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Santos mostra que o desempenho às vezes não é mais importante do que saber vencer; confira a análise

O Santos não precisou jogar bem durante os 90 minutos para produzir uma das vitórias mais importantes de sua arrancada no Brasileirão. No Morumbis, diante de um São Paulo que controlou boa parte do primeiro tempo e encontrou espaços para pressionar, o time de Cuca precisou sobreviver antes de conseguir reagir. A vitória por 2 a 1, construída de trás para frente, expôs problemas que ainda existem na equipe, mas também mostrou uma característica que pode ser decisiva na reta final da competição: a capacidade de encontrar soluções durante uma partida.

O resultado representa a quinta vitória consecutiva do Santos no Brasileirão e mantém a equipe em trajetória ascendente. Mais do que a posição na tabela, porém, o momento sugere uma mudança na maneira como o time pode encarar as últimas rodadas. A preocupação inicial estava concentrada em afastar definitivamente o risco de rebaixamento. Agora, com a sequência positiva e um desempenho particularmente forte fora de casa, a discussão passou a envolver objetivos maiores.

A vitória sobre o São Paulo não foi uma atuação de controle. Pelo contrário. O Santos terminou o clássico precisando agradecer especialmente ao goleiro Diógenes, responsável por oito defesas e por intervenções decisivas nos minutos finais.

Isso torna o resultado ainda mais importante. O Santos não venceu porque conseguiu impor seu futebol durante todo o jogo. Venceu porque soube reconhecer que a partida estava caminhando para um cenário desfavorável, modificou sua estrutura no intervalo e encontrou jogadores capazes de mudar o rumo do confronto.

O primeiro tempo mostrou o que ainda precisa ser corrigido

A dificuldade santista começou antes mesmo de a bola rolar. A ausência de Rollheiser, que passou mal no vestiário, obrigou Cuca a alterar a escalação e colocar Lima em campo. A mudança não funcionou. O Santos encontrou dificuldades para ocupar o meio-campo e passou boa parte da primeira etapa reagindo aos movimentos do São Paulo.

O problema não estava apenas na produção ofensiva. O Santos também não conseguia controlar os espaços. O São Paulo conseguiu colocar mais jogadores por dentro, utilizar seus laterais com liberdade e empurrar o adversário para perto da própria área. Cuca reconheceu depois da partida que sua equipe foi surpreendida pela formação utilizada por Dorival Júnior e que o time teve problemas para diminuir os espaços e vencer os duelos.

O pênalti cometido por Lucas Veríssimo, convertido por Luciano, acabou traduzindo em placar uma superioridade que já vinha sendo construída pelo São Paulo. O Santos poderia ter perdido completamente o controle emocional naquele momento, principalmente porque sofrera o gol em uma situação evitável.

A resposta, no entanto, veio imediatamente. Gabigol aproveitou cruzamento de Escobar e empatou pouco depois, em um lance que também teve influência de uma situação específica da partida: o São Paulo estava momentaneamente com dez jogadores porque Ryan Francisco precisou deixar o campo após o lance do pênalti.

O empate não resolveu os problemas do Santos, mas impediu que o time chegasse ao intervalo em uma situação ainda mais delicada. E foi justamente no vestiário que Cuca conseguiu transformar a partida.

Cuca muda o jogo e o Santos encontra um caminho

As substituições realizadas no intervalo foram mais do que uma troca de peças. Foram uma mudança de ideia. Lima e Barreal deixaram o campo para as entradas de Gustavo Henrique e Philippe Coutinho. O Santos passou a ter maior presença no meio-campo e encontrou uma maneira mais segura de sair da pressão adversária. Gustavo Henrique ajudou a dar equilíbrio ao setor, enquanto Coutinho passou a funcionar como um ponto de conexão entre o meio e o ataque.

A mudança é importante porque evidencia uma das principais diferenças entre o Santos atual e a equipe que começou a temporada. Cuca parece ter encontrado um elenco capaz de oferecer soluções diferentes dentro da própria partida.

