Joshua Van tem apenas 24 anos, mas já está vivendo uma fase da carreira que muitos lutadores levam uma década para alcançar. O campeão peso-mosca do UFC acabou de superar Alexandre Pantoja pela segunda vez no octógono, defendeu o cinturão no UFC 331 e transformou uma possível discussão sobre seu potencial em uma conversa muito mais séria sobre seu lugar na história da categoria.
A vitória sobre Pantoja, por decisão unânime, foi especialmente importante porque eliminou parte das dúvidas que ainda acompanhavam o primeiro encontro entre os dois. Em dezembro de 2025, Van havia conquistado o cinturão contra o brasileiro após uma interrupção provocada por lesão. Dessa vez, não houve espaço para asteriscos: os dois ficaram cinco rounds no octógono, e o campeão saiu vencedor em uma das lutas mais movimentadas do evento.
O resultado também colocou Joshua Van em uma situação curiosa. Ele ainda está muito longe de possuir o currículo de nomes como Demetrious Johnson, considerado por grande parte do público e da imprensa especializada como o maior peso-mosca da história. Porém, quando os números atuais são colocados lado a lado com os de outros grandes nomes da categoria, fica difícil ignorar o que o jovem lutador está construindo.
Joshua Van já está quebrando recordes
Um dos aspectos mais impressionantes da trajetória de Joshua Van é a velocidade com que ele está acumulando estatísticas importantes dentro do UFC. De acordo com os registros oficiais da organização, o campeão já soma 1.411 golpes significativos conectados no octógono. O número o coloca no topo da história da divisão, à frente de Brandon Moreno, que chegou a 1.375.
E existe um detalhe que deixa a marca ainda mais impressionante: Moreno precisou de 21 lutas no UFC para chegar ao seu número, enquanto Van alcançou a marca muito mais cedo em sua passagem pela organização. O lutador de Mianmar chegou ao UFC em junho de 2023 e rapidamente se transformou em uma das máquinas de volume mais interessantes da categoria.
A luta contra Pantoja no UFC 331 também entrou diretamente para os livros de recordes. O confronto produziu 328 golpes significativos, a segunda maior marca de uma luta de peso-mosca na história do UFC, atrás apenas do duelo entre Brandon Royval e o próprio Van, que teve 419 golpes significativos conectados.
Isso resume bastante o estilo do campeão. Joshua Van não é exatamente o tipo de lutador que prefere passar cinco minutos esperando a oportunidade perfeita para atacar. Ele mantém um ritmo alto, combina golpes constantemente e parece ficar desconfortável quando a luta entra em um período de pouca ação.
Campeão chegou ao topo muito rápido
Talvez a parte mais impressionante dessa história seja o tempo necessário para Joshua Van chegar até aqui. O lutador começou a treinar MMA somente em 2020 e se tornou profissional em 2021. Poucos anos depois, já era campeão do UFC e defendia o cinturão contra alguns dos principais nomes da categoria.
O UFC registra atualmente Van com 18 vitórias e duas derrotas no MMA profissional, além de 11 triunfos dentro da organização. A única derrota de sua trajetória no UFC aconteceu contra Charles Johnson, em julho de 2024. Desde então, o campeão emendou uma sequência de oito vitórias consecutivas.
E a lista de adversários nessa caminhada não é exatamente pequena. Van passou por nomes importantes da divisão e, nos últimos meses, encarou uma sequência particularmente exigente, incluindo Tatsuro Taira e Alexandre Pantoja. Contra Taira, conseguiu manter o cinturão com uma interrupção no quinto round. Contra Pantoja, venceu novamente, desta vez em 25 minutos de combate.
Para completar, Joshua Van conquistou o título aos 24 anos e 57 dias, tornando-se o segundo campeão mais jovem da história do UFC, atrás apenas de Jon Jones. A comparação não significa que as carreiras dos dois sejam equivalentes, mas mostra o tamanho da precocidade do atual campeão dos moscas.
Discussão sobre o top 3 ainda precisa de contexto
É aqui que a conversa fica mais complicada. Perguntar se Joshua Van já está entre os três maiores pesos-moscas da história não significa necessariamente dizer que seu currículo já supera o de todos os grandes nomes que passaram pela divisão. Na verdade, o próprio tempo de carreira joga contra essa ideia.
