Ferrari e McLaren crescerem durante o campeonato.
Isso significa que a Red Bull está fora da disputa? Ainda não. Mas, neste momento, seria mais correto falar em uma recuperação improvável do que em uma disputa equilibrada pelo título.
O problema começou muito cedo
A nova geração de carros colocou todas as equipes diante de um desafio enorme, mas a Red Bull parece ter tido dificuldades particularmente grandes para encontrar uma janela competitiva para o RB22. Nas primeiras corridas, Verstappen ainda conseguiu arrancar resultados importantes do carro. O melhor exemplo é a Austrália: depois de um acidente na classificação que o mandou para o fundo do grid, o tetracampeão conseguiu recuperar posições e terminar em sexto.
Mas o episódio também revelou um dos problemas que acompanhariam a equipe durante a primeira metade do campeonato: o carro não era fácil de extrair desempenho de maneira consistente. E, quando o carro não está naturalmente na frente, Verstappen precisa fazer aquilo que já fez tantas vezes: encontrar tempo onde aparentemente não existe. Só que 2026 adicionou uma dificuldade extra.
Verstappen continua sendo Verstappen, mas isso não é suficiente
O holandês continua entregando performances que mostram por que é considerado um dos melhores pilotos do grid. A Red Bull conseguiu alguns resultados que, olhando apenas para a posição final, parecem melhores do que o ritmo real do carro indicava.
O GP da Hungria é um ótimo exemplo. Verstappen largou apenas em sexto depois de uma classificação particularmente complicada. O próprio piloto admitiu que estava tendo dificuldades para encontrar um bom equilíbrio no RB22 e chegou a rodar durante sua última tentativa no Q3. Mesmo assim, no domingo ele conseguiu transformar aquele sexto lugar em segundo.
A Red Bull apostou em uma estratégia agressiva, que o chefe da equipe, Laurent Mekies, classificou como uma das razões fundamentais para o resultado. Verstappen ultrapassou Hamilton logo depois de seu pit stop e acabou segurando a segunda posição até a bandeirada. É exatamente esse tipo de resultado que mantém viva a esperança da Red Bull. Mas também é o que torna a situação curiosa.
Se Verstappen precisa executar uma corrida quase perfeita para transformar um carro de sexto lugar em segundo, a equipe ainda está muito longe do nível necessário para dominar um campeonato.
O RB22 tem velocidade, mas não tem consistência
Essa talvez seja a característica que melhor define a primeira metade da temporada da Red Bull. Em determinados circuitos, o carro aparece. Em outros, desaparece. Spa foi um dos melhores exemplos. Verstappen conseguiu se classificar em segundo, com Hadjar em terceiro, mostrando que a Red Bull tinha velocidade suficiente para colocar os dois carros nas primeiras posições.
Na Hungria, porém, a situação foi diferente. A Red Bull encontrou dificuldades para manter o ritmo das equipes da frente e Verstappen terminou a classificação em sexto. Esse comportamento irregular é especialmente problemático em um campeonato longo.
Mercedes pode não ser dominante em todas as pistas. Ferrari pode ter finais de semana ruins. McLaren também pode perder desempenho dependendo das características do circuito. Mas, quando uma equipe pretende recuperar uma desvantagem tão grande quanto a da Red Bull, ela precisa transformar finais de semana medianos em vitórias ou pódios.
Hadjar é uma das poucas notícias realmente positivas
Se Verstappen é a grande esperança para uma recuperação no campeonato, Isack Hadjar é uma das grandes surpresas positivas da Red Bull em 2026. O francês chegou à equipe principal depois de uma temporada na Racing Bulls e tinha diante de si uma tarefa complicada: sobreviver ao segundo carro da Red Bull ao lado de Verstappen.
Historicamente, esse é um dos lugares mais difíceis da Fórmula 1. Mas Hadjar não apenas sobreviveu. Ele conseguiu ser competitivo. O piloto conquistou um terceiro lugar no grid na Austrália e também terminou a classificação em terceiro em Spa, mostrando que consegue extrair desempenho do RB22 em determinados finais de semana.
