O Brasil venceu a Índia por 4 a 0, em Calcutá, e encerrou a primeira Data Fifa depois da Copa do Mundo com duas vitórias e um empate. Estêvão, Pedro e Samuel Lino, duas vezes, construíram um placar que, olhando apenas para o resultado, parece traduzir uma noite tranquila para a Seleção. E foi. O problema é que a tranquilidade esteve perto demais da acomodação.
Diante de uma Índia muito inferior tecnicamente, atualmente na parte de baixo do ranking da Fifa, o Brasil encontrou espaços, marcou quatro vezes e poderia até ter construído uma goleada maior. Mas passou boa parte da partida em um ritmo moroso, com pouca intensidade, erros de execução e uma postura que transmitia a sensação de que os jogadores já sabiam que venceriam antes mesmo de o jogo começar.
Não se trata de dizer que a Seleção deveria ter tratado um amistoso contra a Índia como uma final de Copa do Mundo. O contexto importa. Era o terceiro compromisso da Data Fifa, em condições climáticas difíceis, com temperatura elevada e umidade superior a 80%, além de Carlo Ancelotti utilizando a partida para observar jogadores e fazer mudanças. Samuel Lino, inclusive, relatou que o calor dificultava a manutenção de um ritmo alto.
Ainda assim, existe uma diferença entre administrar energia e jogar sem urgência. E foi justamente essa diferença que incomodou.
Um Brasil que parecia não levar o jogo tão a sério
O primeiro tempo talvez seja a melhor representação da impressão deixada pela Seleção. O Brasil tinha a bola, encontrava espaços e enfrentava um adversário que oferecia pouquíssima resistência na construção defensiva. Mesmo assim, demorou quase meia hora para produzir algo realmente relevante. Vini Jr. recebeu espaço pelo lado esquerdo, mas tomou decisões ruins, caiu algumas vezes na armadilha do impedimento e não conseguiu transformar a superioridade técnica em pressão constante.
O restante da equipe acompanhava o mesmo ritmo. Havia uma circulação de bola sem muita agressividade, movimentações previsíveis e uma intensidade que parecia incompatível com a diferença técnica entre os dois times. A Índia não precisava fazer uma partida extraordinária para permanecer viva. Bastava se organizar minimamente e esperar que o Brasil errasse.
E o Brasil errou. A sensação transmitida em diversos momentos foi de preguiça. Não necessariamente uma preguiça física, porque o calor evidentemente pesou, mas uma preguiça competitiva. Como se a Seleção soubesse que, em algum momento, um talento individual resolveria a partida.
Foi exatamente o que aconteceu. Aos 28 minutos, Estêvão recebeu pela direita, cortou para dentro e encontrou o espaço para finalizar. O atacante do Chelsea fez aquilo que o Brasil não vinha conseguindo fazer coletivamente: acelerou a jogada e criou uma situação de gol por conta própria.
Pouco depois, voltou a aparecer. Dessa vez, encontrou Pedro em profundidade para o centroavante marcar o segundo. O curioso é que os dois gols não nasceram de uma grande imposição brasileira. Foram momentos individuais que romperam uma partida até então burocrática.
E talvez essa seja a principal impressão da noite: o Brasil não precisou jogar muito para abrir 2 a 0.
A diferença técnica mascarou problemas que seriam impossíveis de esconder contra um adversário maior
É importante fazer uma ressalva. O objetivo de um amistoso também é testar.
Ancelotti fez oito mudanças em relação à vitória sobre a Austrália e utilizou a partida para observar nomes como Pedro Morisco, Arthur Dias, Gabriel Bontempo, Estêvão, Pedro e Samuel Lino. Ao longo do segundo tempo, as mudanças foram ainda mais profundas, a ponto de somente Morisco permanecer por boa parte da etapa em relação à formação inicial.
Portanto, não seria razoável exigir entrosamento de uma equipe que foi deliberadamente modificada. Mas justamente por isso o jogo deveria servir para observar comportamentos. E alguns deles não foram particularmente animadores.
A Índia conseguiu encontrar algumas bolas nas costas da defesa brasileira e obrigou Pedro Morisco a trabalhar. Ryan Williams e Manvir Singh tiveram oportunidades para incomodar o goleiro brasileiro, enquanto o Brasil, mesmo diante de um adversário muito inferior, teve momentos em que ficou exposto demais para uma equipe que controlava a partida com tanta facilidade.
