Thomas Tuchel parece ter mudado um pouco sua relação com uma palavra que, até pouco tempo atrás, provavelmente faria qualquer treinador levantar uma sobrancelha: caos. Depois de uma Copa do Mundo em que a Inglaterra terminou na terceira colocação, mas deixou escapar uma vantagem na semifinal contra a Argentina, o técnico alemão admite que talvez precise abrir mão de parte da obsessão pelo controle para aproveitar melhor as características de sua equipe.
A mudança de discurso chama atenção porque Tuchel sempre foi um treinador bastante ligado à organização. Só que, depois da experiência nos Estados Unidos, ele percebeu que controlar absolutamente tudo pode ser uma missão complicada, especialmente quando o futebol resolve fazer aquilo que o futebol mais gosta: bagunçar o roteiro.
Agora, às vésperas do início da Nations League, a Inglaterra terá quatro partidas para testar essa nova ideia. O primeiro compromisso já coloca uma pedreira no caminho: a Espanha, atual campeã mundial, visita Wembley no dia 26 de setembro. Depois, os ingleses enfrentam República Tcheca e Croácia, antes de receberem novamente os tchecos.
Copa do Mundo fez Tuchel repensar algumas coisas
A Inglaterra terminou a Copa do Mundo de 2026 na terceira colocação, seu melhor resultado no torneio desde 1966. Ainda assim, a campanha deixou uma sensação curiosa para Tuchel.
Na semifinal contra a Argentina, os ingleses abriram o placar com Anthony Gordon, mas não conseguiram manter o controle da partida. A derrota por 6 a 4 na disputa pelo terceiro lugar contra a França também mostrou um lado completamente diferente da equipe, em um jogo que dificilmente alguém chamaria de conservador.
Depois daquele encontro, Tuchel admitiu que a falta de controle era difícil de digerir para um treinador. Mas, dois meses depois, o discurso mudou.
O alemão reconheceu que talvez seja necessário aceitar mais momentos de desorganização e imprevisibilidade. Afinal, se uma partida de futebol pode ser caótica e, ao mesmo tempo, proporcionar uma das experiências mais divertidas para quem está assistindo, talvez o treinador precise aprender a conviver um pouco melhor com isso.
Daí surgiu a ideia de “abraçar o caos”. Não significa abandonar organização, deixar os jogadores correrem para qualquer lugar e torcer para que alguma coisa dê certo. A ideia de Tuchel parece ser outra: encontrar um equilíbrio entre controle e liberdade.
Convocação mostra que o controle continua importante
Curiosamente, a própria convocação da Inglaterra mostra que Tuchel não pretende transformar sua equipe em uma espécie de vale-tudo.
Os retornos de Cole Palmer e Trent Alexander-Arnold são bons exemplos disso. Os dois estão entre os jogadores ingleses mais talentosos tecnicamente e podem oferecer justamente aquilo que um treinador costuma procurar quando quer ter mais controle da bola.
Palmer começou bem a temporada pelo Chelsea e voltou a ser chamado depois de ficar fora da convocação para a Copa. Alexander-Arnold também retorna ao grupo após um longo período distante da seleção.
Tuchel deixou claro que os retornos não significam necessariamente que ele tenha admitido um erro na montagem do elenco da Copa. Segundo o treinador, sua intenção inicial era manter boa parte da base utilizada no Mundial, mas uma série de lesões mudou os planos.
Jogadores como Reece James, Dan Burn, Dean Henderson, John Stones, Jordan Henderson e Djed Spence não estão disponíveis. Por isso, algumas mudanças acabaram sendo inevitáveis. A ideia, porém, é preservar aquilo que funcionou.
Inglaterra não vai jogar como se tivesse esquecido o passado
Um dos pontos destacados por Tuchel foi justamente a importância do grupo que chegou à terceira colocação no Mundial.
O treinador acredita que determinados jogadores foram fundamentais para construir o espírito e a união da seleção durante a campanha. Essa parte, segundo ele, não será simplesmente descartada em nome de uma mudança de estilo.
A intenção é fazer outros jogadores assumirem responsabilidades.
Por isso, a tendência é que a Inglaterra mantenha suas estruturas principais. Tuchel afirmou que não pretende modificar demais as formações neste momento, o que reforça a ideia de uma evolução mais do que uma revolução. E talvez seja aí que esteja o verdadeiro significado de “abraçar o caos”.
