Lando Norris e a McLaren chegaram ao Grande Prêmio da Holanda de 2026 em uma situação completamente diferente daquela vivida um ano antes. Se em 2025 Zandvoort representou um dos momentos mais dolorosos de sua temporada, desta vez o circuito holandês foi palco da segunda vitória consecutiva do atual campeão mundial.
O triunfo veio depois da vitória no GP da Hungria e colocou Norris novamente no centro da disputa pelo título. A diferença para Kimi Antonelli, líder do campeonato, caiu para 83 pontos, enquanto ainda restam 11 etapas na temporada.
O cenário chama atenção principalmente quando comparado ao que aconteceu na mesma fase do campeonato de 2025. Naquele momento, Max Verstappen estava 104 pontos atrás de Oscar Piastri depois da corrida em Zandvoort. Mesmo com uma desvantagem maior do que a atual de Norris, o piloto da Red Bull conseguiu iniciar uma reação impressionante e terminou a temporada apenas dois pontos atrás do campeão.
É por isso que Norris imediatamente deixou claro pelo rádio após sua vitória que “a luta ainda está aberta”. O britânico sabe que a situação continua complicada, mas também tem um motivo concreto para acreditar. A McLaren conseguiu transformar um carro que começou 2026 muito atrás da Mercedes em uma máquina capaz de vencer duas corridas consecutivas. E os números ajudam a entender o tamanho dessa transformação.
De 1,34 segundo de desvantagem para uma McLaren vencedora
Na abertura da temporada, em Melbourne, a diferença entre McLaren e Mercedes parecia enorme. Considerando o ritmo puro de corrida, a McLaren foi, em média, 1,34 segundo por volta mais lenta que a equipe oficial da Mercedes na Austrália. Para uma equipe que vinha de uma temporada anterior extremamente competitiva, o resultado era um alerta. A McLaren havia concentrado boa parte de seus esforços no carro de 2025, algo que Norris já esperava que tivesse consequências no começo do novo ciclo.
Com a mudança de regulamento, a equipe não conseguiu começar o ano no mesmo nível dos rivais. Norris, inclusive, considera que esse início abaixo do esperado era praticamente inevitável. O que mudou foi a velocidade com que a McLaren conseguiu recuperar terreno. Depois do primeiro GP, a diferença começou a oscilar. A McLaren sequer conseguiu largar na China, enquanto Oscar Piastri já mostrou um ritmo surpreendentemente forte no Japão.
O primeiro grande pacote de atualizações, porém, chegou em Miami. A partir dali, a tendência ficou mais clara. Em apenas duas ocasiões a McLaren voltou a registrar uma desvantagem superior a um segundo por volta em ritmo de corrida: Canadá, com 1,10s, e Mônaco, com 1,67s. Norris atribuiu esses resultados principalmente às dificuldades da equipe nas curvas de baixa velocidade.
Fora desses circuitos, entretanto, a evolução foi muito mais consistente. O resultado final é uma McLaren que, poucos meses depois de começar a temporada mais de um segundo atrás da Mercedes em determinadas condições, conseguiu dominar uma corrida em Zandvoort. Essa é a base da afirmação de Norris de que a equipe teria desenvolvido o carro melhor do que seus principais concorrentes.
“Quase um segundo” de evolução em relação aos rivais
Depois da vitória na Holanda, Norris fez uma afirmação que chamou atenção: segundo ele, a McLaren teria conseguido ganhar quase um segundo de desempenho em relação aos rivais em um circuito como Zandvoort. O comentário pode parecer exagerado à primeira vista, mas os dados de desempenho ao longo da temporada ajudam a contextualizar a declaração.
A McLaren não apenas adicionou desempenho ao seu próprio carro. A equipe também conseguiu diminuir uma diferença que, no começo do ano, parecia muito difícil de ser eliminada. O próprio Norris explicou que a equipe sabia que começaria atrás justamente porque havia priorizado o desenvolvimento do carro da temporada anterior.
A estratégia tinha um custo. Enquanto outros concorrentes puderam dedicar mais recursos ao novo projeto, a McLaren precisou dividir sua atenção entre o carro de 2025 e a preparação para as novas regras. Por isso, começar atrás era esperado.
O que não era necessariamente esperado era a velocidade com que a equipe conseguiria recuperar o terreno perdido. O desenvolvimento passou a ser uma das grandes armas da McLaren. A equipe introduziu atualizações importantes ao longo da temporada e, corrida após corrida, conseguiu aproximar o MCL40 da Mercedes.
O desempenho em Zandvoort foi a demonstração mais evidente dessa trajetória. Norris conseguiu controlar a corrida, reagiu depois de perder temporariamente a liderança para Antonelli e terminou com uma vantagem de mais de 11 segundos sobre o piloto da Mercedes. Para a McLaren, foi uma confirmação de que os investimentos feitos no desenvolvimento estavam produzindo resultados concretos.
