A chegada de Andoni Iraola ao Liverpool representa uma mudança importante na identidade da equipe. Depois de uma temporada abaixo das expectativas com Arne Slot, os Reds iniciam um novo ciclo com um treinador conhecido pela intensidade, pela pressão alta e pela velocidade de suas equipes.
O desafio, porém, vai muito além de implementar um novo estilo de jogo. Iraola terá que reconstruir uma equipe que perdeu nomes importantes, adaptar suas principais contratações e encontrar soluções para um elenco que ainda apresenta algumas lacunas.
A situação fica ainda mais complicada porque o Liverpool não terá apenas a Premier League pela frente. A equipe também disputará a UEFA Champions League e precisará administrar um calendário muito mais pesado do que aquele ao qual Iraola estava acostumado no Bournemouth.
Para entender o que pode acontecer com os Reds em 2026/27, existem cinco pontos fundamentais que precisam ser observados.
O estilo intenso de Iraola funcionará em Anfield?

A primeira grande questão é saber se o futebol que fez Iraola se destacar no Bournemouth poderá funcionar da mesma maneira em um clube com as exigências do Liverpool.
O espanhol gosta de equipes agressivas, que pressionam alto, recuperam a bola rapidamente e procuram avançar pelo campo com velocidade. É um estilo que combina com uma tendência cada vez mais presente na Premier League.
Os números do Bournemouth ajudam a explicar por que o Liverpool apostou nele. Durante a passagem de Iraola pelo clube, os Cherries registraram 128 finalizações em ataques rápidos na Premier League. Apenas o próprio Liverpool teve mais no período, com 155.
O Bournemouth também foi a equipe que avançou mais rapidamente entre os clubes da Premier League durante a passagem do treinador, com uma velocidade média de progressão de 1,95 metro por segundo.
Isso cria uma conexão interessante com o Liverpool. Os Reds já possuem uma cultura de futebol vertical e agressivo, portanto Iraola não precisará necessariamente transformar completamente a identidade do clube.
A questão será conseguir fazer isso em um nível muito maior.
No Bournemouth, Iraola tinha menos pressão e enfrentava um calendário mais leve. Em Liverpool, qualquer sequência negativa rapidamente será questionada. Além disso, os adversários terão mais capacidade para estudar e explorar seu modelo.
A ideia é promissora, mas a adaptação ao nível de exigência de Anfield será um dos grandes testes da temporada.
Wirtz e Isak precisam mostrar por que custaram tanto

O Liverpool investiu cerca de £225 milhões em duas estrelas na última janela: Florian Wirtz e Alexander Isak. Com bônus, o valor pode chegar a aproximadamente £245 milhões.
A primeira temporada dos dois, ficou abaixo do que era esperado.
Wirtz terminou com sete gols e oito assistências em 49 partidas. Isak teve ainda menos impacto, com quatro gols e uma assistência em apenas 22 jogos.
O problema é que os números anteriores dos dois mostravam que eles eram capazes de produzir muito mais.
Antes de chegar ao Liverpool, Wirtz havia participado diretamente de 30 gols em 45 partidas pelo Bayer Leverkusen, com 16 gols e 14 assistências.
Isak, por sua vez, marcou 27 gols e deu seis assistências em 42 jogos pelo Newcastle.
Isso significa que os dois somaram 63 participações em gols antes da transferência, contra apenas 20 na primeira temporada pelo Liverpool.
A diferença é enorme.
A saída de Mohamed Salah aumenta ainda mais a responsabilidade sobre os dois. O egípcio deixou um espaço gigantesco na produção ofensiva e, a longo prazo, a ideia parece ser justamente fazer Wirtz assumir parte da criatividade e Isak ocupar o espaço deixado pelos gols de Salah.
A pré temporada trouxe sinais positivos. Wirtz marcou contra Leeds e Monaco, enquanto Isak também balançou as redes diante do Monaco.
Se os dois conseguirem se aproximar dos níveis apresentados antes da chegada ao Liverpool, o ataque dos Reds pode ganhar uma força completamente diferente.
As bolas paradas continuam sendo um problema

