Os grapplers do UFC estão encontrando um desafio cada vez maior para transformar sua superioridade no chão em vitórias no MMA. A evolução da defesa de quedas, a capacidade dos adversários de neutralizar posições dominantes e a própria interpretação das regras criaram um ambiente no qual controlar uma luta por meio do wrestling, do jiu-jítsu ou de outras modalidades de grappling nem sempre é suficiente para convencer árbitros e juízes. O problema não está necessariamente na perda de eficiência dessas especialidades, mas na maneira como o esporte passou a recompensar determinadas ações, favorecendo, em algumas situações, quem consegue evitar o combate no solo em vez de quem busca construí-lo.
A discussão ganhou força após o confronto entre Renato Moicano e Tom Nolan, no UFC Vegas 123. Durante o primeiro round e parte do segundo, o brasileiro conseguiu impor seu jogo de chão, alcançando as costas do adversário, encaixando o triângulo corporal e trabalhando com golpes enquanto procurava uma oportunidade para finalizar. Nolan demonstrava capacidade de defesa, mas Moicano estava em uma posição de controle que lhe permitia conduzir o combate. A intervenção do árbitro Dan Miragliotta, que determinou o retorno dos lutadores à posição em pé, interrompeu uma estratégia que vinha funcionando.
Não é necessário afirmar que a decisão custou a vitória de Moicano para reconhecer o impacto da interrupção. Nolan era superior na trocação e poderia encontrar oportunidades para mudar o rumo da luta, enquanto sua defesa de finalização também merece reconhecimento. O ponto central é outro: o brasileiro havia conquistado uma posição dominante por meio de sua especialidade e estava trabalhando a partir dela. Ao interromper a ação, a arbitragem retirou dele a possibilidade de continuar explorando uma vantagem técnica que havia construído dentro das regras.
O episódio expõe uma questão mais ampla sobre o MMA contemporâneo: até que ponto um lutador pode construir sua estratégia em torno do grappling sem correr o risco de ver seu trabalho neutralizado por critérios que valorizam a movimentação e a atividade em pé? A resposta envolve muito mais do que o jiu-jítsu, porque alcança também wrestlers, judocas e atletas que utilizam o controle posicional como principal ferramenta para vencer.
A evolução da defesa tornou o grappling mais difícil de impor
Nos primeiros anos do MMA, a diferença de conhecimento entre especialistas em modalidades distintas era muito maior. Um lutador com experiência em wrestling, jiu-jítsu ou judô poderia encontrar adversários que praticamente não sabiam lidar com quedas, controle por cima ou tentativas de finalização. Essa disparidade ajudava a explicar por que determinadas especialidades conseguiam dominar confrontos de maneira tão evidente.
O cenário mudou. Atualmente, mesmo atletas cuja principal característica é a trocação precisam desenvolver uma defesa de quedas consistente, compreender como escapar de posições desfavoráveis e reconhecer os riscos de entregar as costas ou permitir que o adversário estabeleça controle lateral. O grappling deixou de ser uma área de conhecimento restrita aos especialistas e passou a fazer parte da formação básica de praticamente todo lutador de alto nível.
Essa evolução não significa que o jogo de chão perdeu importância. Pelo contrário, a capacidade de derrubar, controlar e finalizar continua sendo uma das ferramentas mais decisivas do MMA. A diferença é que os adversários estão mais preparados para sobreviver nessas situações. Defender uma queda ou evitar uma finalização exige menos recursos técnicos do que desenvolver um jogo ofensivo completo de wrestling ou jiu-jítsu, e muitos atletas conseguem dedicar boa parte de seus treinamentos a impedir que o especialista imponha sua principal arma.
O resultado é uma espécie de desequilíbrio. Um grappler precisa encontrar maneiras de derrubar, estabilizar posições, avançar na hierarquia do controle e ameaçar com golpes ou finalizações. Seu adversário, em determinadas situações, pode concentrar esforços em manter a luta em pé, defender as tentativas de queda e evitar ações que permitam ao especialista construir uma sequência ofensiva.
Isso também ajuda a explicar por que o controle posicional nem sempre é acompanhado de grande produção ofensiva. Um lutador pode passar vários minutos tentando manter o adversário no chão, enquanto o oponente utiliza a guarda, a movimentação e a defesa de finalizações para impedir danos significativos. Para quem assiste, a luta pode parecer pouco movimentada, mas existe uma disputa técnica importante acontecendo. O problema surge quando a dificuldade de reconhecer essa disputa leva a uma avaliação simplificada de quem está efetivamente trabalhando para vencer.
