A vitória por 3 a 0 sobre a Escócia, que garantiu ao Brasil a liderança do Grupo C da Copa do Mundo, deixou sinais importantes para Carlo Ancelotti antes do início do mata-mata. Além do resultado convincente em Miami, a seleção apresentou evolução coletiva, consolidou mecanismos defensivos que ainda geravam dúvidas nas primeiras partidas e mostrou um repertório ofensivo cada vez mais consistente.
Com uma atuação dominante do início ao fim, o Brasil confirmou a curva de crescimento observada ao longo da fase de grupos. Em meio aos ajustes promovidos por Ancelotti, a seleção encerra a primeira fase com a sensação de que chega ao mata-mata em seu melhor momento desde o início do torneio. Confira as impressões do jogo.
Brasil se aproxima do “joga bonito” com um ataque cada vez mais fluido
Se houve uma grande notícia para o torcedor brasileiro na vitória sobre a Escócia, ela foi a evolução coletiva do setor ofensivo. Pela primeira vez nesta Copa do Mundo, o Brasil apresentou durante praticamente toda a partida uma dinâmica ofensiva que remete ao futebol associativo e criativo que historicamente marcou a seleção.
O quarteto formado por Matheus Cunha, Rayan, Vinícius Júnior e Lucas Paquetá, com Bruno Guimarães funcionando como organizador desde trás, deu ao ataque brasileiro uma fluidez que ainda não havia aparecido de forma tão consistente no torneio. As constantes trocas de posição confundiram a marcação escocesa e impediram que a defesa rival encontrasse referências claras para realizar a perseguição individual.
Matheus Cunha teve papel fundamental nesse processo. Atuando como centroavante, mas sem se limitar à zona central, o camisa 9 recuou diversas vezes para participar da construção, abriu corredores para infiltrações e serviu como ponto de apoio para acelerar as combinações ofensivas. Sua movimentação criou espaços que foram muito bem explorados por Vinícius Júnior e Rayan.
Os dois pontas viveram talvez sua melhor atuação conjunta na competição. Quando recebiam no um contra um, encontravam campo para acelerar e atacar os defensores. Quando não tinham espaço individual, apareciam por dentro para tabelas rápidas e aproximações curtas. O resultado foi um ataque imprevisível, capaz de criar vantagens por diferentes caminhos.
Mais do que os três gols marcados, o que chama atenção é a quantidade de jogadas construídas coletivamente e a sensação de que o Brasil finalmente encontrou uma identidade ofensiva clara.
O sistema de pressão está cada vez melhor
A estreia contra Marrocos deixou dúvidas importantes sobre o comportamento defensivo da equipe sem a bola. O encaixe da pressão parecia desorganizado, os espaços entre setores apareciam com frequência e o Brasil sofria para recuperar a posse em zonas avançadas.
Poucos dias depois, o cenário é completamente diferente. Contra a Escócia, a seleção voltou a utilizar o sistema de pressão estruturado em um 2-1-1. Vinícius Júnior e Rayan formavam a primeira linha, atacando os zagueiros e laterais adversários. Matheus Cunha ficava responsável por controlar o volante rival, enquanto Lucas Paquetá atuava como o homem da sobra, pronto para saltar sobre qualquer passe que quebrasse a primeira pressão.
A diferença é que, desta vez, o mecanismo funcionou de forma consistente durante toda a partida.
O primeiro gol nasce justamente desse contexto. A Escócia tentou sair jogando desde trás, foi sufocada pela pressão brasileira e acabou cometendo um erro que resultou na recuperação da bola em zona perigosa. Não foi um lance isolado. Ao longo de todo o primeiro tempo, os escoceses tiveram enorme dificuldade para construir desde a defesa.
O aspecto mais animador é que isso aconteceu contra um adversário de nível superior ao Haiti. Se contra os caribenhos ainda existia a dúvida sobre a fragilidade do rival, diante dos escoceses a pressão brasileira passou por um teste mais exigente e foi aprovada.
Uma das maiores preocupações após a primeira rodada parece ter sido solucionada justamente no momento em que a competição entra em sua fase decisiva.
Douglas Santos mostra adaptação à nova função
A lesão de Wesley obrigou Carlo Ancelotti a fazer ajustes importantes na estrutura da equipe. Um dos principais afetados por essa mudança foi Douglas Santos.
Inicialmente, o lateral exercia uma função mais conservadora. Quando o Brasil tinha a posse, formava uma linha de três defensores, garantindo equilíbrio e proteção contra transições adversárias. Com a ausência de Wesley, porém, sua responsabilidade mudou.
Douglas passou a ser o jogador encarregado de dar amplitude ao corredor esquerdo, avançando constantemente e participando diretamente das ações ofensivas.
A adaptação poderia ter gerado dificuldades, principalmente por se tratar de uma mudança significativa de função durante a própria Copa do Mundo. No entanto, jogo após jogo, o lateral parece cada vez mais confortável nesse papel.
Contra a Escócia, sua atuação foi um reflexo claro dessa evolução. Douglas apareceu com frequência no campo ofensivo, participou das triangulações com Vinícius Júnior e Paquetá e atacou os espaços deixados pela defesa adversária. Além disso, manteve o equilíbrio defensivo quando o Brasil perdia a bola.
A evolução do lateral oferece uma solução importante para Ancelotti. Em torneios curtos, a capacidade de adaptar peças sem comprometer o desempenho coletivo costuma fazer a diferença. E Douglas Santos tem mostrado exatamente isso.
Diferente de outras Copas, o Brasil chega ao mata-mata em curva de ascensão
Talvez a impressão mais importante deixada pela fase de grupos seja a sensação de crescimento contínuo.
Nas últimas Copas do Mundo, o Brasil frequentemente iniciou a competição em alta e encontrou dificuldades conforme o nível dos adversários aumentava. Em 2018 e 2022, por exemplo, a equipe mostrou momentos positivos na primeira fase, mas chegou ao mata-mata sem apresentar uma evolução significativa em relação aos jogos iniciais.
Desta vez, o cenário parece diferente. A equipe começou a competição cercada por dúvidas após a atuação diante do Marrocos. O desempenho foi irregular, os mecanismos coletivos ainda não estavam totalmente assimilados e a seleção parecia distante de sua melhor versão.
Desde então, porém, houve progresso visível. Contra o Haiti, o Brasil recuperou confiança. Contra a Escócia, apresentou seu desempenho mais completo até aqui. A pressão funcionou, o ataque produziu, a circulação de bola foi mais rápida e os jogadores parecem entender cada vez melhor seus papéis dentro do sistema.
Mais do que os resultados, chama atenção a trajetória. O time não está sobrevivendo aos jogos. Está evoluindo de uma partida para outra.
E esse costuma ser um dos sinais mais importantes de equipes que chegam longe em Copas do Mundo. Enquanto muitas seleções atingem seu auge cedo demais, o Brasil dá indícios de que ainda tem margem para crescer justamente quando a fase eliminatória começa. Isso talvez seja a melhor notícia possível para Carlo Ancelotti.
(Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP)

