O Ajax já não é o mesmo Ajax de outros tempos. Nas últimas temporadas, o tradicional clube holandês ficou distante do nível competitivo esperado de um campeão da Eredivisie. Na temporada 2025/26, por exemplo, terminou 28 pontos atrás do PSV, evidenciando a distância que ainda precisa ser recuperada.
Em outros momentos, como durante o trabalho de Farioli, o problema esteve também no estilo de jogo, considerado irreconhecível para os padrões históricos do clube. Agora, o desafio está nas mãos de Míchel, que terá a missão de devolver ao Ajax a competitividade e a identidade que marcaram sua história.
Jordi Cruyff reformula o elenco do Ajax
O trabalho de Jordi Cruyff como diretor esportivo durante o verão foi intenso. Ao todo, o Ajax realizou 11 contratações e 12 saídas, em uma profunda reformulação do elenco.
“Meu trabalho como diretor esportivo é criar um elenco no qual o treinador tenha todas as armas”, afirmou Jordi em entrevista recente ao canal oficial do Ajax no YouTube.
A ideia por trás da reformulação foi encontrar o equilíbrio entre jogadores experientes, capazes de atuar sob pressão e entregar rendimento imediato, e os jovens talentos do clube, que precisam de veteranos ao seu redor para evoluir.
O processo também exigiu decisões difíceis. Entre as saídas estiveram jogadores considerados promissores nos últimos anos, como Mika Godts e Sean Steur. Segundo Jordi, algumas decisões “a nível humano não são agradáveis”, mas eram necessárias para construir o elenco desejado.
O resultado é uma equipe que, pelo menos em nomes, aparece entre as mais fortes do Ajax nas últimas décadas.
Ter Stegen e Blind representam a experiência
Entre os reforços de maior destaque está Marc-André ter Stegen. O goleiro é um jogador de confiança de Míchel, que já trabalhou com ele no Girona e agora espera ajudá-lo a recuperar o ritmo depois dos problemas físicos que o afastaram dos gramados.
Outro nome experiente é Daley Blind, que retorna ao Ajax para sua terceira passagem pelo clube. A presença dos dois representa justamente a experiência que Jordi Cruyff considerava necessária para acompanhar os jovens.
Mas o elenco não depende apenas dos veteranos. Jogadores como Viktor Tsygankov, Thilo Kehrer, Sofyan Amrabat, Julian Brandt, Simon Adingra e Marcos Leonardo também chegam com a expectativa de aumentar consideravelmente o nível da equipe.
Ataque do Ajax passa por grande transformação
O setor ofensivo foi praticamente reconstruído. A expectativa é que Tsygankov e Adingra briguem rapidamente por espaço entre os titulares assim que estiverem disponíveis para Míchel.
No entanto, uma das principais incógnitas está na posição de centroavante. O Ajax não conta com um jogador considerado totalmente confiável para a função desde os períodos de Sébastien Haller e Brian Brobbey.
Para solucionar o problema, o clube contratou Tolu Arokodare e Marcos Leonardo, dois atacantes com características bastante diferentes.
O nigeriano é um centroavante de referência, forte fisicamente e capaz de jogar de costas para o gol, além de atuar bem dentro da área. Já Marcos Leonardo apresenta maior mobilidade e, pelo perfil e pela idade, é visto como um jogador com grande potencial de crescimento.
O início do brasileiro, porém, não foi dos melhores. Marcos Leonardo vem encontrando dificuldades para transformar suas oportunidades em gols nos primeiros meses no clube, algo que Míchel precisará trabalhar.
Amrabat e Brandt dão novo nível ao meio-campo
O meio-campo também recebeu atenção especial durante a reformulação. O Ajax precisava de um volante de referência há algumas temporadas, e encontrou em Sofyan Amrabat o jogador para ocupar esse espaço.
Ex-Feyenoord, o marroquino chega com a responsabilidade de liderar o setor e organizar a equipe. Sua importância pode ser enorme para o funcionamento do time: se Amrabat estiver bem, a tendência é que o próprio Ajax consiga apresentar um futebol mais equilibrado.
Ao lado dele, Julian Brandt aparece como outro dos principais nomes do elenco. O alemão, que passou pelo Borussia Dortmund, chega com um nível técnico que pode colocá-lo acima da média da competição.
Para Míchel, Brandt pode se transformar no jogador especial do time, aquele capaz de decidir partidas com qualidade individual e criatividade.
Defesa ganha reforços, mas mantém uma liderança
Na defesa, além da chegada de Ter Stegen, o Ajax contratou Kehrer, Caio Henrique e Jofre Torrents. O setor direito, porém, ainda apresenta algumas dúvidas, principalmente porque já era considerado uma posição carente na temporada passada.
Kehrer pode ser uma solução justamente por sua capacidade de atuar também pelo lado direito.
Mas talvez a decisão mais importante tenha sido manter Baas no elenco. O defensor esteve perto de deixar o Ajax, com o Eintracht aparecendo como interessado nos últimos dias da janela de transferências.
A saída, porém, não aconteceu. Agora, Baas pode assumir um papel de liderança na defesa. Sua atuação contra o PSV foi um exemplo do que Míchel e o clube esperam dele, com o jogador demonstrando autoridade e personalidade.
Míchel tem um grande desafio pela frente
O verão foi bastante movimentado em Amsterdã. Mesmo com tantas mudanças, o Ajax terminou a janela com um saldo positivo de 55,6 milhões de euros, enquanto entregou a Míchel um elenco profundamente reformulado.
Por isso, o treinador terá poucas desculpas caso a equipe não consiga evoluir ao longo da temporada. Ao mesmo tempo, ainda é cedo para fazer qualquer avaliação definitiva.
Muitos dos reforços ainda estão sendo integrados ao sistema de jogo, e apenas Adingra ainda não fez sua estreia. O processo de adaptação naturalmente levará tempo.
A trajetória de Míchel faz com que o técnico espanhol tenha crédito para conduzir essa reconstrução. O desafio, entretanto, é enorme.
A expectativa em Amsterdã voltou a crescer depois de um período de instabilidade. Com 11 reforços, experiência, juventude e jogadores capazes de mudar o nível técnico da equipe, o Ajax tenta finalmente recuperar a competitividade que perdeu.
A esperança existe. Mas a pressão também.
(Fotos: Pro Shots e ANP via IMAGO)