O controle no chão precisa ser reconhecido como parte do combate
O caso de Moicano ilustra uma tensão recorrente na arbitragem do MMA. O brasileiro havia conquistado as costas de Nolan, uma das posições mais vantajosas do combate agarrado, e trabalhava para encontrar uma finalização. Mesmo sem conseguir encaixar o golpe decisivo, mantinha o adversário em uma situação defensiva e tinha condições de continuar atacando com socos curtos e tentativas de estrangulamento.
É importante diferenciar uma posição dominante de uma situação em que o lutador apenas permanece sobre o adversário sem produzir nada. O grappling envolve progressão, controle, ameaças e a capacidade de limitar as opções do oponente. Nem toda passagem de tempo no chão representa uma ação ofensiva relevante, mas também não é correto exigir que toda posição dominante resulte imediatamente em uma tentativa de finalização ou em golpes contundentes.
A interpretação da arbitragem precisa considerar o contexto. Um lutador que conquista as costas, mantém o controle e trabalha para finalizar está executando uma estratégia legítima de combate. Se o adversário consegue defender as tentativas, isso não significa necessariamente que a posição perdeu sua importância. A defesa bem-sucedida deve ser valorizada, mas não deveria transformar automaticamente o controle conquistado pelo grappler em uma situação de inatividade.
As regras do MMA também precisam ser interpretadas sem criar uma vantagem artificial para quem prefere lutar em pé. A interrupção de uma posição no chão pode ser necessária quando existe uma infração, uma situação de perigo ou uma ausência prolongada de atividade que justifique a intervenção. Entretanto, se o árbitro utiliza critérios excessivamente subjetivos para determinar quando um grappler deve continuar trabalhando, o especialista passa a enfrentar uma dificuldade que não depende exclusivamente de sua capacidade técnica.
Isso não significa que o árbitro deva permitir que um atleta permaneça indefinidamente em uma posição sem tentar avançar ou produzir ações relevantes. O controle precisa estar associado a uma intenção ofensiva, e a arbitragem tem a responsabilidade de impedir que o combate se transforme em uma disputa sem desenvolvimento. A questão é encontrar um equilíbrio que não penalize automaticamente o lutador que está executando uma estratégia legítima de grappling.
Wrestling, judô e jiu-jítsu enfrentam o mesmo dilema
Embora o confronto entre Moicano e Nolan tenha colocado o jiu-jítsu no centro da discussão, o problema não se limita aos especialistas em finalizações. Wrestlers e judocas também precisam lidar com a dificuldade de transformar sua superioridade técnica em resultados dentro do octógono.
No wrestling, por exemplo, uma queda bem executada pode representar o início de uma sequência de controle, mas nem sempre garante que o atleta consiga manter o adversário no solo. A defesa de quedas evoluiu, e muitos lutadores desenvolveram recursos para voltar rapidamente à posição em pé, utilizar a grade como apoio e dificultar a estabilização do controle por cima. Em algumas situações, o grappler consegue derrubar repetidamente, mas encontra dificuldades para transformar essas ações em domínio prolongado.
O judô enfrenta um desafio semelhante, embora suas características sejam diferentes. Projeções e desequilíbrios podem oferecer oportunidades importantes para controlar o adversário, mas a adaptação ao MMA exige atenção às transições e à possibilidade de o oponente utilizar a grade para evitar determinadas posições. A capacidade de derrubar precisa estar conectada a um plano de continuidade no chão, porque a pontuação e o impacto de uma queda não garantem, isoladamente, o controle do combate.
O jiu-jítsu, por sua vez, depende de uma combinação de controle, transições e ameaças de finalização. A guarda, as raspagens e as posições de costas continuam sendo ferramentas relevantes, mas os adversários conhecem cada vez melhor as principais armadilhas e conseguem adotar posturas defensivas mais eficientes. O especialista precisa encontrar maneiras de transformar essas posições em dano ou em oportunidades concretas de encerramento da luta.
Em todas essas modalidades, o desafio é semelhante: o conhecimento defensivo se disseminou, enquanto o grappler precisa continuar encontrando soluções ofensivas contra adversários que treinam especificamente para neutralizá-las. O especialista não pode depender apenas de sua formação original. Precisa integrar wrestling, jiu-jítsu, judô, controle na grade e trocação para criar um sistema que funcione dentro das particularidades do MMA.
O UFC também influencia o espaço dos grapplers
A discussão ganha outra dimensão quando se considera o ambiente competitivo do UFC. O desempenho esportivo é fundamental, mas a construção de lutas também envolve popularidade, interesse comercial e decisões da organização sobre quais confrontos deseja promover. Isso não significa que o mérito deixou de importar, mas que a trajetória de um atleta nem sempre é determinada exclusivamente por seus resultados.
