Há alguns anos, Lucas Da Cunha estava tentando descobrir se ainda teria espaço no futebol de alto nível. Aos 25 anos, o francês que agora veste a camisa da seleção e joga na Champions League pelo Como já esteve muito mais perto de desaparecer do radar do futebol europeu do que de chegar à equipe nacional.
Formado pelo Rennes, Da Cunha foi contratado pelo Nice em 2020 por cerca de € 1 milhão, em um movimento que indicava a expectativa de que o jovem atacante pudesse se desenvolver e alcançar um nível importante. O problema é que o caminho não aconteceu como planejado. Vieram empréstimos, poucos espaços e uma sequência de temporadas em que o jogador parecia preso entre a promessa e a realidade. Passou pelo Lausanne-Sport, voltou ao Nice e depois foi cedido ao Clermont. Quando o Como apareceu, em janeiro de 2023, o clube francês decidiu aceitar uma transferência por cerca de € 750 mil.
Naquele momento, Da Cunha era essencialmente um jogador ofensivo. Atuava como ponta ou meia, buscando espaço próximo à área e tentando encontrar uma posição definitiva no futebol profissional. O que aconteceu depois, porém, não foi simplesmente uma evolução natural.
Foi uma mudança de identidade. No Como, Cesc Fàbregas enxergou em Da Cunha características que poderiam ser utilizadas de uma maneira completamente diferente. O jogador que havia sido formado para atacar passou a recuar. O ponta virou meio-campista. O jogador de frente para o gol passou a atuar de costas para a pressão e a participar da construção.
E foi justamente quando deixou de ser o jogador que imaginava que precisava ser que Da Cunha encontrou o caminho para se tornar um jogador muito mais completo.
Fàbregas não apenas encontrou uma nova posição. Encontrou um novo jogador
A transformação de Da Cunha é interessante porque não se resume a uma mudança no desenho tático.
Fàbregas percebeu que o francês tinha características que poderiam ser mais valiosas em uma região mais recuada do campo. A técnica, a capacidade de associação, a inteligência para ocupar espaços e a tranquilidade com a bola poderiam ser utilizadas para organizar o jogo, em vez de simplesmente finalizar as jogadas.
O próprio Como reconhece que Da Cunha chegou ao clube como um jogador ofensivo e acabou sendo moldado como meio-campista. Desde então, ele se tornou uma das peças mais importantes do projeto. O clube foi da Serie B à Serie A, alcançou pela primeira vez a Champions League e transformou Da Cunha em capitão. Em julho, ele assinou uma renovação até 2031.
Não é coincidência. A mudança de posição permitiu que Da Cunha participasse de uma quantidade muito maior de situações do jogo. Em vez de depender de receber a bola em uma zona específica para produzir algo, ele passou a ter responsabilidade sobre a construção da equipe.
Isso exige outra característica: entender o que acontece antes de a bola chegar aos pés. É justamente essa leitura que chamou atenção na França.
Antes mesmo da estreia, o jornal L’Équipe descreveu Da Cunha como um meio-campista de perfil singular, destacando sua inteligência de jogo e sua capacidade de atuar em diferentes zonas do campo.
O detalhe mais importante talvez seja justamente esse: Da Cunha não chegou à seleção porque se tornou um craque de uma posição específica. Chegou porque se transformou em um jogador capaz de cumprir diferentes funções dentro do mesmo jogo.
A França não encontrou apenas uma surpresa. Encontrou um perfil diferente
A convocação de Da Cunha por Zinédine Zidane chamou atenção justamente porque ele não era um nome habitual do futebol francês.
Aos 25 anos, o meio-campista chegou à primeira convocação depois de passar por um caminho muito menos convencional do que outros jogadores da geração. Enquanto muitos dos companheiros de seleção foram formados em grandes academias e rapidamente chegaram aos principais clubes europeus, Da Cunha precisou passar por empréstimos, mudanças de posição e anos de incerteza.
Zidane, porém, enxergou algo que ia além da trajetória. O treinador o colocou como titular contra a Bélgica, no segundo jogo da França na atual edição da Liga das Nações. A equipe venceu por 1 a 0 com gol de Michael Olise nos minutos finais, mas a atuação de Da Cunha rapidamente deixou de ser apenas uma curiosidade da escalação.
O francês jogou praticamente toda a partida no meio-campo e mostrou justamente aquilo que o Como passou a explorar nele: capacidade de receber sob pressão, interpretar espaços e participar da construção sem precisar se esconder da marcação.
Em determinado momento, chegou inclusive a acertar a trave. Mais importante, porém, foi a maneira como se comportou em um ambiente completamente diferente daquele ao qual estava acostumado.
Não parecia um jogador tentando provar que pertencia à seleção. Parecia um jogador tentando jogar futebol.
