Lionel Scaloni Argentina
Futebol Copa do Mundo

Argentina desafia a história em busca do bicampeonato; Relembre campanhas de outros atuais campeões

A Copa do Mundo oferece à Argentina uma oportunidade rara. Atual campeã do mundo, a seleção comandada por Lionel Scaloni chega aos Estados Unidos, México e Canadá com a missão de tentar algo que nenhuma equipe consegue realizar há mais de seis décadas: defender com sucesso um título mundial. Desde o bicampeonato conquistado pelo Brasil em 1962, nenhuma seleção conseguiu levantar a taça em duas Copas consecutivas.

A dificuldade da tarefa vai muito além da qualidade dos adversários. A própria história recente do futebol mostra que defender um título mundial costuma ser uma armadilha para os campeões. Itália, Espanha, Alemanha e França descobriram isso da forma mais dura possível. Algumas sequer conseguiram sobreviver à fase de grupos. Outras chegaram ao torneio acreditando que a fórmula vencedora do passado continuaria funcionando, apenas para descobrir que o tempo havia mudado seus jogadores e suas equipes.

É justamente nesse ponto que surge a principal questão envolvendo a Argentina. Os atuais campeões possuem qualidade suficiente para repetir o feito de 2022, mas também carregam características que lembram seleções campeãs que fracassaram ao tentar defender a coroa.

O peso da história contra os campeões

Os exemplos recentes não são animadores para os argentinos. A Itália chegou à Copa de 2010 mantendo boa parte da base campeã de 2006 e terminou eliminada ainda na primeira fase. Quatro anos depois, a Espanha desembarcou no Brasil após dominar o futebol mundial entre 2008 e 2012, mas foi atropelada pela Holanda na estreia e caiu precocemente.

Em 2018, a Alemanha viveu situação semelhante. Joachim Löw manteve confiança em diversos jogadores que haviam sido fundamentais na conquista de 2014, mas o rendimento físico e técnico já não era o mesmo. O resultado foi uma eliminação histórica na fase de grupos.

O padrão se repete com frequência. Equipes campeãs normalmente desenvolvem um vínculo emocional muito forte com seus jogadores mais importantes. A conquista cria uma tendência natural de preservar a estrutura vencedora. O problema é que o futebol raramente espera. O que funciona em um ciclo pode não funcionar quatro anos depois. Por isso, a principal ameaça à Argentina talvez não seja um adversário específico, mas a possibilidade de acreditar que o sucesso de 2022 garante automaticamente competitividade em 2026.

A base argentina segue praticamente intacta. Dez dos onze titulares da final contra a França continuam presentes na atual campanha. Em um primeiro olhar, isso pode ser interpretado como uma vantagem. Afinal, poucas seleções possuem um grupo tão experiente e acostumado a disputar partidas decisivas.

A continuidade também permite que Scaloni preserve mecanismos coletivos que foram aperfeiçoados ao longo de anos. O entendimento entre os jogadores é evidente e a identidade da equipe continua muito clara. A Argentina sabe sofrer sem a bola, sabe controlar momentos de pressão e possui enorme maturidade competitiva.

Por outro lado, a permanência de tantos veteranos inevitavelmente levanta dúvidas. Alexis Mac Allister continua sendo um dos melhores meio-campistas do mundo, mas seu jogo mudou desde a Copa do Catar. Nicolás Otamendi chega ao torneio aos 38 anos. Nicolás Tagliafico também está em uma fase avançada da carreira. São detalhes que podem parecer pequenos, mas que costumam fazer enorme diferença em torneios curtos e de altíssima intensidade física.

Messi continua sendo o centro de tudo

Nenhuma análise sobre a Argentina pode ignorar Lionel Messi. Aos 39 anos, o camisa 10 inicia aquele que provavelmente será o último Mundial de sua carreira. A imagem do capitão levantando a taça no Catar parecia representar o encerramento perfeito de sua trajetória, mas o desejo de competir falou mais alto.

Do ponto de vista técnico, Messi continua entregando resultados. Foi peça importante na conquista da Copa América de 2024, liderou a Argentina durante as Eliminatórias Sul-Americanas e segue acumulando números expressivos mesmo atuando na MLS.

Além dos aspectos estatísticos, existe o impacto emocional que sua presença provoca. Messi continua sendo o jogador capaz de decidir partidas equilibradas com um único lance. Sua capacidade de enxergar espaços, acelerar jogadas e produzir momentos de genialidade permanece intacta.

O desafio é que uma Copa do Mundo exige muito mais do que talento. Para chegar novamente à final, a Argentina precisará disputar cinco jogos eliminatórios em apenas quinze dias. É uma carga física enorme para qualquer atleta, especialmente para alguém que se aproxima dos 40 anos.

Scaloni aposta no equilíbrio entre gerações

Se existe um fator que diferencia esta Argentina de algumas campeãs fracassadas do passado, ele está na tentativa de renovação gradual promovida por Lionel Scaloni. Embora a espinha dorsal continue sendo formada pelos campeões de 2022, a seleção incorporou novos jogadores ao longo do ciclo.

O principal exemplo é Nico Paz. Após uma temporada de destaque na Itália, o meia chega ao Mundial cercado de expectativa e visto como um dos talentos mais promissores do futebol argentino. Sua criatividade e capacidade de conduzir a bola oferecem características diferentes ao setor ofensivo.

Outros nomes, como Valentín Barco e Giuliano Simeone, também representam alternativas importantes. Nenhum deles carrega a responsabilidade de substituir imediatamente os veteranos, mas todos ajudam a dar novo fôlego a uma equipe que precisa equilibrar experiência e energia.

Essa mistura pode ser justamente o elemento que faltou para outras seleções campeãs no passado. Enquanto Itália, Espanha e Alemanha demoraram para promover uma renovação significativa, Scaloni tenta construir uma transição mais gradual. Do ponto de vista racional, é difícil apontar a Argentina como favorita absoluta para repetir o título. A história joga contra os atuais campeões, o elenco envelheceu em algumas posições importantes e a exigência física do torneio será enorme.

Ao mesmo tempo, poucas seleções chegam à Copa com tantas certezas. A Argentina possui um treinador consolidado, um grupo que se conhece profundamente, uma identidade de jogo bem definida e o jogador mais influente de sua geração. Além disso, continua demonstrando competitividade nos grandes torneios, como provou ao conquistar a Copa América após o título mundial.

Talvez a maior virtude desta equipe seja justamente sua capacidade de conviver com a pressão. Diferentemente de 2022, quando carregava o peso de encerrar um longo jejum, a atual geração joga sem a necessidade de provar nada para ninguém. O título já foi conquistado. O legado já está garantido.

O último capítulo de uma era na Argentina

No fim das contas, a campanha argentina em 2026 parece estar ligada a uma pergunta simples: até onde Lionel Messi e seus companheiros conseguem desafiar o tempo?

A lógica sugere cautela. A história mostra que defender uma Copa do Mundo é uma das tarefas mais difíceis do esporte. Quase todas as seleções que tentaram recentemente fracassaram de forma contundente. Mas a Argentina também aprendeu, ao longo dos últimos anos, a conviver com cenários improváveis. Foi assim na Copa América de 2021. Foi assim no Mundial do Catar. E continua sendo assim agora.

Se conseguir repetir o título, a seleção argentina não apenas conquistará um feito histórico. Também encerrará da maneira mais simbólica possível uma das eras mais vitoriosas de sua história, transformando a despedida de Messi em um capítulo ainda mais lendário do futebol mundial.