A Bósnia e Herzegovina pode até não entrar em campo com o favoritismo diante dos Estados Unidos, mas quem pensa que o duelo será apenas um protocolo para os donos da casa corre o risco de se surpreender. A seleção balcã construiu uma das histórias mais marcantes desta Copa do Mundo e chega ao mata-mata carregando um combustível que vai muito além da parte técnica.
Depois de superar obstáculos dentro e fora de campo, os Dragões garantiram vaga na fase eliminatória e agora enfrentam os norte-americanos em Santa Clara, na Califórnia, sonhando em continuar escrevendo um capítulo histórico. Do outro lado, os EUA têm um elenco tecnicamente superior, mas sabem que encontrarão um adversário extremamente competitivo, organizado e acostumado a superar cenários improváveis.
A Bósnia é movida pela própria história
A campanha da Bósnia começou a ganhar força antes mesmo da bola rolar. Em maio, uma música tomou conta das redes sociais entre os torcedores do país. Com forte influência da música tradicional balcã, o hit “I Am From Bosnia – Take Me to America” viralizou rapidamente e acumulou milhões de visualizações no YouTube.
A canção virou praticamente um hino da torcida durante a Copa do Mundo. Além do ritmo contagiante, a letra simboliza a conexão entre a seleção e a enorme comunidade de bósnios espalhada pelos Estados Unidos, especialmente após a guerra que marcou a década de 1990.
Essa ligação ficou evidente durante toda a fase de grupos. Em cidades como Los Angeles, milhares de torcedores transformaram ruas e arredores dos estádios em verdadeiras festas nas cores azul e amarela, dando aos jogadores a sensação de atuar praticamente em casa.
Segundo Roger Bennett, fundador da Men in Blazers Media Network, esse fator emocional tem feito enorme diferença.
Enquanto os Estados Unidos costumam aproveitar o fator casa em grandes competições, a Bósnia encontrou nos imigrantes e descendentes espalhados pelo país um apoio semelhante, criando uma atmosfera extremamente favorável para a equipe.
A classificação foi construída na base da superação
Se alguém ainda duvida da capacidade da seleção bósnia, basta olhar para o caminho percorrido até chegar ao mata-mata.
Nas eliminatórias para a Copa do Mundo, os Dragões precisaram enfrentar duas potências europeias nos playoffs. Contra o País de Gales, a equipe saiu atrás do placar, buscou o empate nos minutos finais e venceu nos pênaltis.
Na decisão da vaga, o roteiro se repetiu diante da tetracampeã mundial Itália. Novamente a Bósnia sofreu, empatou perto do fim e levou a melhor nas cobranças de penalidades, conquistando uma classificação histórica.
Nem mesmo o desgaste físico conseguiu frear a campanha.
Durante a fase de grupos, a seleção percorreu aproximadamente 7.500 milhas (cerca de 12 mil quilômetros), viajando entre Utah, Toronto, Seattle e Los Angeles. Ainda assim, conseguiu empatar com o Canadá, vencer o Catar e garantir presença entre os classificados.
É uma equipe acostumada a sofrer, mas que dificilmente se entrega.
Estados Unidos têm mais talento, mas não podem relaxar
No papel, os Estados Unidos possuem jogadores mais valorizados e um elenco tecnicamente superior.
Atletas como Christian Pulisic, Gio Reyna, Weston McKennie e companhia oferecem muito mais qualidade ofensiva, velocidade e criatividade. Porém, a tendência é que encontrem uma defesa extremamente compacta.
A expectativa é de uma Bósnia bastante fechada, apostando em linhas baixas, muita força física e transições rápidas.
O próprio Gio Reyna destacou as dificuldades que espera encontrar.
Segundo o meia americano, os defensores bósnios são fortes fisicamente, bem posicionados e dificultam bastante qualquer tentativa de infiltração.
Em outras palavras, os Estados Unidos provavelmente terão a posse de bola durante boa parte da partida, mas precisarão de paciência para encontrar espaços.
Edin Dzeko continua sendo a principal referência
Mesmo aos 40 anos, Edin Dzeko segue sendo o grande símbolo do futebol bósnio.
Maior artilheiro da história da seleção, o atacante construiu uma carreira de enorme sucesso no futebol europeu, defendendo clubes como Manchester City e Inter de Milão.
Sua experiência faz diferença principalmente em jogos decisivos. Além do faro de gol, Dzeko é um atacante capaz de prender os zagueiros, criar espaços para os companheiros e aparecer nos momentos mais importantes.
Roger Bennett definiu o veterano como um dos grandes “snipers” da história recente do futebol europeu — e poucos discordariam dessa avaliação.
O “Milwaukee Messi” escolheu defender a Bósnia
Se Dzeko representa o passado e a experiência, Esmir Bajraktarevic simboliza o futuro da seleção.
Conhecido pelo apelido de “Milwaukee Messi”, o meia-atacante nasceu nos Estados Unidos, cresceu em Wisconsin e chegou a defender as categorias de base da seleção americana.
Seu vínculo com a Bósnia, entretanto, sempre falou mais alto.
Filho de refugiados do massacre de Srebrenica, Bajraktarevic nunca escondeu que sonhava representar o país de origem da família.
Depois de disputar uma partida pela seleção principal dos Estados Unidos, ele optou por mudar de nacionalidade esportiva e vestir a camisa bósnia.
Hoje defendendo o PSV, da Holanda, o jovem foi justamente o responsável por converter o pênalti decisivo contra a Itália, garantindo a classificação da equipe para a Copa do Mundo.
Curiosamente, quando criança, usava camisas de Edin Dzeko e dizia que um dia gostaria de jogar ao lado do ídolo. Agora, os dois lideram a esperança de um país inteiro.
Um fantasma europeu ronda os americanos
Existe outro dado que aumenta a tensão para os Estados Unidos.
A seleção americana acumula dez derrotas consecutivas diante de adversários europeus, um retrospecto que incomoda bastante torcedores e imprensa local.
Apesar de a Bósnia não estar entre as principais forças do continente, ela chega embalada, confiante e acreditando que pode ampliar essa sequência negativa.
Para os norte-americanos, uma eliminação em casa após uma boa campanha na fase de grupos seria considerada uma enorme decepção.
Principalmente porque o Canadá, outro representante da Concacaf, já conseguiu avançar às oitavas de final.
A pressão, portanto, está praticamente toda do lado dos anfitriões.
A Bósnia entra como azarão, mas já mostrou diversas vezes nesta Copa do Mundo que não se intimida diante de equipes mais tradicionais. Se conseguir repetir a organização defensiva e aproveitar as oportunidades que surgirem, os Dragões têm condições de transformar mais uma vez um roteiro improvável em realidade. Já os Estados Unidos sabem que favoritismo só existe até a bola rolar. Depois disso, será preciso confirmar dentro de campo tudo aquilo que o papel promete.
Foto: Sandra Agbotse—Sipa USA/AP