Essa diferença chamou a atenção de Morgan Schneiderlin, que atuou com Da Cunha no Nice. Após a partida, o ex-meio-campista francês destacou a inteligência do jogador, sua capacidade de permanecer em zonas interessantes e a tranquilidade para não exagerar nas ações.
É uma descrição que explica muito do processo de transformação de Da Cunha. Ele não precisou se tornar o jogador que faz tudo. Precisou aprender a fazer a coisa certa com mais frequência.
O que Fàbregas viu antes de todo mundo
O Nice não necessariamente errou ao acreditar no potencial de Da Cunha. O jogador realmente tinha talento. O problema foi que ele ainda não havia encontrado a maneira correta de utilizá-lo.
A passagem pelo clube francês foi marcada por empréstimos e pouca estabilidade. No Lausanne-Sport, foram 27 partidas e seis gols. No Clermont, duas bolas na rede em 11 jogos. O jogador tinha produção, mas não conseguia transformar essa produção em uma trajetória ascendente.
Fàbregas fez algo diferente. Em vez de perguntar qual era a posição em que Da Cunha havia sido formado, perguntou qual posição melhor aproveitava suas características.
O futebol permite que jogadores tecnicamente versáteis sejam utilizados de maneiras muito diferentes ao longo de uma partida. Um jogador que sabe receber entre linhas pode começar mais recuado. Um atleta que entende pressão pode ser colocado como primeiro ou segundo homem da construção. Alguém capaz de enxergar passes antes da maioria pode ter mais valor organizando a jogada do que esperando por ela.
Da Cunha se encaixa nesse último grupo. Seu desenvolvimento mostra que versatilidade não significa necessariamente jogar em cinco posições diferentes. Às vezes, significa entender cinco funções diferentes dentro de uma mesma posição.
E foi isso que Fàbregas parece ter encontrado.
A possível contratação pelo Chelsea
O interesse do Chelsea e de outros clubes da Premier League acrescenta uma nova camada à história, mas não deveria ser o centro dela.
Segundo o TEAMtalk, Chelsea, Manchester United, Aston Villa, Newcastle e Brighton já acompanhavam Da Cunha antes mesmo da convocação para a França. O interesse aumentou depois da estreia internacional, mas o novo contrato até 2031 significa que o Como está em uma posição muito mais confortável para discutir qualquer eventual negociação.
O Chelsea, especificamente, procura um meio-campista capaz de organizar o jogo e poderia enxergar em Da Cunha uma alternativa para atuar ao lado de Moisés Caicedo.
Mas existe uma questão mais interessante do que o possível destino. Da Cunha só entrou nesse mercado porque mudou a maneira como era percebido dentro de campo.
Se continuasse sendo apenas um ponta ou meia ofensivo de 25 anos tentando encontrar espaço em um grande campeonato francês, talvez sua trajetória fosse completamente diferente.
Ao se transformar em meio-campista, ganhou uma característica que grandes equipes procuram cada vez mais: a capacidade de conectar diferentes fases do jogo.
Ele pode receber atrás da primeira pressão, conduzir, encontrar um companheiro entre linhas e continuar a jogada. Pode se aproximar da saída de bola e também aparecer mais à frente. Pode participar da construção sem abandonar completamente a capacidade de chegar ao último terço.
É essa multiplicidade que torna seu perfil tão valioso.
A estreia pela França é o começo de outra etapa
Da Cunha ainda não virou um jogador estabelecido na seleção francesa por causa de uma única partida. Uma estreia positiva não garante continuidade, e a concorrência no meio-campo francês é enorme.
Mas a importância do momento está em outra coisa. Pela primeira vez, Da Cunha recebeu uma confirmação externa de que a transformação iniciada no Como havia funcionado.
Durante anos, ele foi o jogador que precisava provar que poderia chegar ao nível mais alto. Agora, ele chegou. E chegou justamente porque aceitou mudar.
Aos 25 anos, Da Cunha está entrando em uma fase diferente da carreira. Já não é o jovem que precisa esperar por uma oportunidade. É capitão de um clube que disputa a Champions League, tem contrato até 2031 e acaba de estrear pela seleção francesa.
Sua história mostra que desenvolvimento no futebol nem sempre acontece quando um jogador melhora aquilo que já sabe fazer.
Às vezes, ele acontece quando alguém encontra uma maneira completamente diferente de usar aquilo que o jogador já tinha.
Fàbregas fez isso com Da Cunha. Transformou um ponta em meio-campista, um jogador de rotação em líder e uma promessa que parecia ter ficado pelo caminho em um internacional francês.
Agora, o próximo desafio é justamente provar que essa transformação não foi apenas uma boa história de desenvolvimento. É o começo de uma nova carreira. E, depois de tantos anos tentando encontrar seu lugar no futebol, Lucas Da Cunha finalmente parece ter descoberto qual é.
(Foto: Getty Images)