Norris também mudou e isso é parte da equação
Seria um erro, porém, atribuir toda a evolução aos engenheiros da McLaren. O próprio Norris fez questão de lembrar que seu desempenho individual também teve influência direta no resultado de Zandvoort. O piloto citou principalmente as ultrapassagens realizadas sobre Antonelli e Lewis Hamilton como momentos decisivos para sua vitória.
A manobra sobre Antonelli foi especialmente importante. Depois do acidente de Max Verstappen na primeira volta, a corrida foi reiniciada e o piloto da Mercedes conseguiu recuperar a liderança. Norris, porém, encontrou uma oportunidade para atacar e conseguiu reassumir a primeira posição.
Segundo o próprio britânico, se não tivesse conseguido realizar aquela ultrapassagem, talvez o resultado final fosse diferente. Essa confiança é uma das mudanças mais interessantes na atual fase de Norris. O piloto reconheceu que está dirigindo em um nível mais alto e, embora normalmente evite falar excessivamente sobre suas próprias performances, decidiu admitir que acredita estar fazendo um trabalho melhor do que seus adversários em determinadas situações.
Essa combinação entre evolução técnica e desempenho individual ajuda a explicar a sequência de resultados. A McLaren entregou um carro mais competitivo, mas Norris também conseguiu transformar essa velocidade em vitórias.
Mercedes ainda é a referência para Norris
Apesar da vitória e dos elogios recebidos, Norris não concorda completamente com a avaliação de que a McLaren já seja a equipe mais rápida da Fórmula 1. Depois de Zandvoort, Kimi Antonelli afirmou que a Mercedes já não tinha o carro mais rápido do grid. Toto Wolff também reconheceu que a equipe possui espaço limitado para continuar levando grandes atualizações devido às restrições do teto orçamentário.
Norris, entretanto, preferiu não aceitar imediatamente o rótulo de favorito. Com bom humor, o britânico lembrou que a Mercedes dificilmente afirmaria publicamente que deixou de ser a equipe a ser batida.
Para ele, mesmo depois de ser derrotada em Zandvoort, a Mercedes ainda deve ser considerada a referência do campeonato. Essa cautela faz sentido.
Uma única corrida não é suficiente para determinar qual carro é definitivamente o melhor. As características de cada circuito podem alterar bastante a hierarquia da Fórmula 1, especialmente em uma temporada marcada por novos regulamentos.
Monza, próxima etapa do calendário, será justamente um teste importante. O circuito italiano possui características completamente diferentes de Zandvoort, com longas retas e forte demanda por eficiência aerodinâmica e velocidade máxima. Se a McLaren conseguir repetir o desempenho competitivo em Monza, o argumento de que sua evolução é estrutural ganhará ainda mais força.
A conta do título ainda é difícil mas Norris ganhou esperança
Mesmo com duas vitórias seguidas, Norris sabe que a matemática do campeonato continua sendo desfavorável. A diferença para Antonelli é de 83 pontos. Para recuperar esse déficit, o piloto da McLaren precisaria manter uma sequência de resultados muito fortes enquanto torce para que o líder do campeonato tenha finais de semana menos consistentes.
Ainda assim, o próprio Norris considera que 83 pontos não representam uma distância impossível. A comparação com Verstappen em 2025 reforça esse pensamento. O holandês chegou a Zandvoort do ano passado com uma desvantagem ainda maior, de 104 pontos, e mesmo assim conseguiu virar completamente a situação nas etapas seguintes. Verstappen venceu corridas importantes e chegou à reta final do campeonato com chances reais de título.
No fim, terminou apenas dois pontos atrás de Norris. Agora, é o britânico quem tenta repetir uma recuperação desse tamanho. A diferença é que Norris acredita estar em uma situação relativamente mais favorável do que aquela vista no início de outras mudanças de regulamento. Para ele, estar 83 pontos atrás em uma temporada de novas regras significa que a disputa está mais próxima do que normalmente estaria.
Mas existe uma condição fundamental: a McLaren precisa continuar evoluindo. As duas vitórias recentes provaram que o carro já está em outro patamar. Os números desde Melbourne mostram uma redução impressionante da diferença para a Mercedes, enquanto o próprio Norris também parece ter encontrado um nível maior de confiança.
A questão agora é se essa evolução continuará nas próximas pistas. Se a McLaren conseguir manter o ritmo em Monza e nas etapas seguintes, a desvantagem de 83 pontos poderá começar a parecer menos assustadora. Se a Mercedes recuperar a vantagem, entretanto, a recuperação de Norris poderá perder força rapidamente.
Por enquanto, o cenário é claro: a McLaren começou 2026 muito atrás, desenvolveu o carro em uma velocidade impressionante e chegou ao fim da passagem pela Holanda com duas vitórias consecutivas. O título ainda está distante para Norris, mas os números mostram que descartá-lo agora seria um erro.



