O Vasco voltou da Colômbia com um resultado que precisa ser valorizado. O empate por 0 a 0 com o Santa Fe, em Bogotá, deixou a decisão das quartas de final da Sul-Americana completamente aberta e ainda permitiu que Pedro Emanuel preservasse praticamente todos os titulares para o Campeonato Brasileiro. Mesmo assim, o placar não elimina uma preocupação que acompanha o clube há algum tempo: o Vasco ainda não consegue transformar suas boas atuações em resultados com a frequência necessária.
A partida serviu justamente para mostrar os dois lados da equipe. De um lado, um time organizado, competitivo e capaz de suportar um adversário fora de casa mesmo atuando com uma escalação alternativa. Do outro, uma equipe que novamente encontrou dificuldades para dar o último passe e aproveitar as oportunidades que apareceram.
É essa contradição que impede uma confiança completa na classificação.
Pedro Emanuel acerta ao preservar os titulares
A decisão de poupar os principais jogadores de linha foi coerente com o momento do Vasco. O clube precisa reagir no Brasileirão e terá pela frente o Grêmio, em Porto Alegre, em um confronto direto importante na luta contra a parte de baixo da tabela. Submeter os titulares ao desgaste de uma partida na altitude de Bogotá, às vésperas de um compromisso desse tamanho, seria um risco desnecessário.
O mérito de Pedro Emanuel está em conseguir preservar os principais nomes sem abrir mão da competitividade. O Vasco não entrou em campo para simplesmente resistir ao Santa Fe. No primeiro tempo, inclusive, teve os melhores momentos da partida e conseguiu criar algumas boas oportunidades.
O lado direito, com Puma Rodríguez, Ramon Rique e Marino, funcionou bem, enquanto a defesa mostrou segurança. O Santa Fe encontrou dificuldades para criar e, apesar de um ou outro vacilo, não conseguiu dominar o jogo na etapa inicial.
Alguns jogadores também aproveitaram a oportunidade. Marino e Ramon Rique tiveram atuações positivas, enquanto Lucas Freitas mostrou segurança. Para um elenco que ainda enfrentará uma sequência pesada, encontrar alternativas é fundamental.
O problema é que a boa organização continua esbarrando na falta de eficiência.
O velho problema ofensivo voltou a aparecer
O Vasco teve situações para sair de Bogotá com uma vitória, mas novamente pecou nas decisões no último terço. Em alguns ataques, o passe final não encontrou o companheiro; em outros, a equipe demorou para acelerar a jogada e perdeu a oportunidade de finalizar.
Esse não é um problema exclusivo dos reservas. É uma dificuldade que aparece também com os titulares e que já começa a se tornar uma característica preocupante da equipe.
O melhor exemplo foi Spinelli.
No segundo tempo, o argentino ficou cara a cara com Asprilla e teve uma excelente oportunidade para abrir o placar. A construção da jogada foi boa, mas a finalização não acompanhou. Para um atacante que busca espaço no elenco, esse tipo de chance precisa ser aproveitado, especialmente em um confronto de mata-mata.
O Vasco não pode depender de um volume enorme de oportunidades para marcar. Em jogos equilibrados, normalmente são poucas as chances realmente claras, e desperdiçá-las significa aumentar a possibilidade de o adversário decidir a partida em um único lance.
Na Colômbia, isso não aconteceu.
Mas poderia ter acontecido.
Léo Jardim novamente foi decisivo
Se o ataque deixou uma sensação de frustração, a defesa teve uma atuação mais segura. O Vasco conseguiu controlar boa parte do jogo e não permitiu que o Santa Fe criasse muitas oportunidades na primeira etapa. Depois do intervalo, entretanto, os colombianos aumentaram a intensidade e começaram a encontrar mais espaços.
Foi quando Léo Jardim apareceu.
Nos acréscimos, o goleiro fez duas grandes defesas em sequência, em cabeçadas de Fagúndez e Rodallega, evitando que o Vasco deixasse Bogotá derrotado. Sua atuação foi fundamental para preservar o empate e manter a decisão em condições favoráveis para o clube carioca.
Ter um goleiro capaz de decidir partidas é uma vantagem enorme em mata-matas. Ao mesmo tempo, o Vasco precisa evitar que Léo Jardim se torne uma espécie de último recurso em todos os jogos equilibrados. Uma equipe que pretende avançar na competição precisa conseguir controlar o adversário sem depender constantemente de intervenções decisivas do goleiro.
Contra o Santa Fe, funcionou. O problema é que nem sempre funcionará.
São Januário muda o cenário, mas não resolve tudo
O 0 a 0 coloca o Vasco em uma situação interessante para o jogo de volta. A equipe terá os principais jogadores novamente disponíveis, contará com o apoio de São Januário e precisará de uma vitória simples para avançar às semifinais.
É uma condição favorável, mas não significa que a classificação esteja encaminhada.
A grande diferença é que o Vasco terá de assumir o protagonismo. Se na Colômbia o empate era aceitável, no Rio será necessário buscar o gol. O Santa Fe poderá adotar uma postura mais defensiva e explorar os espaços deixados pelo time brasileiro, obrigando o Vasco a encontrar soluções contra uma defesa mais fechada.
E é justamente aí que a eficiência voltará a ser decisiva.
Se o Vasco conseguir aproveitar as primeiras oportunidades, poderá controlar a partida e transformar a vantagem de jogar em casa em um fator determinante. Caso volte a desperdiçar chances e erre excessivamente no último passe, permitirá que o adversário permaneça vivo até os minutos finais.
Quanto mais o jogo permanecer empatado, maior será a pressão sobre o time carioca.
O Vasco tem condições de avançar, mas precisa dar um passo além
A partida em Bogotá mostrou que o Vasco possui organização suficiente para competir em um torneio eliminatório. Mesmo com reservas e atuando na altitude, a equipe não se intimidou, criou oportunidades e conseguiu sair sem sofrer gols. Isso é um mérito que não pode ser ignorado.
Ao mesmo tempo, o confronto também reforçou por que ainda existe cautela em relação ao futuro do time na competição. O Vasco compete, mas precisa ser mais decisivo. A defesa oferece segurança, Léo Jardim transmite confiança e o trabalho de Pedro Emanuel parece ter dado uma estrutura ao time, porém a produção ofensiva ainda não acompanha esse crescimento.
Na Sul-Americana, isso pode fazer toda a diferença.
O Vasco está em boas condições para avançar, principalmente porque decidirá a vaga em casa com seus principais jogadores. Mas não pode depender apenas da organização para chegar às semifinais. Precisará transformar as oportunidades em gols e evitar que um confronto controlável se transforme em uma decisão dramática.
O empate em Bogotá foi bom. Dentro das circunstâncias, foi até bastante positivo. A escolha de preservar os titulares também parece ter sido correta. Mas o resultado não esconde o principal alerta: o Vasco continua chegando mais perto de convencer do que de decidir.
Para avançar, terá de corrigir justamente essa parte. Porque, em mata-mata, competir mantém uma equipe viva. Ser eficiente é o que coloca essa equipe na próxima fase.
Foto: Divulgação/Vasco