Esse é um ponto importante para Ancelotti. Contra a Índia, um erro de posicionamento pode terminar em uma finalização defendida por Morisco. Contra uma seleção de primeiro nível, o mesmo erro pode significar um gol.
A diferença técnica entre os adversários permite que determinados problemas desapareçam do placar. Não necessariamente do jogo.
Estêvão aproveita a oportunidade e Samuel Lino transforma o segundo tempo
Se a postura coletiva deixou ressalvas, alguns jogadores saíram da Índia com motivos concretos para comemorar.
Estêvão foi novamente um dos nomes mais interessantes da Seleção. Aos 19 anos, voltou a marcar pela equipe principal depois de ter ficado fora da Copa do Mundo por causa de uma grave lesão muscular. Com o gol contra a Índia, chegou a seis na Era Ancelotti, ficando atrás apenas de Vini Jr. nesse período.
Mais importante do que o número, porém, foi a maneira como participou da partida. Estêvão não ficou limitado à função de finalizar. Foi responsável pelo passe que deixou Pedro na cara do gol e mostrou novamente a capacidade de produzir algo diferente quando o jogo estava preso em um ritmo baixo.
Samuel Lino também merece destaque especial. Entrando no segundo tempo, o atacante do Flamengo marcou seus primeiros gols pela Seleção. No terceiro, apareceu dentro da área após uma jogada construída por Douglas Luiz e Pedro. No quarto, já nos acréscimos, recebeu pela esquerda, driblou dois defensores e finalizou forte para fechar a goleada.
É exatamente esse tipo de atuação que transforma amistosos em oportunidades reais. Se o jogo não ofereceu um grande teste coletivo, ofereceu pequenas respostas individuais.
E, para Ancelotti, isso pode ser mais importante neste momento do ciclo.
O Brasil terminou a Data Fifa com mais perguntas do que respostas
A primeira Data Fifa pós-Copa não foi inútil. Seria injusto dizer isso. Ancelotti testou jogadores, observou alternativas, deu minutos a atletas que precisavam de espaço e terminou o período com duas vitórias. Estêvão voltou a marcar, Pedro aproveitou a titularidade e Samuel Lino apareceu como uma nova opção ofensiva.
Ao mesmo tempo, o Brasil ainda parece estar procurando uma identidade mais clara. A questão do meio-campo continua relevante. O comportamento da pressão ainda precisa ser ajustado. A defesa apresentou momentos de desatenção. E, principalmente, a equipe precisa recuperar uma intensidade competitiva que não pode depender da qualidade do adversário.
Porque talvez esse seja o maior aprendizado da goleada em Calcutá. O Brasil não precisa transformar todo amistoso em uma batalha. Não precisa correr como se estivesse disputando uma semifinal de Copa. Não precisa humilhar adversários tecnicamente inferiores para provar alguma coisa.
Mas precisa demonstrar compromisso com o jogo. Precisa jogar com seriedade mesmo quando a partida parece fácil. Precisa entender que o processo de construção de uma Seleção não acontece apenas nos grandes jogos. A mentalidade também é treinada nos pequenos. A intensidade também é criada nos amistosos. E a identidade de uma equipe aparece justamente na maneira como ela se comporta quando não existe pressão externa para obrigá-la a competir.
Contra a Índia, o Brasil venceu sem grandes dificuldades. O problema é que, em vários momentos, parecia que a Seleção já tinha comemorado a vitória antes de conquistá-la.
E esse tipo de sensação não aparece na estatística final. O placar registra quatro gols, uma vitória e mais três pontos simbólicos para a confiança do grupo. A atuação, porém, deixa uma impressão diferente: a de uma equipe que ainda precisa aprender a tratar cada partida como parte do processo, mesmo quando o adversário permite que ela jogue no piloto automático.
A goleada foi suficiente para encerrar a Data Fifa com tranquilidade. Mas, para uma Seleção que pretende começar a construir seu próximo ciclo mundialista, tranquilidade não pode ser confundida com acomodação.
(Foto: AFP)



