Depois de duas temporadas consecutivas terminando na 17ª colocação da Premier League, o Tottenham chega à temporada 2026/27 tentando finalmente deixar para trás um dos períodos mais decepcionantes de sua história recente. A equipe flertou seriamente com o rebaixamento na última campanha e precisou de uma reação na reta final para evitar um desastre ainda maior.
A esperança agora está depositada em Roberto De Zerbi. O treinador assumiu o comando do Tottenham no fim da temporada passada e teve apenas sete partidas para trabalhar antes de garantir a permanência na elite. Foi pouco tempo para implementar suas ideias, especialmente diante de um elenco afetado por uma quantidade enorme de lesões.
Desta vez, porém, o cenário é diferente. De Zerbi teve uma pré-temporada completa para preparar a equipe, participou diretamente das decisões do mercado e recebeu investimentos importantes para montar um elenco mais próximo de suas ideias. O clube também não terá competições europeias para disputar, o que pode fazer uma diferença enorme na rotina de uma equipe que sofreu bastante fisicamente nos últimos anos.
A pergunta é até onde esse novo Tottenham pode chegar. Voltar à metade de cima da tabela parece um objetivo bastante realista, mas existe espaço para sonhar com uma vaga europeia? E, principalmente, será que as escolhas feitas neste verão serão suficientes para transformar o clube em uma equipe competitiva novamente?
Até onde De Zerbi vai levar seu estilo de jogo?
Roberto De Zerbi é conhecido por querer que suas equipes tenham a bola e construam as jogadas desde a defesa. O problema é que implementar esse estilo no Tottenham não acontece da noite para o dia, especialmente em um elenco que passou boa parte da última temporada tentando simplesmente sobreviver na Premier League.
Durante sua passagem pelo Brighton, o treinador precisou de tempo para fazer sua equipe atingir o nível de construção que desejava. No primeiro ano, o jogo ainda era relativamente direto em determinados momentos. Na temporada seguinte, porém, o time se tornou uma das equipes mais comprometidas com a saída curta e a circulação paciente da bola em toda a competição.
No Tottenham, a tendência é que o processo seja semelhante. O clube investiu justamente em jogadores capazes de ajudar nessa construção, e a presença de Marcos Senesi e Jan Paul van Hecke oferece novas possibilidades para iniciar as jogadas desde trás.
Senesi, inclusive, foi o jogador de linha que mais tentou passes longos na Premier League na última temporada, com 477 tentativas, além de liderar também em bolas longas completadas, com 182. Pedro Porro também aparece entre os melhores da competição nesses números, mostrando que o elenco possui alternativas para variar a saída de bola.
Isso pode ser importante porque De Zerbi não precisa transformar o Tottenham em uma caricatura de seu próprio estilo. Em determinadas partidas, especialmente contra equipes que pressionarem muito alto, utilizar bolas longas pode ser uma excelente forma de escapar da pressão.
O desafio será encontrar o equilíbrio entre insistir na filosofia e reconhecer quando é necessário ser pragmático. Afinal, não adianta querer sair jogando como se cada partida fosse uma aula de futebol posicional se o adversário estiver esperando justamente por esse erro.
De onde sairão os gols?
Esse talvez seja o maior problema do Tottenham antes do início da temporada.
Nas últimas três temporadas, o clube perdeu seu principal artilheiro da campanha anterior. Harry Kane saiu antes da temporada 2023/24, Son Heung-min deixou o elenco posteriormente e Brennan Johnson também foi negociado depois de terminar como principal goleador.
Richarlison, artilheiro do Tottenham na temporada passada, ainda pode permanecer, mas está longe de representar uma garantia de gols durante toda a campanha. O atacante também conviveu com problemas físicos e não pode ser tratado como uma solução única para o setor ofensivo.
