Arsenal - Mikel Arteta
Futebol Premier League

Campeão em xeque? Arsenal falha em tudo contra o Brighton; confira

O Arsenal viveu uma tarde para esquecer diante do Brighton. Atual campeão da Premier League, o time de Mikel Arteta chegou ao confronto cercado de confiança, mas saiu de campo com uma atuação completamente distante daquilo que o tornou tão forte na temporada passada.

Antes da partida, Arteta havia projetado um confronto bonito de assistir. Para o Brighton, certamente foi. Para o Arsenal, porém, o jogo virou uma espécie de choque de realidade.

Mesmo que o placar tenha sido um pouco mais pesado do que o desempenho das duas equipes poderia indicar, o treinador espanhol dificilmente poderia contestar o resultado. O maior problema não foi apenas perder, mas a maneira como os Gunners abandonaram vários dos princípios que costumam definir seu futebol.

O Arsenal normalmente é um time pragmático quando precisa ser, disciplinado e preparado para adaptar sua estratégia ao adversário. Contra o Brighton, fez praticamente o contrário.

Arsenal caiu exatamente na armadilha do Brighton

O primeiro grande erro esteve na forma como a equipe tentou construir desde trás.

O Brighton chegou ao jogo como uma das equipes mais eficientes da Premier League na pressão alta. Três dias antes, já havia sufocado o Manchester United com essa característica e entrou em campo ainda impulsionado pelas comemorações dos 125 anos do clube.

Mesmo sabendo disso, o Arsenal insistiu em sair jogando curto.

David Raya teve enormes dificuldades para encontrar opções e mandou diversas bolas diretamente para fora. Martin Ødegaard girava repetidamente em busca de espaços que simplesmente não apareciam, enquanto Ezri Konsa recebia pressão praticamente sempre que tocava na bola.

O problema foi tão grande que Kai Havertz precisou recuar até o próprio campo defensivo para tentar ajudar na construção.

Nem isso resolveu.

O alemão acabou inclusive cedendo o escanteio que originou o terceiro gol do Brighton, marcado por Chema Andrés.

Com o decorrer da partida, ficou cada vez mais evidente que a melhor maneira de superar a pressão seria buscar bolas mais longas e atacar o espaço deixado atrás das linhas do adversário.

O Chelsea já havia feito exatamente isso contra o Brighton nesta temporada.

Naquela ocasião, o time de Xabi Alonso realizou apenas dois passes dentro da própria área durante todos os 90 minutos, praticamente retirando da equipe adversária a principal arma de pressão.

O Arsenal tomou a direção oposta.

Foram 46 passes curtos nas proximidades do próprio gol, oferecendo ao Brighton exatamente o cenário que queria.

Isso chamou ainda mais atenção porque Arteta já mostrou várias vezes capacidade para modificar sua estratégia dependendo do adversário. Desta vez, porém, o Arsenal pareceu disposto a provar que conseguiria sair jogando mesmo contra uma equipe construída especificamente para impedir esse tipo de abordagem.

E acabou pagando caro.

Pressão expôs problemas antigos do Arsenal

O Brighton também conseguiu explorar uma dificuldade que não é exatamente nova.

O Arsenal já mostrou em outras partidas que pode sofrer quando enfrenta equipes agressivas sem a bola.

Na última temporada, o Manchester City mostrou um caminho semelhante na final da Copa da Liga. Bournemouth e Aston Villa também conseguiram forçar oito recuperações altas em partidas contra os Gunners, e ambos venceram.

Contra o Brighton, o mesmo tipo de problema reapareceu.

Declan Rice mostrou desconforto quando precisava acelerar passes sob pressão, especialmente utilizando a perna esquerda. O Arsenal também possui vários jogadores que dependem muito de um único pé, algo que facilita a leitura dos adversários.

Ødegaard, por exemplo, raramente utiliza a direita para construir. Isso permite que a pressão seja direcionada para bloquear seu lado preferido.

Bruno Guimarães deveria ser uma das soluções justamente para esse tipo de partida, oferecendo qualidade técnica para escapar da pressão.

Mas também teve dificuldades.