Outro ponto que Iraola terá que corrigir é a defesa em bolas paradas.
Na temporada passada, o Liverpool sofreu 11 gols em escanteios na Premier League. Apenas West Ham, com 15, e Leeds United, com 12, tiveram números piores.
Quando são consideradas outras situações de bola parada sem pênalti, como cobranças de falta e laterais, o problema fica ainda maior. O Liverpool sofreu 20 gols dessa maneira, empatando com Crystal Palace e Bournemouth.
O detalhe curioso é que o próprio Bournemouth de Iraola apresentou o mesmo número.
Isso significa que o novo treinador terá que corrigir uma característica que também esteve presente em sua antiga equipe.
O Liverpool melhorou ofensivamente nas bolas paradas durante a segunda metade da última temporada. Até janeiro de 2026, os Reds tinham marcado apenas três gols em situações desse tipo. Depois, fizeram 15.
Defensivamente o trabalho ainda precisa evoluir.
Iraola levou parte de sua comissão técnica para Liverpool e já definiu responsabilidades. Tommy Elphick será responsável pelas bolas paradas defensivas, enquanto Shaun Cooper cuidará das ofensivas, trabalhando junto ao analista Lewis Mahoney.
Se o Liverpool conseguir melhorar nesse aspecto, poderá eliminar uma das principais fragilidades que apresentou anteriormente.
O maior desafio será conciliar Premier League e Champions League

Talvez essa seja a maior incógnita envolvendo Iraola.
O treinador possui pouca experiência no futebol europeu. Sua única passagem por uma competição continental aconteceu com o AEK Larnaca, na Europa League de 2018/19. Foram seis partidas na fase de grupos antes de sua demissão em janeiro.
Agora, ele terá que comandar o Liverpool na UEFA Champions League.
A diferença no número de jogos é enorme.
Nas duas temporadas pelo Rayo Vallecano e nas três pelo Bournemouth, nenhuma equipe de Iraola disputou mais de 45 partidas em uma temporada.
O Liverpool, por outro lado, disputou menos de 50 jogos apenas duas vezes nos últimos 22 anos. Nesta temporada, a equipe já tem pelo menos 48 partidas garantidas.
Se avançar nas competições, esse número pode ultrapassar facilmente os 60 jogos.
Isso exige uma gestão física completamente diferente.
O estilo de Iraola depende de intensidade e pressão. Fazer isso uma vez por semana é uma coisa. Repetir o mesmo nível de intensidade enquanto disputa partidas no meio da semana pela Champions League é outra.
O treinador terá que aprender a rodar o elenco, controlar minutos e entender quando sua equipe precisa acelerar ou diminuir o ritmo.
Essa adaptação pode definir o sucesso ou o fracasso de sua primeira temporada em Anfield.
O elenco tem profundidade para disputar todos os títulos?

A última questão está diretamente relacionada à anterior.
O Liverpool pode ter um bom time titular, mas a profundidade do elenco ainda gera dúvidas.
Na defesa, a chegada de Ronald Araújo por empréstimo ajudou a resolver uma necessidade. No meio-campo, porém, a situação pode ficar complicada se Curtis Jones realmente deixar o clube.
Trey Nyoni aparece como possível substituto. O jovem impressionou na pré temporada, mas a diferença de experiência é enorme.
Na última temporada, Nyoni disputou apenas 237 minutos pelo Liverpool, com duas titularidades em 14 partidas. Jones, por outro lado, esteve em campo por 2.849 minutos, sendo titular em 28 dos seus 49 jogos.
O meio-campo também depende muito de quatro jogadores: Wirtz, Alexis Mac Allister, Ryan Gravenberch e Dominik Szoboszlai. Todos fizeram pelo menos 40 partidas como titulares na última temporada.
Se dois desses jogadores sofrerem lesões importantes, as opções para Iraola diminuem rapidamente.
No ataque, o problema é ainda maior.
Hugo Ekitiké está lesionado e ficará fora por alguns meses. Com isso, Isak é atualmente o único centroavante experiente disponível.
O sueco disputou somente 22 partidas na última temporada, portanto existe um risco considerável em depender dele durante uma campanha que pode ultrapassar 60 jogos.
Cody Gakpo e Federico Chiesa podem atuar como alternativas, mas nenhum dos dois é um centroavante de origem. Além disso, existe a possibilidade de um ou ambos deixarem o clube antes do fechamento da janela.
Isso deixa claro que o Liverpool ainda pode precisar se movimentar no mercado.
A chegada de Iraola trouxe uma nova ideia de futebol, mas o treinador precisará de jogadores suficientes para executar essa ideia durante toda a temporada.
O Liverpool tem qualidade para competir por grandes títulos, mas a temporada 2026/27 será uma prova de resistência. Wirtz e Isak precisam produzir mais, a defesa precisa melhorar nas bolas paradas, Iraola precisa provar que seu estilo funciona no mais alto nível e o elenco precisa ganhar profundidade.
Se essas cinco questões forem resolvidas, os Reds terão condições de voltar à briga pelo topo da Premier League e fazer uma campanha forte na Champions League. Caso contrário, a intensidade que tornou Iraola tão admirado no Bournemouth pode se transformar justamente no maior problema de sua primeira temporada em Anfield.
(Foto de capa: Liverpool)



