O futebol italiano perdeu um de seus clubes mais tradicionais. O Brescia Calcio, fundado em 1911 e dono de mais de um século de história, decretou falência e deixará de atuar profissionalmente. Após anos mergulhado em crises financeiras, quedas esportivas e tentativas fracassadas de reestruturação, o clube da Lombardia comunicou oficialmente à Federação Italiana de Futebol que não irá se inscrever nas competições profissionais da temporada 2025/26.
O fim de linha de um clube que, embora modesto em comparação aos gigantes de Milão, Turim e Roma, acumulou uma herança riquíssima em nomes, episódios e momentos marcantes. E que agora inicia uma nova vida no futebol amador, com a missão de reconstruir a partir das cinzas.
A história centenária de um clube resiliente
Fundado em 17 de julho de 1911, o Brescia Calcio se estabeleceu como uma das presenças mais constantes nas divisões de acesso da Itália, especialmente na Serie B. Não à toa, o clube é detentor do recorde de participações na segunda divisão italiana, com mais de 60 edições disputadas.
O “Le Rondinelle”, como é conhecido, sempre foi identificado como símbolo da resistência esportiva: nunca conseguiu consolidar-se de vez entre os grandes, mas também nunca desapareceu, até agora.
Na elite do futebol italiano, o clube participou de 23 edições da Serie A, sendo a mais marcante no início dos anos 2000. O período entre 2000 e 2005 representou a era de ouro do Brescia, tanto em resultados quanto em visibilidade. Liderado por Roberto Baggio dentro de campo e Carlo Mazzone no banco de reservas, o time surpreendeu o país ao praticar um futebol competitivo, empolgante e até mesmo ousado.
Em 2001, o Brescia atingiu sua melhor campanha na Serie A: oitava colocação, o que garantiu ao clube vaga na extinta Copa Intertoto da UEFA. Apesar de ter sido eliminado pelo Paris Saint-Germain, o clube viveu ali seu ápice esportivo em âmbito internacional.
Baggio, Pirlo e companhia: quando o mundo olhou para Brescia
O principal nome da história do Brescia é, sem dúvidas, Roberto Baggio. O craque italiano, já em fim de carreira, escolheu o modesto clube lombardo como destino final de sua trajetória nos gramados. Entre 2000 e 2004, Baggio encantou a torcida e colocou o Brescia nos noticiários internacionais, não apenas pelo que fazia em campo, mas pelo respeito e dedicação que demonstrava por um clube que, até então, era periférico no futebol europeu.
Baggio marcou 45 gols em 95 jogos pelo Brescia. Foi ovacionado por torcedores adversários, deu assistências memoráveis, protagonizou viradas improváveis e até defendeu o time de rebaixamentos, literalmente “carregando nas costas” a camisa número 10.
Mas Baggio não foi o único astro. O jovem Andrea Pirlo, formado na base do próprio Brescia, também teve passagem marcante. Foi no clube que ele começou a atuar como um regista recuado — papel que o consagraria no Milan e na seleção italiana. Também passaram por lá Pep Guardiola (já veterano), Gheorghe Hagi, Dario Hubner, Luca Toni e Marek Hamsik, além do saudoso treinador Carlo Mazzone, símbolo de carisma e competência.
O declínio inevitável
Após a saída de Baggio, o clube enfrentou dificuldades crescentes. Voltou à Serie B, os resultados se tornaram instáveis, e as finanças passaram a demonstrar sinais de colapso. A morte de Gino Corioni, presidente durante 23 anos, em 2016, simbolizou o fim de uma era. Sem liderança forte e com gestões frágeis, o clube mergulhou em dívidas trabalhistas, pendências fiscais e escândalos administrativos.
Em 2020, o retorno à Serie A durou apenas uma temporada. E a partir dali, o colapso se acelerou. Em 2023, o clube escapou do rebaixamento à Serie C por critérios técnicos. Em 2025, veio o golpe final: o clube não conseguiu comprovar capacidade financeira para se inscrever na Lega Pro. Sem investidores, sem apoio político e com a torcida resignada, a falência foi decretada.
Com a falência formalizada, o Brescia irá se reorganizar como clube amador. A expectativa é que dispute os campeonatos regionais da Lombardia, sob outro CNPJ, mas com a mesma paixão de sua torcida. Parte da diretoria busca atrair ex-jogadores para contribuir com o renascimento. Nomes como Andrea Pirlo e Marco Zambelli já demonstraram disposição para ajudar no projeto de reconstrução.
Será um recomeço do zero. Sem estádio profissional, sem centro de treinamento, sem contratos. Apenas a camisa, a história e a torcida. É pouco para um clube que já abrigou lendas — mas é o suficiente para manter viva a esperança.
E como tantas outras vezes ao longo de mais de um século, vamos esperar o Brescia ressurgir das cinzas. Desta vez, mais modesto, mais ferido, mas talvez ainda mais verdadeiro. Porque o futebol, como a vida, também é feito de recomeços.
(Foto: Luca Rossini/NurPhoto)