Antonio Conte Milan
Futebol Serie A

Análise tática: o Napoli divertido e renovado de Antonio Conte

O polêmico, teimoso e muitas vezes difícil de lidar treinador italiano Antonio Conte sempre foi sinônimo de brigas e de um time com ênfase defensiva. No entanto, desde que assumiu o Napoli, Conte mudou sua abordagem em vários aspectos, tornando-se menos enérgico à beira do campo e nas entrevistas coletivas, mas também mais equilibrado em seu estilo de jogo.

A importância de Conte para o Napoli vai muito além do aspecto técnico, já que ele também trabalha bem o psicológico da equipe. O time napolitano terminou em uma decepcionante décima colocação na temporada passada, após a saída de Luciano Spalletti, que deixou a equipe depois de conquistar um título histórico da Serie A. Isso acabou sendo positivo para Conte, que teve menos jogos e mais tempo para treinar e implementar seu novo estilo tático.

Após um começo ruim, com uma derrota por 3 a 0, Conte adotou um novo estilo e viu seu Napoli crescer na temporada. A equipe lidera a Serie A e sofreu apenas 15 gols no ano. Sem competições europeias para disputar, o foco do time se tornou o retorno à Champions League e, em janeiro, parece que eles estão muito perto de conquistar esse objetivo.

Neste texto, vamos abordar a mudança tática que fez Conte e o Napoli se renovarem.

Aprendizado com fracassos no passado

Antes do Napoli, Conte era conhecido por ser um treinador vitorioso, mas pouco versátil em suas táticas. Ele sempre foi defensor do tradicional Catenaccio italiano, com uma linha de três na defesa na fase ofensiva, que se transformava em uma linha de cinco na fase defensiva. Além disso, seus times focavam em bolas longas e contra-ataques, adotando um estilo defensivo característico.

Sua passagem pelo Tottenham, no entanto, parece ter marcado o fim desse estilo. Enquanto a equipe teve dificuldades para acionar as bolas longas e não aproveitou o melhor de Harry Kane, Conte também se frustrou com as limitações de seus alas, Emerson Royal e Sergio Reguilón, para atacar e defender consistentemente durante os 90 minutos. Isso tornou os Spurs frágeis, e ele foi rotulado como um treinador ultrapassado.

Embora sua estrutura tática básica não tenha mudado e ele ainda seja um treinador com tendência defensiva, Conte trouxe algumas renovações para o Napoli: ocupação de espaço por aproximação, saída de bola curta e o uso de um atacante criador são algumas das novidades implementadas pelo italiano.

A ocupação de espaço por aproximação

A primeira mudança clara no Napoli de Conte é a forma como a equipe busca ocupar o espaço no campo com jogadores se aproximando, tanto pelos lados quanto pelo meio. A equipe abandonou a linha de três zagueiros e passou a utilizar quatro defensores, o que melhora a ocupação do meio de campo e cria “corredores” para a saída de bola com toques rápidos até os atacantes.

Essa criação de corredores faz com que o Napoli tenha mais jogadores presentes em todos os lados do campo. A movimentação de atletas como Scott McTominay e Romelu Lukaku permite que a equipe explore os espaços de forma mais eficaz. A maior ênfase na criação pelo meio-campo, entretanto, só é possível quando os laterais assumem uma postura ofensiva. Conte resolveu isso com uma solução clássica, mas sofisticada.

Quando o Napoli avança, um dos volantes (Stanislav Lobotka ou Frank Zambo Anguissa) ocupa o espaço entre os defensores para fazer a famosa “saída Lavolpiana”. Isso permite que os laterais avancem com maior liberdade, criando oportunidades para os pontas, Matteo Politano e David Neres (antes Kvicha Kvaratskhelia), ocuparem o meio-campo, gerando superioridade numérica e criando overloads.

McTominay e Lukaku: a importância da dupla de “renegados” no Napoli

Embora Kvaratskhelia seja frequentemente visto como o principal jogador do Napoli, dois outros nomes se destacam como peças fundamentais para Conte: Scott McTominay e Romelu Lukaku.

McTominay foi um dos principais jogadores do Manchester United na temporada passada. Em meio a lesões e problemas na equipe, o escocês anotou 10 gols e salvou vários pontos em um ano decepcionante para os Red Devils. Vendido pelo clube, uma decisão controversa que não agradou o técnico Erik Ten Hag, McTominay encontrou no Napoli o ambiente perfeito para brilhar.

Lukaku, por sua vez, finalmente encerrou sua apagada passagem pelo Chelsea, marcada por empréstimos e desentendimentos. O atacante belga esteve próximo de acertar com a Juventus, mas optou pelo Napoli, onde tem sido decisivo.

A combinação entre Lukaku e McTominay se tornou um dos principais trunfos do Napoli. A capacidade de Lukaku de segurar a bola e distribuir passes permite que McTominay ataque os espaços deixados pelos defensores adversários. Kvaratskhelia também tem se beneficiado dessas jogadas, com diagonais perigosas entre os zagueiros.

Com seis gols, McTominay pode superar sua marca da temporada passada no Manchester United com menos jogos disputados, enquanto Lukaku está a caminho de ter sua melhor temporada em assistências. Tudo isso é fruto de uma combinação letal entre jogadores e um treinador que conseguiu extrair o melhor de ambos.

A fase defensiva do Napoli

Enquanto McTominay é fundamental na fase ofensiva, sua versatilidade também contribui para a defesa. Quando o Napoli está sem a posse de bola, a equipe adota o tradicional 5-3-2 de Conte, com McTominay ocupando o meio-campo ao lado de Lobotka e Anguissa. Pela direita, Politano recua como ala, assumindo a posição de Giovanni Di Lorenzo, que age como um terceiro zagueiro.

O Napoli defende em bloco médio, não pressiona seus adversários com intensidade, mas se concentra em fechar os espaços entre as linhas, direcionando os ataques rivais para os lados. Lá, os cruzamentos são geralmente bloqueados ou cortados pela linha defensiva.

O diferencial, porém, está nos jogadores que ficam no ataque. Lukaku e Neres permanecem adiantados para aproveitar os contra-ataques. O perigo que representam faz com que os adversários mantenham três jogadores na defesa, garantindo que o Napoli raramente fique em desvantagem numérica na retaguarda.

Se os adversários avançam com mais jogadores, Lukaku usa sua habilidade de atrair a marcação para liberar espaços para os pontas em velocidade, enquanto McTominay surge pelo meio para completar as jogadas. Essa estrutura resulta em contra-ataques letais que criam inúmeras chances para o Napoli.

Portanto, o Napoli de Antonio Conte é uma verdadeira orquestra. Um time que, apenas pela aplicação do conceito de ocupação de espaço de seu treinador, transformou-se de um elenco quebrado psicologicamente e desorganizado taticamente em uma genuína potência do futebol mundial.

(Foto: Nigel Keene/LiveMedia)