Os números mostram a dimensão do problema. Na última temporada, 39,6% dos gols do Tottenham vieram de bolas paradas, a maior proporção entre todas as equipes da Premier League. João Palhinha, Cristian Romero e Micky van de Ven, todos defensores ou meio-campistas de características mais defensivas, estiveram entre os principais goleadores da equipe.
Isso dificilmente pode continuar sendo a principal estratégia ofensiva.
O cenário fica ainda mais preocupante quando olhamos para o departamento médico. Dominic Solanke, Dejan Kulusevski, Mohammed Kudus, Xavi Simons e Wilson Odobert começaram a preparação enfrentando problemas físicos. Alguns podem retornar em breve, mas o histórico recente do clube mostra que não existe espaço para muita confiança nesse aspecto.
O Tottenham conta atualmente com opções jovens como Mikey Moore e Mathys Tel, mas depender exclusivamente de jogadores de 19 e 21 anos para resolver uma temporada inteira seria uma aposta bastante arriscada.
Por isso, encontrar gols precisa ser uma prioridade. De Zerbi pode melhorar a produção ofensiva através do sistema, mas não existe treinador capaz de fabricar sozinho uma quantidade suficiente de finalizações perigosas se as principais peças estiverem constantemente fora de combate.
Tottenham conseguirá escapar de outra crise de lesões?
Falar de lesões virou quase uma tradição indesejada no Tottenham.
Nas últimas duas temporadas, o clube enfrentou problemas físicos em escala suficiente para comprometer completamente o desempenho da equipe. Em 2024/25, a temporada terminou com o título da Liga Europa, mas também com um 17º lugar na Premier League. Na campanha seguinte, o time disputou a Liga dos Campeões e novamente terminou na mesma posição, chegando muito perto de uma briga ainda mais perigosa contra o rebaixamento.
A ausência de futebol europeu nesta temporada pode ser uma bênção disfarçada.
O Tottenham terá menos partidas e mais tempo para treinar, recuperar jogadores e preparar cada compromisso da Premier League. Isso pode ser especialmente importante para um elenco que sofreu com problemas musculares e lesões graves nos últimos anos.
Além disso, o clube tentou aumentar a resistência física do grupo no mercado. Jan Paul van Hecke, Marcos Senesi, Sandro Tonali e Mateus Fernandes tiveram temporadas bastante consistentes em termos de disponibilidade, participando de 36, 37, 35 e 36 partidas de Premier League, respectivamente.
A ideia é simples: ter mais jogadores disponíveis.
Pode parecer uma preocupação básica, mas foi justamente algo que faltou ao Tottenham recentemente. De nada adianta construir um elenco talentoso se metade das peças mais importantes estiver assistindo aos jogos do departamento médico.
Como será a nova defesa?
A defesa do Tottenham praticamente passou por uma reforma durante o verão.
Cristian Romero e Djed Spence deixaram o clube, enquanto Guglielmo Vicario também está próximo da saída. Para ocupar os espaços, chegaram Marcos Senesi, Jan Paul van Hecke e Andy Robertson, enquanto Antonín Kinsky assumiu a posição de titular no gol.
Micky van de Ven, Destiny Udogie, Pedro Porro e Kevin Danso também continuam como alternativas importantes. Em termos individuais, portanto, De Zerbi possui bastante qualidade à disposição.
O problema é fazer todas essas peças funcionarem juntas.
Na temporada passada, o Tottenham sofreu 57 gols na Premier League. Apesar de o número parecer alto, foi a melhor marca defensiva do clube nas últimas quatro temporadas. O grande problema estava do outro lado do campo: a equipe marcou apenas 48 vezes.
Isso ajuda a explicar por que o clube terminou novamente tão perto do rebaixamento.
Senesi e Van Hecke podem contribuir especialmente na construção. Os dois ficaram entre os melhores da Premier League em passes que quebram linhas na última temporada, algo que combina perfeitamente com o futebol desejado por De Zerbi.
Mas existe uma questão que não pode ser ignorada: equipes do treinador italiano nunca foram exatamente conhecidas por sua solidez defensiva.
