O Manchester United vive uma das piores temporadas de sua história, e Ruben Amorim, contratado para ser o salvador, não parece estar conseguindo encaixar seu estilo de jogo, famoso no Sporting, nos Red Devils. Apesar dos desfalques e dos problemas que enfrenta desde sua chegada, sua insistência também vem sendo criticada.
Amorim fez um trabalho histórico no Sporting, levando a equipe a dois títulos portugueses, três títulos da Taça da Liga de Portugal e um título da Supertaça de Portugal. Esse sucesso fez com que ele fosse sondado por grandes equipes, como Liverpool e Paris Saint-Germain. No entanto, apenas um time conseguiu tirá-lo de seu país: o Manchester United.
Uma das razões para aceitar o trabalho no United era a ideia de que a equipe era uma “tela em branco” após a saída de Erik Ten Hag. Isso, porém, não era verdade e se tornou um dos empecilhos para que ele implementasse seu estilo de jogo. Outras dificuldades surgiram ao longo do tempo, e os Red Devils estão longe dos principais times da Premier League, tendo na Europa League sua única chance de disputar a Champions League no próximo ano.
Apesar de tudo, Ruben Amorim segue respaldado pela diretoria e pela torcida, mas até que ponto a má fase do United é culpa dele?
O estilo de jogo de Ruben Amorim
Amorim teve sucesso jogando no 3-4-3 no Sporting, no esquema chamado “árvore de Natal”, utilizando dois meias ofensivos, dois volantes (box midfield), alas bastante participativos e um atacante de área. Nos Leões, esse esquema revelou jogadores importantes, como Viktor Gyokeres, Pedro Gonçalves e Manuel Ugarte, que agora é seu jogador no United.
Seu estilo é essencialmente posicional e baseado na posse de bola, inspirado pelos espanhóis. Seus jogadores atacam espaços pré-determinados, muitas vezes com o ala entrando nas costas do marcador para dar amplitude ao time e liberar espaço entre a defesa para o centroavante e os meias ofensivos. Como joga com as linhas altas, os zagueiros participam muito da construção, e os volantes têm liberdade para atacar rebotes e manter a posse.
No entanto, como qualquer técnico português de renome, Amorim tem inspirações claras em José Mourinho. Quando necessário, sua equipe se fecha em uma linha de cinco defensores e três volantes, defendendo em um bloco médio/baixo e explorando contra-ataques. Uma de suas maiores atuações no Sporting seguiu esse padrão, com uma goleada sobre o Manchester City em casa.
Implementar esse estilo de jogo era o principal objetivo de Amorim no United e, acima de tudo, ele queria que seus jogadores comprassem essa ideia. No entanto, isso vem se mostrando um desafio, e há três motivos principais para isso.
As dificuldades de Ruben Amorim para implementar seu estilo de jogo
1 – O United nunca foi uma “tela em branco”
Embora não tenha sido bem-sucedido como treinador do United, Ten Hag conseguiu implementar seu estilo de jogo, abordando a posse de bola de forma diferente de Amorim. Embora ambos valorizem a posse, a maneira como o holandês ataca os espaços é muito mais fluida do que a do seu sucessor português. Afinal, Ten Hag é adepto do futebol total, mesmo que tenha influências do futebol alemão de Ralf Rangnick, que preza pela disciplina tática e é posicional.
Por isso, a afirmação de Amorim de que o United era uma tela em branco é equivocada. Os jogadores passaram muito tempo com um técnico que encorajava aproximação ao redor da bola, passes rápidos e movimentação fluida. Quando o português chegou, houve um choque de estilos, já que ele prioriza amplitude e um jogo mais posicional.
2 – O 3-4-3 de Amorim não proporciona a ocupação necessária do meio-campo na Premier League
Embora teoricamente jogue com quatro meias, Amorim gosta que os mais ofensivos ajam como pontas, o que explica por que jogadores como Alejandro Garnacho e Amad Diallo vêm recebendo chances mesmo não sendo meias de origem. Como seu jogo preza pela amplitude, o controle do meio-campo fica sobrecarregado nos volantes, o que não é sustentável em uma liga tão intensa quanto a Premier League.
Em Portugal, poucos times jogam com linhas altas contra o Sporting, e há pouca variação de estilo. Já na Premier League, a maioria das equipes joga de forma ofensiva e ocupa bem o meio-campo. Um exemplo disso foi a partida contra o Leicester City na FA Cup, onde Ruud van Nistelrooy fez um ótimo trabalho ao cercar os volantes do United e impedir a saída de bola curta.
Nos momentos em que o United mostrou seu melhor futebol, o 3-4-3 não estava sendo utilizado. A equipe variou para um 4-4-2, aproximando Joshua Zirkzee de Rasmus Hojlund como segundo atacante e posicionando Bruno Fernandes como meia central. Isso proporcionou melhor ocupação do meio-campo, melhorando a criação de chances e a solidez defensiva.
Até agora, porém, Amorim não demonstrou intenção de mudar seu esquema.
3 – Amorim não tem os jogadores ideais para seu estilo de jogo
Para tentar implementar o 3-4-3, o United precisou fazer várias improvisações. Enquanto esteve saudável, Amad Diallo jogou primariamente como ala e, embora tenha se saído bem, a exigência física dessa posição logo cobrou seu preço. Além disso, Noussair Mazraoui já foi testado como terceiro zagueiro e ala, Zirkzee virou meia atacante, Bruno Fernandes tem atuado como segundo volante, e até Kobbie Mainoo, volante de origem, foi utilizado como meia ofensivo.
Isso só funcionaria se Amorim não fosse um treinador que acreditasse tanto nos conceitos posicionais. No futebol posicional, a movimentação dos jogadores é pré-definida, e mudar suas funções pode comprometer não apenas o estilo de jogo, mas também a adaptação dos próprios atletas. Por isso, o português precisa se ajustar ao elenco que tem, e não o contrário.
Até onde é culpa de Ruben Amorim?
Apesar dos problemas apresentados até agora, Ruben Amorim está longe de ser o principal culpado pela má fase do United. Quando assumiu como dono da equipe, Jim Ratcliffe promoveu mudanças estruturais no clube, e os novos profissionais decidiram manter Ten Hag no cargo após a conquista da FA Cup.
No entanto, essa decisão se revelou equivocada, e o holandês apenas postergou sua demissão. Se havia intenção de demiti-lo desde o final da temporada passada, o clube deveria ter agido rapidamente, permitindo que um novo técnico assumisse e conduzisse as contratações. Em vez disso, reforços chegaram a pedido de Ten Hag, deixando um elenco montado para um treinador que sequer permaneceria.
A demissão do holandês também levou à saída do então diretor de futebol Dan Ashworth, que supostamente preferia Gareth Southgate a Amorim. Essa desorganização dentro do United não é novidade e continua sendo a principal razão para o declínio da equipe.
Além disso, Amorim tem lidado com um problema recorrente para os treinadores do United nos últimos anos: lesões. Ten Hag e Ole Gunnar Solskjaer também sofreram com isso, e o clube agora tenta resolver a situação trocando diversos profissionais da área física.
No entanto, Amorim tem sua parcela de culpa. Até o momento, ele se mostra um técnico teimoso e inflexível. Se quiser insistir em seu estilo de jogo, precisa apresentar resultados — ou correrá o risco de sucumbir junto a ele.
(Foto: Getty Images)