Coutinho é um exemplo claro disso. Mesmo sem ritmo competitivo, o meia precisou de poucos toques para demonstrar sua capacidade técnica. No lance da virada, recebeu de costas, escapou da marcação e encontrou Everton Cebolinha, que deu o passe para Gabigol marcar novamente.

A jogada sintetiza o que o Santos passou a ter à disposição: um meio-campista capaz de enxergar a jogada antes que ela se desenvolva, um jogador de velocidade para atacar o espaço e um atacante com presença de área suficiente para transformar uma oportunidade em gol.

Gabigol, aliás, é parte central dessa transformação. Os dois gols no clássico elevaram para 23 o número de gols do atacante na temporada, consolidando-o como principal referência ofensiva da equipe.

O Santos não precisou criar inúmeras oportunidades para vencer. Precisou aproveitar as que surgiram. Essa talvez seja uma das características mais importantes de um time que começa a pensar em objetivos maiores.

A vitória também pertence a Diógenes

Se Gabigol foi o responsável por transformar as oportunidades em gols, Diógenes foi quem manteve o Santos vivo quando o São Paulo ainda tinha o controle da partida.

O goleiro realizou oito defesas e foi especialmente importante na reta final, quando o adversário aumentou a pressão em busca do empate. Uma intervenção em chute de Artur e outra no último lance, em finalização de Danielzinho, foram determinantes para preservar a vitória.

A atuação ganha importância porque Diógenes assumiu uma responsabilidade inesperada. Com Gabriel Brazão fora após cirurgia no ombro, o Santos precisava encontrar segurança em uma posição que havia se tornado uma preocupação. Depois de uma atuação ruim contra o Remo, o goleiro chegou ao clássico cercado por dúvidas.

Saiu do Morumbis em uma situação completamente diferente. Isso não significa que uma partida seja suficiente para eliminar todas as questões da posição, mas mostra como o Santos vem encontrando respostas em diferentes setores. Em uma equipe que pretende continuar subindo na tabela, essa capacidade de compensar problemas é fundamental.

Em determinados jogos, Gabigol pode decidir. Em outros, será necessário que o goleiro apareça. Contra o São Paulo, os dois extremos foram necessários.

De sobrevivência a uma disputa por objetivos maiores

Talvez a principal mudança no Santos esteja justamente naquilo que acontece fora dos 90 minutos. Pouco tempo atrás, o campeonato era encarado principalmente como uma corrida para escapar de uma situação desconfortável na parte inferior da tabela. A sequência recente alterou essa perspectiva. O Santos venceu Vasco, Corinthians, Internacional e Remo fora de casa antes de superar o São Paulo, construindo uma campanha de visitante que passou a chamar atenção.

A equipe chegou aos 41 pontos e passou a olhar para a disputa por uma vaga na Libertadores de 2027. O próprio Cuca já admite esse objetivo e estabeleceu internamente metas relacionadas ao desempenho no returno.

O cenário não significa que a classificação esteja garantida ou que o Santos tenha se transformado repentinamente em candidato ao topo do campeonato. A distância para a zona de Libertadores ainda exige uma arrancada consistente nas rodadas restantes.

Mas existe uma diferença importante entre sonhar e ter motivos concretos para sonhar. O Santos atualmente possui uma sequência de resultados que sustenta essa ambição. E, principalmente, não depende apenas de um tipo de vitória. Contra adversários diferentes, encontrou maneiras diferentes de vencer.

No Morumbis, isso ficou evidente de maneira quase didática. O time foi inferior durante boa parte do primeiro tempo, sofreu um gol, reagiu rapidamente, mudou sua estrutura no intervalo, encontrou a virada e depois precisou defender o resultado.

É uma vitória que não esconde os problemas. Ela mostra que eles existem e, ao mesmo tempo, indica que o Santos já possui ferramentas para resolvê-los.

(Foto: Marcos Ribolli)