A derrota por 3 a 0 para o Arsenal na Community Shield não deve ser tratada apenas como um tropeço de pré-temporada para o Manchester City. O primeiro jogo oficial da era Enzo Maresca revelou problemas estruturais que vão muito além da falta de entrosamento de um elenco que ainda passa por mudanças. O Arsenal encontrou espaços na saída de bola, criou superioridade numérica no meio-campo e explorou uma defesa que pareceu pouco preparada para lidar com rotações e movimentações fora do padrão.
O cenário é especialmente preocupante porque os problemas apareceram justamente em situações que fazem parte da identidade que Maresca pretende implementar. O treinador precisa encontrar soluções para que o City consiga construir desde trás sem ficar vulnerável à pressão, ocupar o meio-campo sem perder jogadores em posições perigosas e, principalmente, proteger uma defesa que perdeu uma referência fundamental com a saída de Rodri para o Barcelona.
O resultado pode ter vindo em um jogo de caráter especial, mas o desempenho deixou três questões que Maresca precisará resolver rapidamente.
A saída de bola de Maresca funcionou até o Arsenal descobrir como pressioná-la
Um dos principais problemas do City apareceu ainda na primeira fase de construção. Maresca organizou a saída de maneira bastante característica: os zagueiros abriam pelos lados, enquanto Mateo Kovacic tinha liberdade para circular pelo espaço central e oferecer uma linha de passe. Elliot Anderson, por sua vez, procurava se aproximar de Phil Foden, criando uma estrutura capaz de gerar superioridade na primeira fase da construção.
Inicialmente, a movimentação funcionou. O City conseguia escapar da primeira pressão e encontrar jogadores entre as linhas. O problema surgiu quando Anderson e Foden começaram a perder a referência dos espaços que deveriam ocupar. Os dois passaram a recuar simultaneamente, aproximando-se demais da linha defensiva e, em vez de oferecer soluções diferentes, começaram a ocupar praticamente a mesma zona do campo.
Isso prejudicou toda a saída. Kovacic passou a ter menos opções para progredir, os zagueiros ficaram mais expostos e o Arsenal ganhou condições de pressionar a construção com muito mais facilidade. O terceiro gol é o melhor exemplo disso: a estrutura do City já não conseguia oferecer uma saída limpa, e a pressão adversária transformou uma dificuldade de posicionamento em uma oportunidade clara.
O problema, portanto, não foi simplesmente “sair jogando mal”. Foi a perda das referências posicionais durante a própria saída. Maresca terá de definir com muito mais clareza quem ocupa cada altura do campo quando o adversário pressiona.
O overload do City virou uma armadilha
Outro ponto importante foi a tentativa do City de criar superioridade numérica no meio-campo. Depois da primeira fase da construção, Nico O’Reilly frequentemente abandonava sua posição original e entrava por dentro para se juntar aos meio-campistas. A intenção era clara: criar um overload, ou seja, concentrar mais jogadores em determinada região para obrigar o Arsenal a escolher entre acompanhar as movimentações ou conceder espaço.
O problema é que Arteta encontrou uma resposta simples e extremamente eficiente. Tzolis e Madueke passaram a fechar por dentro e atuar praticamente como meio-campistas adicionais. Em determinados momentos, o Arsenal conseguiu transformar o setor central em um 4 contra 3, neutralizando a superioridade que o City pretendia criar.
Isso gera uma questão importante para Maresca: se os extremos adversários continuarem abandonando os corredores para acompanhar as movimentações internas do City, quem ficará responsável por ocupar a última linha?
A solução pode passar por uma mudança na função de Erling Haaland. O norueguês atuou novamente muito próximo do conceito de um poacher, permanecendo como referência mais avançada e esperando que a equipe produzisse as condições para que pudesse finalizar. Contra uma equipe capaz de fechar os espaços centrais, talvez seja necessário pedir mais mobilidade ao atacante e transformá-lo, em determinados momentos, em uma espécie de falso 9.
Outra alternativa seria modificar a estrutura ofensiva e utilizar um 4-4-2, aproximando Haaland de outro atacante e criando diferentes referências para a defesa adversária. O objetivo seria simples: impedir que o adversário consiga concentrar jogadores no meio sem pagar um preço nos corredores ou na última linha.
Maresca precisará, portanto, encontrar uma maneira de fazer seus overloads produzirem vantagem real. Ter mais jogadores em determinada zona não significa necessariamente ter superioridade se o adversário consegue acompanhar a movimentação sem perder o controle do restante do campo.
A defesa ficou exposta às rotações do Arsenal
O problema mais preocupante, porém, talvez esteja na fase defensiva. O City demonstrou dificuldades para acompanhar as rotações do Arsenal e ficou constantemente exposto quando um jogador adversário abandonava sua posição original para ocupar um espaço inesperado.
O primeiro gol resume perfeitamente essa dificuldade. Riccardo Calafiori apareceu em uma zona que não correspondia à sua posição inicial e encontrou espaço para finalizar. A movimentação não deveria, por si só, desmontar uma estrutura defensiva de alto nível. O problema é que o City demorou a identificar quem deveria acompanhar o italiano.
Essa vulnerabilidade se repetiu em outros momentos. Quando o Arsenal deslocava jogadores para zonas diferentes das habituais, o City precisava reorganizar rapidamente suas referências. Em vez disso, muitas vezes parecia reagir à movimentação apenas depois que o espaço já havia sido criado.
A saída de Rodri para o Barcelona torna essa questão ainda mais relevante. O espanhol não era apenas um jogador responsável pela recuperação da bola. Sua presença funcionava como uma espécie de mecanismo de segurança para toda a estrutura. Rodri interpretava os espaços, cobria os companheiros e conseguia interromper transições antes que elas se transformassem em situações perigosas.
Mas seria simplista colocar todos os problemas na ausência de Rodri. O desafio de Maresca é estrutural. O City precisa desenvolver mecanismos coletivos para lidar com movimentações que tirem seus defensores de suas zonas de conforto.
O primeiro grande teste da era Maresca foi um fiasco
A Community Shield não define uma temporada, mas pode oferecer pistas importantes sobre o que um treinador precisa corrigir. E o Manchester City deixou muitas delas.
O talento individual continua enorme. Foden, Haaland, Doku e os demais jogadores do elenco oferecem capacidade suficiente para transformar qualquer sistema em uma ameaça. Mas o futebol de elite exige mais do que reunir grandes jogadores. É preciso garantir que suas movimentações produzam vantagens sem, ao mesmo tempo, desmontar a própria estrutura.
O Arsenal mostrou exatamente isso. Não venceu apenas porque foi mais eficiente nas áreas. Venceu porque conseguiu entender a estrutura do City e atacar suas fragilidades. Esse talvez seja o maior alerta para Maresca. Se os problemas apresentados em Cardiff se repetirem contra adversários capazes de pressionar alto e atacar os espaços, o City poderá descobrir que a reconstrução pós-Rodri é muito mais profunda do que simplesmente encontrar um substituto para o espanhol.
A primeira missão de Maresca, portanto, não será fazer o City jogar melhor. Será fazer o City deixar de se desmontar quando o adversário descobrir como atacá-lo.
(Foto: Getty Images)