Demetrious Johnson, por exemplo, construiu um domínio que ainda serve como principal referência para qualquer discussão histórica sobre a categoria. O norte-americano conquistou 11 defesas consecutivas do cinturão, um recorde que colocou seu nome em um patamar praticamente próprio entre os pesos-moscas. Van ainda está muito distante dessa marca.
Por outro lado, a velocidade com que Joshua Van está acumulando vitórias e estatísticas faz com que a comparação deixe de ser completamente absurda. O campeão já possui 11 vitórias no UFC e está próximo de igualar o número de triunfos de Demetrious Johnson pela organização na categoria. Para isso, precisa de apenas mais duas vitórias.
Também existe uma diferença importante na maneira como os dois construíram seus números. Johnson teve uma carreira muito mais longa e acumulou feitos durante anos. Van está chegando a marcas históricas em uma velocidade incomum, algo que explica por que a discussão sobre seu legado começou tão cedo.
Grande problema de Joshua Van: ele também apanha muito
Se existe um ponto que impede qualquer análise de Joshua Van de virar simplesmente uma celebração, ele está na quantidade de golpes que o campeão recebe.
Depois de três lutas pelo cinturão, Van apresenta uma taxa de 5,83 golpes significativos absorvidos por minuto. O número é alto, especialmente quando comparado aos principais campeões históricos da divisão. Demetrious Johnson, por exemplo, tinha uma taxa de 2,26 golpes significativos absorvidos por minuto em suas três primeiras disputas pelo título.
Contra Pantoja, isso ficou bastante evidente. O brasileiro conseguiu conectar 147 golpes significativos, obrigando Van a trabalhar sob pressão durante boa parte da luta. Mesmo assim, o campeão terminou o confronto com números ofensivos absurdos e saiu do octógono com mais uma defesa do título.
O próprio Joshua Van reconheceu que ainda precisa evoluir defensivamente. Após o UFC 331, admitiu que recebe golpes demais e avaliou que poderia ter feito uma apresentação ainda melhor. Ou seja, o próprio campeão parece enxergar aquilo que pode ser seu maior ponto de evolução nos próximos anos.
E isso torna o cenário ainda mais interessante. Van já é um dos lutadores mais produtivos ofensivamente da divisão, mas ainda pode desenvolver uma defesa mais eficiente. Se conseguir reduzir a quantidade de golpes absorvidos sem perder seu volume, poderá mudar completamente a maneira como enfrenta seus adversários.
O que vem depois para Joshua Van?
Depois de derrotar Pantoja novamente, Joshua Van deve encontrar um novo desafio na divisão. Manel Kape é o nome mais cotados para disputar o cinturão, especialmente depois de construir uma sequência de quatro vitórias por nocaute. O angolano-português já vinha esperando por uma oportunidade pelo título enquanto Van e Pantoja resolviam suas contas.
Também existem outros caminhos para o campeão. Brandon Royval e Tatsuro Taira podem voltar à disputa, enquanto nomes como Asu Almabayev, Ramazan Temirov, Lone’er Kavanagh e Rei Tsuruya aparecem como possíveis desafios para o futuro. A categoria, portanto, não parece estar sem opções para manter Van ocupado.
E talvez esse seja justamente o ponto mais assustador para os concorrentes. Joshua Van ainda tem somente 24 anos. Ele não está chegando ao fim de uma carreira histórica; está apenas começando a construir uma.
Por enquanto, colocar Joshua Van definitivamente acima de nomes consagrados seria ignorar o peso de anos de domínio que esses lutadores tiveram. Mas também seria impossível olhar para seus números e tratar o campeão como apenas mais uma promessa. Ele já é campeão, já venceu Pantoja duas vezes, já derrotou Tatsuro Taira, acumula oito vitórias seguidas no UFC e está quebrando recordes de volume em uma velocidade impressionante.
A pergunta, portanto, talvez seja menos sobre onde Joshua Van está hoje e mais sobre o tamanho do legado que ele pode construir. Aos 24 anos, o lutador já colocou seu nome entre os grandes protagonistas da categoria. Se continuar vencendo nesse ritmo e conseguir corrigir justamente o aspecto defensivo que mais o expõe, a discussão sobre os maiores pesos-moscas da história tende a ficar cada vez mais inevitável.
Foto: Chris Unger via Getty Images