Não se trata de jogar de maneira descontrolada. Trata-se de aceitar que nem todas as partidas serão resolvidas através de um plano perfeito.
Palmer e Alexander-Arnold representam uma Inglaterra mais técnica
Os retornos de Palmer e Alexander-Arnold também podem ajudar a explicar o equilíbrio que Tuchel procura.
Palmer oferece criatividade entre as linhas, capacidade de encontrar espaços e qualidade para decidir perto da área. Já Alexander-Arnold acrescenta uma capacidade de construção que pode ajudar a Inglaterra a controlar partidas através da posse.
Além deles, Tuchel convocou jogadores que também se destacam tecnicamente.
Alex Scott, do Bournemouth, e Lewis Hall, do Newcastle, são vistos como atletas capazes de contribuir na circulação da bola. A presença deles indica que o treinador não pretende simplesmente abrir mão do controle para buscar um futebol mais acelerado.
O objetivo parece ser conseguir as duas coisas. Ter momentos de domínio, mas também conseguir acelerar quando houver espaço.
Ngumoha pode ser a dose extra de imprevisibilidade
Se Palmer e Alexander-Arnold representam um lado mais técnico e controlador da convocação, Rio Ngumoha aparece como uma opção capaz de acrescentar justamente a imprevisibilidade que Tuchel mencionou.
O atacante do Liverpool, de apenas 18 anos, recebeu sua primeira convocação para a seleção principal depois de um começo de temporada que chamou atenção.
Ngumoha tem se destacado pela capacidade de criar jogadas e pelo drible pelos dois lados do campo. É o tipo de jogador que pode receber a bola e fazer alguma coisa que não estava exatamente no planejamento inicial. E isso combina bastante com a ideia de Tuchel.
O treinador também revelou que Josh King, do Fulham, está próximo de receber sua primeira oportunidade na seleção principal. O movimento mostra que existe uma tentativa de renovar as opções ofensivas da Inglaterra para a Nations League e para o ciclo que começa a se desenhar depois da Copa.
Desafio é transformar caos em vantagem
Talvez a grande questão para Tuchel não seja escolher entre controle e caos. Se dependesse dele, provavelmente a Inglaterra teria os dois.
O treinador afirmou que gostaria de ver sua equipe jogar durante alguns minutos como a Espanha, controlando o jogo de maneira quase cirúrgica. Ao mesmo tempo, quer aproveitar momentos em que a intensidade e a velocidade características da Premier League podem ser mais importantes.
É uma mistura interessante porque a Inglaterra tem jogadores capazes de executar estilos diferentes. O problema é fazer isso sem transformar a equipe em um time indeciso.
Tuchel reconhece que a seleção inglesa talvez não seja a equipe mais “econômica” para jogar futebol. E ele vê isso como uma característica ligada à própria Premier League, uma competição em que os times precisam manter intensidade e competitividade durante praticamente todos os jogos.
Para o treinador, isso também pode ser uma força.
Espanha será o primeiro grande teste
E o primeiro adversário não poderia ser mais adequado para testar essa ideia. A Espanha, atual campeã mundial, será justamente o tipo de equipe que pode obrigar a Inglaterra a decidir quando controlar e quando acelerar.
O duelo acontece em Wembley no dia 26 de setembro e abre a campanha inglesa na Nations League. Depois, a equipe viaja para enfrentar a República Tcheca e a Croácia, antes de voltar para casa contra os tchecos.
Serão quatro partidas em pouco mais de uma semana, um cenário que também exige capacidade de adaptação.
A Inglaterra, portanto, entra em uma nova fase sem abandonar completamente aquilo que construiu na Copa do Mundo. Tuchel quer preservar a identidade do grupo, recuperar jogadores importantes e, ao mesmo tempo, permitir que sua equipe seja menos previsível.
No fim das contas, “abraçar o caos” não significa deixar de ter controle. Significa entender quando não ter controle absoluto pode ser justamente a melhor maneira de jogar. E a Espanha será a primeira oportunidade para descobrir se essa nova filosofia de Tuchel funciona na prática.
Foto: Reprodução/Bola na Rede