Na Bélgica, inclusive, Verstappen contou com o auxílio de Hadjar na estratégia de vácuo durante a classificação, mostrando que o francês já está funcionando como uma peça importante dentro da operação da equipe. E os números da primeira metade reforçam essa evolução. Hadjar tem 68 pontos, contra 109 de Verstappen, e sofreu dois abandonos, na Austrália e em Miami, que impediram uma pontuação ainda maior. Fora essas quebras, ele foi relativamente consistente na zona de pontuação. Para a Red Bull, isso é extremamente importante.
Finalmente, o segundo carro deixou de ser um problema
Durante anos, a Red Bull sofreu para encontrar um piloto capaz de acompanhar Verstappen. Em 2026, a situação parece diferente. Hadjar não está no nível de Verstappen, e seria injusto exigir isso de um piloto em sua segunda temporada, mas está entregando algo que a Red Bull precisava desesperadamente: um segundo carro capaz de participar da disputa estratégica.
Isso ficou particularmente evidente em Spa, quando os dois carros conseguiram trabalhar juntos na classificação. É uma mudança pequena olhando para a tabela, mas enorme para a equipe.
Quando uma Red Bull tem dois carros competitivos, pode dividir estratégias, criar pressão sobre rivais e aproveitar oportunidades de Safety Car ou VSC. Quando apenas Verstappen está na frente, o holandês precisa fazer tudo sozinho.
Mas 41 pontos para Verstappen? Não. São 109 e a diferença é enorme
O principal problema da Red Bull é matemático. Verstappen tem 109 pontos depois de 11 etapas. Kimi Antonelli lidera o campeonato com uma vantagem muito maior, enquanto Lewis Hamilton é segundo e George Russell também está à frente do holandês.
Isso significa que Verstappen não precisa simplesmente começar a vencer. Ele precisa começar a vencer enquanto os pilotos da Mercedes, Ferrari e McLaren deixam de pontuar. Essa é uma combinação muito mais difícil.
Uma sequência de vitórias pode mudar rapidamente a tabela, especialmente com os pontos extras disponíveis nas Sprint races. Mas a Red Bull não tem margem para desperdiçar oportunidades. Um segundo lugar, como o conquistado na Hungria, é excelente para a situação atual da equipe. Para uma verdadeira recuperação pelo título, porém, já não é suficiente.
O fator que pode mudar tudo: desenvolvimento
É aqui que a história ainda pode ficar interessante. 2026 é o primeiro ano do novo regulamento e, consequentemente, as equipes ainda estão aprendendo a explorar os carros. A primeira metade mostrou que uma atualização pode alterar completamente a ordem de forças.
McLaren conseguiu transformar um início complicado em uma vitória na Hungria. Ferrari também reduziu parte da vantagem da Mercedes durante o campeonato. A Red Bull precisa fazer exatamente isso.
O problema é que não basta produzir uma atualização que dê algumas décimas. Ela precisa encontrar uma solução conceitual que torne o RB22 mais previsível e competitivo em uma variedade maior de circuitos. Se isso acontecer durante a segunda metade, Verstappen é provavelmente o piloto do grid mais capaz de transformar uma melhora de carro em uma sequência de resultados extraordinários.
Então, Verstappen ainda pode ser campeão?
Matematicamente, sim. Esportivamente, a situação é muito mais complicada. A primeira metade não eliminou a Red Bull do campeonato, mas deixou a equipe em uma posição na qual ela precisa de uma reação muito acima da média. Verstappen mostrou que continua capaz de tirar resultados extraordinários de um carro imperfeito. Hadjar mostrou que a Red Bull finalmente encontrou um segundo piloto capaz de contribuir de maneira consistente. E a equipe ainda tem metade da temporada pela frente para encontrar desempenho.
Mas existe uma diferença entre ter chance e ser candidato. Hoje, a Red Bull tem chance. Mas não é candidata favorita. Para virar candidata novamente, precisa resolver o problema que marcou praticamente toda a primeira metade: fazer com que o RB22 seja rápido não apenas em determinados circuitos ou em determinadas condições, mas rápido de forma previsível.
Se isso acontecer, a história muda completamente. Porque, se a Red Bull finalmente entregar a Verstappen um carro capaz de lutar regularmente pela vitória, seria um erro enorme descartar o tetracampeão.
A Red Bull não está fora. Mas, para voltar à disputa, precisa produzir na segunda metade de 2026 algo que ainda não conseguiu fazer na primeira: uma evolução capaz de transformar performances isoladas em velocidade constante.
Foto: (Photo by Peter Fox/Getty Images)