O caso de Arman Tsarukyan ilustra esse problema por outro ângulo. O peso-leve construiu uma sequência de resultados que o colocou entre os principais nomes da divisão, tornou-se uma figura reconhecida pelo público e manteve seu nome em evidência mesmo sem uma luta marcada. Ainda assim, seu caminho até uma nova oportunidade de disputar o cinturão parecia depender de decisões que não estavam inteiramente sob seu controle.
A situação ficou mais evidente diante das conversas envolvendo uma possível luta entre Alexander Volkanovski e Justin Gaethje. Dana White demonstrou disposição para organizar o confronto caso os dois demonstrassem interesse, enquanto Tsarukyan parecia permanecer fora das prioridades imediatas da organização. A diferença entre o mérito esportivo e a escolha de uma luta de grande apelo comercial mostra como o caminho até uma disputa de título pode ser influenciado por fatores que vão além do desempenho dentro do octógono.
Tsarukyan não é apenas um grappler, e sua qualidade no wrestling é uma das várias ferramentas que utiliza para vencer. Ainda assim, seu caso ajuda a compreender a dificuldade enfrentada por atletas cuja trajetória esportiva depende de reconhecimento técnico e de resultados consistentes. Quando a organização prioriza outros confrontos, o lutador pode cumprir suas obrigações competitivas e continuar esperando por uma oportunidade.
A questão é especialmente relevante para atletas que constroem seu jogo em torno do controle e da eficiência. O público costuma valorizar nocautes e finalizações espetaculares, enquanto vitórias baseadas em quedas, domínio posicional e administração de ritmo podem receber menos atenção. Isso não significa que o UFC ignore os grapplers, mas cria um ambiente no qual a maneira de vencer influencia a percepção sobre o valor comercial de um atleta.
O futuro exige grapplers mais completos, mas também critérios mais consistentes
A tendência é que os especialistas continuem evoluindo e encontrem novas maneiras de superar defesas cada vez mais sofisticadas. O grappler moderno precisa saber derrubar, controlar, atacar e transitar entre diferentes posições, mas também deve desenvolver uma trocação capaz de impedir que o adversário concentre toda a estratégia em evitar o chão. Quanto mais previsível for seu caminho para a vitória, mais fácil será para os oponentes preparar uma defesa específica.
Ao mesmo tempo, a evolução técnica dos lutadores não resolve todos os problemas. A arbitragem precisa oferecer critérios consistentes para avaliar a atividade no chão, reconhecendo que controle posicional e progressão fazem parte do combate. Se um atleta conquista uma posição dominante e trabalha para atacar, não deveria ser tratado como alguém que está simplesmente paralisando a luta porque seu adversário consegue resistir.
O MMA nasceu como um ambiente de confronto entre diferentes modalidades, e sua evolução depende justamente da possibilidade de cada especialidade demonstrar suas vantagens. Com o passar dos anos, o esporte se tornou mais complexo e os atletas passaram a combinar diferentes estilos, mas isso não deveria significar que determinadas ferramentas percam espaço por interpretações que favoreçam artificialmente outra forma de lutar.
O confronto entre Moicano e Nolan não prova que os grapplers estão sendo prejudicados de maneira sistemática, tampouco permite concluir que a arbitragem foi responsável pelo resultado. Ainda assim, serve como ponto de partida para uma discussão necessária sobre o reconhecimento do trabalho no chão. O brasileiro conseguiu impor sua especialidade, conquistou uma posição dominante e teve sua estratégia interrompida antes que pudesse desenvolver completamente o ataque.
A solução não passa por proteger os grapplers de adversários que sabem se defender, nem por exigir que o MMA retorne às condições dos primeiros anos do esporte. A defesa faz parte da evolução e precisa ser valorizada. O desafio está em garantir que o controle, as quedas e a progressão posicional continuem sendo reconhecidos como formas legítimas de vencer.
No fim, o grappling não está desaparecendo do MMA. Está enfrentando uma competição técnica cada vez mais preparada e um ambiente no qual a eficiência precisa ser acompanhada de atividade ofensiva perceptível. Para os especialistas, o caminho passa por se tornarem lutadores mais completos. Para o esporte, passa por assegurar que a vitória continue sendo decidida pelo que acontece dentro do octógono, sem que critérios inconsistentes reduzam o valor de uma das dimensões fundamentais do combate.