Seus primeiros toques frequentemente o colocavam em situações ruins e, em vez de quebrar linhas, o brasileiro muitas vezes acabou buscando contato dos marcadores na tentativa de conseguir faltas.

A insegurança também contaminou os jogadores que entraram depois.

Mikel Merino, por exemplo, praticamente tropeçou ao tentar realizar seu primeiro passe na partida.

Tudo isso aconteceu em um confronto que colocava frente a frente a melhor defesa da Premier League e o ataque mais produtivo.

Desta vez, o ataque venceu de maneira clara.

O Brighton terminou com 17 finalizações, maior número registrado por um adversário de Premier League contra o Arsenal desde o Manchester United na primeira rodada da temporada passada.

Grande parte das melhores oportunidades nasceu justamente das recuperações de bola em zonas altas.

Defesa também perdeu sua segurança habitual

Curiosamente, os primeiros gols não vieram necessariamente dessas grandes chances criadas pela pressão.

O Brighton conseguiu marcar também através de finalizações de fora da área.

Pascal Groß e Charalampos Kostoulas receberam espaço excessivo para arriscar, enquanto toda a defesa do Arsenal recuou em vez de encurtar.

Isso também expôs uma fraqueza específica de David Raya.

Desde agosto de 2025, o goleiro apresenta números bem mais negativos contra finalizações de longa distância do que contra tentativas de dentro da área.

Nesse período de Premier League, Raya sofreu 21 gols em 73 chutes enfrentados dentro da área, com taxa de conversão de 28,8%.

De fora, porém, sofreu nove gols em apenas 26 finalizações, uma taxa de 34,6%.

O contraste também aparece nos gols evitados. Dentro da área, os números indicam saldo positivo de 4,25 gols evitados. Em chutes de longa distância, o saldo é negativo em 6,04.

Depois de sofrer o primeiro gol, o Arsenal também perdeu outra característica que costuma ser importante: o controle emocional.

Na tentativa de buscar rapidamente o empate, a equipe começou a ficar cada vez mais desorganizada.

Bukayo Saka quase conseguiu marcar antes do intervalo, mas a própria movimentação ofensiva deixou espaços enormes atrás. O Brighton aproveitou para atacar uma equipe que parecia muito mais espalhada do que o normal.

Falta de disciplina completa tarde ruim dos Gunners

Outro aspecto preocupante apareceu já na reta final.

Nos primeiros anos de Arteta, o Arsenal ficou marcado por expulsões frequentes. Aos poucos, o treinador conseguiu eliminar esse problema, e a equipe passou mais de um ano sem receber um cartão vermelho na Premier League.

Contra o Brighton, Rice chegou perto de acabar com essa sequência.

Nos minutos finais, o meio-campista deu uma entrada desnecessária em Malick Yalcouyé e poderia ter recebido uma punição mais pesada.

Naquele momento, Rice já demonstrava irritação havia algum tempo.

Quando Arteta decidiu colocar Martín Zubimendi em campo, o inglês percebeu que seria deslocado para a lateral direita durante os últimos 30 minutos.

Sua reação foi visível.

Rice gesticulou bastante e mostrou clara insatisfação antes de caminhar para a posição improvisada.

Esse tipo de atitude chama atenção justamente porque Arteta construiu ao longo dos anos um elenco extremamente alinhado com suas ideias.

Jogadores que questionaram sua autoridade acabaram saindo, enquanto o grupo atual é formado quase totalmente por atletas que confiam no treinador.

Ødegaard já afirmou, inclusive, que é difícil sair de uma reunião com Arteta sem acreditar completamente naquilo que ele está dizendo.

Contra o Brighton, porém, essa conexão pareceu menos clara.

O Arsenal perdeu humildade tática, insistiu em uma saída de bola que não funcionava, mostrou pouca consciência das próprias limitações, perdeu sua organização defensiva e terminou a partida também dando sinais de indisciplina.

Foi apenas uma derrota, mas uma derrota que mostrou como a defesa do título da Premier League pode ser muito mais complicada do que parecia.

O maior alerta para Arteta não está apenas no placar.

Está no fato de que, durante boa parte do jogo, o Arsenal pareceu abandonar justamente os princípios que haviam transformado a equipe em campeã.

Foto: Imago