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Futebol Brasileirão

Com Tite, Botafogo regride e começa a preocupar por luta contra o rebaixamento

A chegada de Tite naturalmente criou a expectativa de uma reação imediata no Botafogo. A estreia, porém, mostrou que o treinador terá muito trabalho pela frente. A derrota por 2 a 0 para o Mirassol, no Maião, pela 28ª rodada do Campeonato Brasileiro, expôs novamente problemas que acompanham o time principalmente desde a Copa do Mundo.

Mais preocupante do que perder na estreia do novo treinador é olhar para o contexto. O Botafogo permanece com 35 pontos, na 12ª colocação, e entra nas dez rodadas finais ainda sem conseguir apresentar uma identidade clara. Antes do complemento da rodada, são nove pontos de distância para a zona de classificação para a Libertadores e sete para a zona de rebaixamento.

Não significa que o Botafogo esteja em uma situação desesperadora, mas o sinal de alerta precisa estar ligado. O time já teve três treinadores na temporada, alternou momentos de competitividade com atuações ruins e agora terá 16 dias sem partidas para tentar iniciar uma reconstrução sob o comando de Tite.

Botafogo teve a bola, mas não soube o que fazer com ela

A primeira escalação de Tite teve Gabriel Batista; Vitinho, Lucas Monzón, Ferraresi e Alex Telles; Huguinho, Medina, Danilo e Montoro; Danilo Pereira e Arthur Cabral. Desde os primeiros minutos, uma das orientações era utilizar bastante Medina pelo lado direito, aproximando o argentino de Vitinho.

O Botafogo até conseguiu ficar mais tempo com a bola. O problema é que ter a posse não significou controlar a partida. A circulação era lenta, os passes longos apareciam com frequência e os cruzamentos forçados acabavam facilitando o trabalho defensivo do Mirassol.

O primeiro gol deixou isso ainda mais evidente. Aos 15 minutos, o Mirassol conseguiu atacar pelo lado esquerdo, encontrou espaço nas costas de Alex Telles e Edson Carioca cabeceou. Gabriel Batista deu rebote, e Eduardo aproveitou para abrir o placar contra seu ex-clube.

O Botafogo sentiu o gol e não encontrou soluções para mudar o cenário. Nos acréscimos, novamente em uma jogada nas costas de Alex Telles, Edson Carioca cruzou rasteiro, Monzón não conseguiu afastar e Eduardo apareceu livre dentro da área para marcar novamente.

Os números até poderiam sugerir algum equilíbrio. O Botafogo terminou o primeiro tempo com 55% de posse, cinco finalizações, duas no alvo e mais passes trocados. Dentro de campo, entretanto, o Mirassol foi muito mais eficiente. O Alvinegro tinha a bola, mas não conseguia transformar esse domínio em perigo.

Ziyech oferece uma alternativa para Tite

Se o primeiro tempo aumentou a preocupação, a segunda etapa apresentou pelo menos alguns sinais positivos. Tite voltou do intervalo com Edenílson, Júnior Santos e Ziyech nas vagas de Huguinho, Danilo Pereira e Montoro.

A entrada do marroquino mudou a dinâmica do meio-campo. Mesmo ainda sem estar nas condições físicas consideradas ideais, Ziyech conseguiu dar mais qualidade à circulação e participou dos melhores momentos ofensivos do Botafogo.

Uma das jogadas que melhor representou aquilo que Tite pretende construir aconteceu aos nove minutos. Ziyech encontrou Medina pela direita, e o argentino entrou na área passando pela marcação até finalizar para defesa de Walter.

Tite ainda colocou Villalba na vaga de Arthur Cabral e, posteriormente, Kauan Toledo no lugar de Medina. O Botafogo tentou aumentar a pressão, empurrar o Mirassol para trás e teve mais presença no campo ofensivo. Não foi suficiente para alterar o placar, mas mostrou possibilidades diferentes daquelas apresentadas nos primeiros 45 minutos.

O próprio treinador admitiu que antecipou a utilização de Ziyech. A ideia inicial era dar apenas 20 ou 30 minutos ao meia, mas a necessidade de encontrar soluções fez com que ele entrasse já no intervalo. Sua qualidade individual pode ser uma peça importante para fazer o Botafogo deixar de simplesmente ter a bola e passar a criar com ela.

Tite terá que corrigir problemas antigos

Seria precipitado colocar toda a responsabilidade pela derrota sobre Tite. Era apenas seu primeiro jogo, contra um adversário descansado, enquanto o Botafogo havia entrado em campo no meio da semana diante do Grêmio. O próprio treinador citou o desgaste, embora tenha feito questão de afirmar que não queria utilizar isso como desculpa.

A questão é que os problemas vistos em Mirassol não começaram com o novo comandante. O Botafogo vem sofrendo para apresentar regularidade e construir uma identidade durante praticamente toda a temporada. Tite herdou essas dificuldades e agora terá a missão de resolvê-las.

O período de 16 dias sem jogos, portanto, chega em excelente momento. Será praticamente uma intertemporada antes das dez últimas rodadas do Brasileirão. Tempo para trabalhar questões físicas, organizar o sistema defensivo e, principalmente, encontrar uma maneira mais eficiente de transformar posse de bola em oportunidades.

Também será importante entender como utilizar Ziyech, Medina e Danilo dentro dessa construção. A estreia do marroquino mostrou que existe qualidade para acelerar o jogo e encontrar passes diferentes. Agora, Tite precisa encaixar essas características dentro de um funcionamento coletivo.

Rebaixamento começa a entrar no radar

O currículo de Tite dá respaldo para que o trabalho seja desenvolvido com paciência. O treinador chega com experiência suficiente para entender o momento e sabe que dificilmente conseguiria mudar completamente uma equipe em poucos dias.

Só que a tabela não permite tranquilidade absoluta. Com 35 pontos, o Botafogo ainda possui uma margem em relação ao Z-4, mas está mais próximo da zona de rebaixamento do que da região de classificação para a Libertadores antes do complemento da rodada.

O próprio resultado contra o Mirassol serve como alerta. O adversário chegou aos 32 pontos e diminuiu a diferença para o Botafogo. Quando equipes da parte inferior começam a pontuar, uma sequência negativa pode rapidamente transformar uma posição aparentemente confortável em preocupação.

Por isso, o Botafogo precisa utilizar a pausa para definir qual será sua realidade nas dez rodadas finais. Ainda existe tempo para reagir e terminar o campeonato de maneira mais tranquila, mas também não há espaço para imaginar que a posição atual seja suficiente.

A estreia de Tite mostrou um Botafogo ainda burocrático, vulnerável defensivamente e pouco produtivo com a bola. O segundo tempo, principalmente pela participação de Ziyech, deixou uma pequena amostra de evolução possível. O treinador agora terá tempo para trabalhar.

Depois desses 16 dias, porém, a cobrança será diferente. O Botafogo precisa começar a apresentar respostas rapidamente. Caso contrário, a reta final que poderia servir para reconstruir o time pode acabar se transformando em uma inesperada luta contra o rebaixamento.

(Foto: Vitor Silva/Botafogo)