(por Daniel Morales)Lembro até hoje de 2008. Com certeza a maior dor que tive no esporte e no Fluminense. Até me sinto um velho quando converso com torcedores mais jovens e eles me falam que não lembram daquele ano, daquela campanha. Sou daquele tipo de torcedor que não consegue sequer ver algo daquela final contra a Liga de Quito. Só de pensar, os olhos se enchem de lágrimas e garganta dá um nó. Dia 2 de julho de 2008, um dos dias mais tristes da minha vida. Mas a vida é engraçada. Já se passaram 15 anos daquele dia e aqui estamos mais uma vez, prestes a jogar outra final de Copa Libertadores no Maracanã, a chance daquela ferida finalmente cicatrizar, de exorcizarmos esse demônio, de enterrar essa dor é real. Mas se eu te falasse em dezembro de 2018 que em novembro de 2023 isso seria realidade, eu estaria delirando. No dia 2 de dezembro de 2018, estava junto dos meus amigos no Maracanã, angustiados e com medo de serem rebaixados. Um clube abandonado, sem patrocinador master onde jogadores medíocres se recusaram a jogar, perspectiva zero. Vitória sofrida contra o América-MG e sentimento de alívio. A caminhada do Fluminense rumo a final em 2023, começou ali, no pênalti pegado por Júlio César e no gol de Richard. O ano de 2019 foi um inferno. Caos político no clube, eleições antecipadas e mais uma briga contra o rebaixamento. Mas ali foi plantada a semente que deu frutos quatro anos depois. Chegavam Paulo Henrique Ganso, Nino e Fernando Diniz, com sua primeira passagem pelo clube. E claro, eleição de Mário Bittencourt. Após jogos ruins no brasileiro, Diniz foi mandado embora e Marcão assumiu e salvou o time do rebaixamento em 2019. Além disso, o torcedor tricolor teve que aturar o arquirrival ser campeão da América naquele ano. Dia 28 de novembro daquele ano, vitória sobre o Palmeiras embaixo de um chuvoso dia no Maracanã. Eu me desabo em lágrimas no setor leste, era um alívio enorme. Ali a chave virou para o Fluminense. Em 2020, em meio ao caos da pandemia do Covid-19, um Fluminense repleto de jovens da base e com o retorno do ídolo Fred, voltava a se classificar para a Copa Libertadores. No ano seguinte, grupo da morte, mas mesmo assim passamos em primeiro no grupo do River Plate. Porém, a mediocridade ainda pairava no Fluminense, queda nas quartas de final para o fraco Barcelona do Equador. O ano era 2022, foi aí que as coisas começaram a se acertar. Apesar da queda precoce na pré-Libertadores para o Olimpia, aquela temporada foi onde o Flu chegou a uma nova prateleira. Campeão carioca em cima do maior rival, semifinal da Copa do Brasil e o principal, Fernando Diniz retorna ao Fluminense e jogando o melhor futebol da América do Sul, leva o Fluminense ao terceiro lugar do campeonato brasileiro. E foi também em 2022 que chegou ele, Germán Cano. Após uma frustrante Série B no Vasco, o atacante chegou para mudar a vida do tricolor das Laranjeiras. Gols decisivos, gols em clássicos e idolatrado pela torcida. Artilheiro de um time que jogava por música. Chegou o ano de 2023. E com ele a sensação de que esse seria o nosso ano. “Vamos tricolores, chegou a hora vamos ganhar a Libertadores”. E para ir em busca desse sonho, a contratação de Marcelo veio para nos dar ainda mais esperanças. Um craque lendário voltando para sua casa. Na fase de grupos, drama. Após derrotar o Sporting Cristal no Peru, Ter Strongest e golear o River Plate no Maracanã, os últimos três jogos fizeram com que o Fluminense ficasse a um gol sofrido de dar adeus a competição. Argentino Jrs nas oitavas. Na ida, Marcelo foi expulso após um acidente de trabalho, e gol antológico de Samuel Xavier. O lateral direito seria decisivo de novo na volta no Maracanã e com outro golaço. Estamos nas quartas, pela frente um velho carrasco: o Olimpia. Passamos pelo Olimpia com tranquilidade, direito a um 3 a 1 em Assunção. Nas semifinais o Internacional. Jogaço no Maracanã, porém a expulsão de Samuel Xavier somado a virada do time gaúcho nos fizeram acreditar que tudo estava acabado. Porém, Germán Cano, com um gol que ninguém explica, empatou e fez com que a torcida tricolor chorasse de emoção. Uma batalha no Beira Rio nos esperava. Não acreditei quando vi o gol de Mercado, após falha de Fábio, que tropeçou em Nino. Pensei: não podemos ser eliminados com uma falha do nosso melhor jogador no ano. O Inter perdeu gol atrás de gol, e quando John Kennedy entrou no segundo tempo, uma voz cantou nos meus ouvidos: “ele fará o gol de empate”. E o metafísico não errou. O moleque cobriu Rochet e empatou o jogo no Beira Rio. E ele seria decisivo de novo. Passe de calcanhar e gol de Germán Cano, o Fluminense estava na final da Libertadores 15 anos depois. Depois 15 anos depois e aqui estou eu. Vivendo uma das semanas mais nervosas e tendo ataques de ansiedade. Uma mistura de confiança e medo. Pela frente, o super campeão Boca Juniors que chegou até a decisão com três vitórias nos pênaltis. Aquela noite de 2 de julho de 2008 pode finalmente acabar, e essa ferida finalmente se cicatrizar.
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