O Brighton sofreu 53 gols quando terminou em sexto lugar na Premier League em 2022/23 e levou 62 na temporada seguinte, quando terminou na 11ª colocação. O Tottenham provavelmente não poderá esperar uma defesa que simplesmente feche a porta e jogue a chave fora.
O objetivo será encontrar um equilíbrio melhor entre controlar a posse, atacar com qualidade e não oferecer espaços demais quando perder a bola.
Mudança de estratégia no mercado pode custar caro?
Talvez essa seja a questão mais importante para o futuro do Tottenham.
O clube passou anos defendendo uma estratégia baseada em jovens jogadores, desenvolvimento e planejamento de longo prazo. Neste verão, porém, a influência de De Zerbi parece ter mudado algumas prioridades.
O treinador queria participar diretamente das decisões relacionadas ao mercado, e as contratações realizadas mostram uma preferência clara por jogadores preparados para contribuir imediatamente.
O investimento mais impressionante foi feito no meio-campo. O Tottenham gastou cerca de £185 milhões nas contratações de Mateus Fernandes e Sandro Tonali, uma aposta enorme em dois jogadores que precisam rapidamente justificar o investimento.
Ao mesmo tempo, algumas saídas de jovens jogadores incomodaram parte da torcida. Luka Vuskovic foi negociado com o Brighton, enquanto Will Lankshear seguiu para o Middlesbrough. A situação envolvendo Lucas Bergvall também alimentou dúvidas sobre o espaço que jogadores jovens terão no novo projeto.
Existe uma lógica na decisão de priorizar o presente. Afinal, o Tottenham não pode continuar planejando um futuro distante enquanto passa duas temporadas consecutivas lutando contra o rebaixamento.
O problema é que essa estratégia já foi testada anteriormente.
As contratações de peso realizadas durante as passagens de José Mourinho e Antonio Conte também tinham como objetivo acelerar o processo e transformar o clube em candidato a títulos. Nenhum dos dois projetos conseguiu entregar o resultado esperado.
De Zerbi terá a missão de provar que a história pode ser diferente desta vez.
Tottenham pode voltar à metade de cima da Premier League?
Existe uma sensação de que o Tottenham tem condições de melhorar bastante em 2026/27, mas o tamanho dessa evolução ainda é uma incógnita.
O clube conta com um treinador que finalmente teve tempo para trabalhar, um elenco remodelado e a vantagem de não precisar disputar competições europeias. Além disso, jogadores importantes podem retornar gradualmente ao time, aumentando a qualidade disponível para De Zerbi.
A temporada passada mostrou que o Tottenham não estava tão distante em termos de talento individual quanto a 17ª colocação poderia sugerir. O grande problema foi conseguir transformar esse talento em uma equipe funcional durante uma sequência marcada por lesões, instabilidade e pouca capacidade ofensiva.
Agora, o cenário é outro.
Se De Zerbi conseguir implementar seu estilo sem abrir mão de algum pragmatismo, se os reforços encaixarem rapidamente e se o departamento médico finalmente permitir que os principais jogadores tenham sequência, o Tottenham poderá voltar a olhar para cima na tabela.
A cobrança, entretanto, também será maior. O investimento feito pelo clube e a influência concedida ao treinador criam uma expectativa de resultados imediatos.
Depois de duas temporadas terminando em 17º lugar, terminar no meio da tabela já representaria uma melhora significativa. Uma classificação para competições europeias, por outro lado, transformaria a temporada em algo muito mais especial.
O Tottenham entra em 2026/27 com muitas perguntas, mas pela primeira vez em algum tempo parece ter algumas respostas possíveis. Agora falta descobrir se De Zerbi conseguirá fazer todas elas funcionarem ao mesmo tempo — e, principalmente, se os Spurs finalmente conseguirão transformar uma promessa de reconstrução em uma realidade dentro de campo.
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